Uma ambulância da freguesia da Povoa de Santa Iria percorre a estrada CREL 9 a toda a velocidade. Vai no sentido do hospital de Vila Franca de Xira, epicentro do tratamento do surto de Legionella. Segue pela faixa de trânsito mais à esquerda e leva os pirilampos acesos. Parece cortar um lago, pelos repuxos de água que cria à sua volta.

O restaurante Solar da Ponte, localizado já na entrada de Vila Franca de Xira, está encerrado. As portas estão vedadas por um gradeamento verde. Colado a uma porta está um papel do velório de uma das quatro pessoas que faleceu devido à Legionella: Generoso de Jesus da Costa, 66 anos. Segundo alguns dos moradores locais, Generoso já tinha problemas de saúde. Aquele restaurante é de familiares.

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Restaurante dos familiares.

Neste momento, não há certezas. No domingo, Francisco George, responsável da direção geral de saúde, afirmou que o surto de Legionella, que já causou mais de 230 infeções e cinco mortes, podia estar “próximo do máximo”. Nesta segunda-feira, Graça Freitas, sub diretora da mesma instituição, já não se mostrava tão confiante. “Não sabemos se já passou o pior”, disse. É uma bomba relógio, que pode, ou não, rebentar. O período de incubação da bactéria complica as contas: o mais comum é entre dois a dez dias, mas em alguns casos pode só se manifestar ao fim de 15. Entretanto, a população das freguesias de Póvoa de Santa Iria, Vialonga e Forte da Casa, as mais afetadas, questiona-se.

O hospital de Vila Franca de Xira está calmo na tarde de segunda-feira. Não fosse o aglomerado de carrinhas de televisão na entrada, o cenário seria igual ao de todos os dias. Na receção, nada indica que aquele edifício está no meio de uma crise de saúde pública. Um projetor passa numa das paredes informações de prevenção sobre o ébola e os diabetes.

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A chuva ligeira não parou durante todo o dia. A neblina cobre o céu. Nada é claro. “Andam a esconder qualquer coisa”, queixa-se Maria Almeida, uma algarvia de passagem em Vila Franca de Xira. Quando na sexta-feira chegou ao hospital para visitar a sogra que tinha sido submetida a uma operação, encontrou um cenário caótico. “Estavam 60 pessoas [com Legionella] à espera de cama”, diz. Mas depois, “quando deu na televisão disseram só 27”, acrescentou.

Para Maria Almeida, o maior problema do surto está na falta de informação. “Tem incongruências nas medidas de prevenção que são indicadas”, diz, ao falar da recomendação de mergulhar o telefone do chuveiro em lixívia. “Depois de ligar a água, a lixívia vai desaparecer rapidamente”, diz.

Em Portugal, nunca tinham sido diagnosticados tantos casos por Legionella num só local e da mesma vez. Entre 2004 e 2013, foram internadas 1188 pessoas, das quais 86 morreram. Com base nas análises preliminares, foram encerradas as torres de refrigeração das principais fábricas das três freguesias do sul do concelho de Vila Franca de Xira. Mas não há certezas.

Joaquina Pinto, 64 anos, vem fumar um cigarro ao exterior do edifício. Veio ao hospital visitar uma amiga que tinha sido operada. “Não estou preocupada, mas também não estou a gostar do rumo que isto está a tomar”, diz. Dá passas rápidas no cigarro e não pára de mexer os pés. “Está frio.” Se a situação não se clarificar em breve, Joaquina admite “tirar umas férias no norte” do país. “Tenho lá os meus filhos. Já não tenho idade para tomar banho de toalhetes”, diz, a rir-se.

Buracos e suspeitas

A mercearia de Arvinda Javer está localizada mesmo em frente ao Centro Desportivo e da Juventude da freguesia de Forte da Casa. Neste dia, está encerrado por medida de prevenção. Nas ruas da Liberdade, Alves Redol e 25 de Abril, que rodeiam o edifício, moram mais de 30 pessoas infetadas com a bactéria.

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Arvinda Javer

Logo à entrada da mercearia de Arvinda, dá para ver filas com mais de cinco metros de garrafões de água. Apesar de a direção geral de saúde dizer que não existe risco em consumir água da torneira para beber, muitos dos moradores da freguesia não acreditam, enquanto não souberem a origem do surto. A água “evapora-se” das prateleiras, desde sexta-feira.

Arvinda Javer cerra os olhos. “Estou desconfiada que têm qualquer coisa a ver com os tubos de água e esgoto que andaram para ali [no largo do MFA] a mudar”, diz. Há quatro dias, a dona da mercearia tirou um copo de água da torneira estranho. “Reparei logo, sabia a porcaria”, conta, franzindo a testa.

Entretanto, chega Kamlesh Javer, o filho. “O que tenho lido é que é deve ser das fábricas”, diz, desconsiderando a opinião da mãe. Os dois sabem de pelo menos “três clientes habituais” que estão hospitalizados. Na despedida, Arvinda deixa uma última nota: “A crise é grande. Já tive várias pessoas se queixaram que não tem orçamento para estar a comprar água desta forma.”

Um pouco mais abaixo, encontramos Teresa Mendes sentada no escritório da agência de seguros Árbitra. Tal como Arvinda, Teresa suspeita que a fonte de contaminação foram as obras na canalização que fizeram no largo do MFA.

