Falar da reestruturação (ou renegociação) da dívida pública é um tema que tanto o primeiro-ministro como António Costa dispensavam neste momento. Passos Coelho já disse que não vê “vantagens” no debate que chega esta quarta-feira ao Parlamento a reboque da esquerda à esquerda do PS e do Manifesto dos 74, que foi assinado por alguns membros da bancada socialista, incluindo o líder parlamentar, Ferro Rodrigues. E António Costa dispensava a prova de fogo assim que pega, mesmo que oficiosamente, no partido.

Por isso, o debate desta quarta-feira vai ser gerido como foi a apresentação de um projeto próprio pelo PS: com todo o cuidado. E os motivos para a equipa de Costa são vários, começando pelo facto de nem todos os deputados concordarem com os pressupostos do manifesto e também pela alteração das circunstâncias, como a queda do BES.

Na bancada do PS nem todos concordam com o que defenderam os economistas. Fonte da bancada lembra ao Observador, por exemplo, que grande parte da dívida está na mão de bancos portugueses e que é necessário avaliar o futuro impacto de uma reestruturação da dívida sem que houvesse uma solução para a banca. O mesmo socialista que lembra esta posição – que parte de um argumento também utilizado pelo Governo – recorda também que houve outras propostas mais completas sobre o assunto que poderiam ser debatidas na Assembleia da República, como a proposta apresentada por Pedro Nuno Santos, Francisco Louçã e Ricardo Cabral que tinha uma parte de avaliação do impacto no sistema bancário.

A cautela com o tema foi muita desde início tanto que o PS apenas apresentou um projeto a defender um debate sobre o assunto, não assumindo nenhuma posição. Fonte da bancada diz ao Observador que a escolha pela apresentação deste projeto sem posição de partida se prendeu com a tentativa de evitar as balas de ambos os lados tendo em conta que os socialistas foram obrigados a mostrar o jogo numa altura sensível. É que Costa ainda não foi eleito líder do partido e ainda não fez sair um programa e a intenção era centrar o debate no combate ao Orçamento do Estado para 2015.

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E por isso, o sentido de voto aos projetos do BE e do PCP só será decidido na reunião da bancada de quinta-feira. Mas se o projeto comunista é difícil de aprovar porque tem pressupostos com os quais o PS não concorda, o projeto do Bloco, apresentado logo em abril na sequência da apresentação do Manifesto dos 74, é mais difícil de gerir. É que o texto do projeto de resolução cola-se ao texto do Manifesto, que foi aprovado por alguns deputados socialistas.

E por isso mesmo, os deputados socialistas, serão pressionados pelo BE a aprovarem o projeto e pela maioria para que digam o que defendem. Mas nesta altura o PS pretende fintar a pressão e remeter para o debate de especialistas, dizendo que não é com um curto debate de minutos no Parlamento, que a Assembleia recomendará uma solução ao Governo sobre um assunto tão importante.