Foram 18 horas para fechar o Orçamento de 2015, com duas interrupções para almoço e jantar. Mas não foi a mais longa reunião do Conselho de Ministros presidido por Pedro Passos Coelho, numa metodologia de trabalho rara noutros governos e tradição neste.

A mais prolongada aconteceu em outubro de 2012, para fechar o Orçamento do ano seguinte — e que teria como resultado a criação da sobretaxa de 3,5% de IRS, compensando o chumbo do TC ao corte do ano anterior nos dois subsídios da Função Pública e reformados. Foi no dia 10 de outubro, começando às 8 horas da manhã. Durou 20 horas, como registou a imprensa na altura. E abriu a porta a uma violenta discussão com o CDS, que contestava a sobretaxa e fez de tudo para a reduzir dos 4% da proposta inicial para os 3,5% em que acabou.

Nesse outubro quente (que começou com a comunicação de Passos Coelho onde anunciava a intenção de manter o corte dos subsídios e baixar a TSU às empresas), houve até uma reunião preparatória, que durou também mais de 11 horas — e que terminou sem comunicado.

O primeiro Orçamento do Estado já permitia antever a tendência: oito horas numa primeira reunião negocial, mais 11 horas na segunda, a 13 de outubro — onde ficaram definidos os tais cortes de subsídios, comunicados na mesma noite ao país por Passos Coelho (aí sem oposição dos centristas).

Quanto ao Orçamento de 2014, agora em vigor, deu direito a uma maratona de 17 horas na Presidência do Conselho de Ministros. Nesse documento, ainda sob supervisão da troika, constavam cortes nas pensões da Caixa Geral de Aposentações (depois chumbados pelo TC) e nos salários do Estado (num modelo idêntico ao aplicado por Sócrates em 2011, mas de maior incidência, também chumbados no Ratton).

Mesmo assim, por prolongados que fossem, estes conselhos não foram os mais duros para a coligação. O pior aconteceu em abril de 2013, em cima de um congresso do PS, quando Paulo Portas decidiu pôr uma linha vermelha numa medida que Vítor Gaspar negociava com a troika: ficou conhecida como a TSU dos pensionistas, mas era uma contribuição de sustentabilidade sobre as pensões. E ameaçou demitir-se por isso. Estávamos em cima da sétima avaliação da troika, dura porque vinha de um outro chumbo no Constitucional, e que acarretava novas metas e a preparação do Orçamento seguinte.

A revisão tremeu (Cavaco diria mais tarde, citando Maria Cavaco Silva, que se salvou por obra de Nossa Senhora de Fátima). Mas acabou por se salvar num segundo Conselho de Ministros que colocou a medida como não vinculativa. Este começou tenso, com Passos disposto a demitir-se e com audiência pedida ao Presidente, com Gaspar em Bruxelas preso a um compromisso. E resultou, sem que o país o soubesse, num pedido de demissão de Gaspar.

Pelo meio deste longo historial, existiram outras reuniões longas em conselhos extra, mais dedicados a preparar reformas. Uma pesquisa nos jornais da época mostra, por exemplo, esta primeira realizada no Forte de São Julião da Barra, em Lisboa. ‘Só’ durou 11 horas, a preparar “as reformas estruturais a realizar em Portugal em 2012.