“Até há 15 dias, isto estava tudo esburacado”, diz, ao apontar para o largo. Foi necessário substituir a canalização dos esgotos e da água na freguesia, porque os “tubos eram antigos e estavam cheios de fugas.” Para a seguradora, foi aí que começou a “contaminação”.

Teresa Mendes tem uma teoria. Faz fisioterapia, há três meses, em Vialonga, outra das freguesias mais afetadas. Há um mês, surgiram “o mesmo tipo de obras” na localidade. “O bombeiro que faleceu vivia ao pé do sítio das obras”, diz, em tom de denúncia. E na Povoa de Santa Iria também houve obras iguais a estas, “quase na mesma altura”.

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Teresa Mendes mostra parte das obras que ainda estão por completar.

Cansada de falar em abstrato, pega no guarda-chuva e vai mostrar ao jornalista as obras, como uma detetive que mostra provas do seu trabalho. No largo do MFA ainda estão visíveis vários buracos, as obras ainda não estão concluídas. Teresa não acredita na teoria que o problema da Legionella pode ter origem no sistema de refrigeração de uma fábrica local. “Uma das senhoras que faleceu estava acamada, há quatro anos”, diz, explicando que o único contacto que ela teve com água foi o banho dado pelas assistentes sociais que a visitavam diariamente.

Por agora, Teresa evita espaços públicos. Tem um filho de 25 anos que sofre de síndrome de down e com problemas respiratórios.  “São banhos com água do garrafão”, diz. Banhos com cafeteiras, panelas e esponjas. “Se fosse do ar já tinha o meu garoto com problemas”, diz, para concluir que a sua teoria está correta.

Ana Paula, 62 anos, mora num apartamento na rua da Liberdade. E estava à janela a conversar com uma vizinha sobre o surto de Legionella.

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Ana Paula fala à janela.

O irmão de Ana Paula foi internado na quinta-feira, no hospital de Vila de Franca de Xira, com 41 graus de febre. Esteve desde as nove da noite às cinco da manhã para ser atendido. E acabou por ser diagnosticado como estando infetado pela bactéria Legionella. “Ontem já se levantava e tomou banho sozinho”, diz Ana Paula.

O irmão de Ana Paula trabalhava na fábrica SOLVAY – uma das que está a ser investigada como possível origem do surto da bactéria. Mesmo assim, a moradora da rua da Liberdade não parece assustada. Antes pelo contrário: está de muito bom humor. “Só não morre quem não está vivo”, diz.

Dá-se até ao luxo de brincar com o marido, que acusa de ser hipocondríaco, por estar preocupado. “Ai doem-me tanto as articulações”, diz, enquanto toca os joelhos como numa dança ao imitar as queixas do marido. “Liguei para a Saúde24 só para ele ir dormir descansado”, acrescenta, a rir-se. Despediu-se para ir tomar um banho, mas “não de toalhitas”.

“Onde é que está internado o marido da Zezinha?”

São seis da tarde, é noite cerrada. Chove num ritmo constante. Na freguesia da Póvoa de Santa Iria, a maioria das pessoas que se veem estão abrigadas em cafés.

“Onde é que está internado o marido da Zezinha?”, pergunta Isaura Leitão, dona do café Cantinho da Bábá, a uma das clientes, no mesmo momento em que o jornalista entra. Em todos os lados, o tema de discussão é o mesmo: o que é a Legionella? Como é que é transmitida?

“Parece que estão a esconder alguma coisa”, queixa-se Isaura Os moradores da Povoa de Santa Iria querem saber a origem do surto. “Está tudo aterrorizado”, diz, detrás do balcão. É o “senhor do Partido Comunista”, o “vizinho de cima”, o “senhor que trabalha para a CP”. É assim que se fala dos conhecidos que vão desaparecendo e rumam em direção ao hospital.

Vitor Leitão, o marido de Isaura, junta-se à conversa e acusa a fábrica SOLVAY. “Não tenho dúvidas, aquilo está podre e a contaminar pessoas” diz. Gesticula com os braços, como se estivesse em cima de um púlpito a fazer um discurso.

Vanessa Freira está no café com a filha oito anos, Laura. “Na turma dela são 24 crianças. Hoje, só oito foram à escola”, diz, acrescentado que não sabe se no dia seguinte vai levar Laura à escola. “As máscaras na farmácia esgotaram”, conta.

Para já, Vanessa dá banho à filha com uma toalha molhada, seguindo as recomendações da Direção Geral de Saúde. As expressões faciais de Vanessa denunciam-na. E diz: “As pessoas estão com medo”.

Vialonga

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Bombeiros voluntários de Vialonga

Uma carrinha funerária está com a traseira dentro do quartel de bombeiros de Vialonga. Está a decorrer o velório do bombeiro Fernando Neves, uma das cinco pessoas que faleceram devido ao surto de Legionella.

Na entrada, estão dois homens a fumar. Têm os olhos vermelhos, estiveram a chorar. Muitos bombeiros passam no local para expressar os sentimentos à família. O espaço está em silêncio. E fica em silêncio sempre que aparece alguém. Amanhã é o funeral.

“De onde veio a doença?”, pergunta um familiar.