Um almoço “inocente” e que viria a constituir uma “coincidência complicada”. Foi assim que Fernando Pinto Monteiro, antigo procurador-geral da República, em entrevista à RTP, classificou esta segunda-feira, o encontro com José Sócrates, ex-primeiro ministro, ocorrido a 18 de novembro, três dias antes de Sócrates ser detido para interrogatório no aeroporto de Portela, em Lisboa, acusado de crimes de branqueamento de capitais, evasão fiscal e corrupção. “Aconteça o que acontecer, nunca o Engenheiro José Sócrates me perguntou nada sobre justiça”, sublinhou Pinto Monteiro.

O almoço realizou-se no Hotel Avis, em Lisboa, um dia depois de Pinto Monteiro receber “um telefonema do secretário” do antigo primeiro-ministro. “Fiquei surpreendido porque nunca tinha almoçado com José Sócrates”, confessou o ex-PGR, que exerceu o cargo entre 2006 e 2012. O encontro foi noticiado pelo Semanário Sol e Pinto Monteiro suspeitou da existência de escutas. “Não tenho nada contra as escutas ou deixo de ter. Mas não percebo como são fornecidas a um jornal”, disse.

Pinto Monteiro apontou que não terá sido o hotel a informar a comunicação social, já que, defendeu, o almoço foi “erradamente” descrito. “Dizem que o José Sócrates esperou dez minutos por mim. Mas não, esperou mais de uma hora”, sublinhou.

O antigo PGR admitiu que ficou “surpreendido” com o convite de José Sócrates, antes de garantir que “foi um almoço” no qual ambos falaram “de livros e das viagens” do ex-líder do Partido Socialista. “Durou uma hora e pouco. Eu almoço com quem quero. Simpatizo com José Sócrates, como tenho com outras pessoas. Não nego as simpatias que tenho”, explicou Pinto Monteiro.

Pinto Monteiro assegurou que entre 2006 e 2012, período em que assumiu o cargo de PGR, “nunca” almoçou “a sós” com José Sócrates, que era na altura o primeiro-ministro em funções. Durante esses seis anos, aliás, defendeu que apenas recebeu “um telefonema” do hoje constituído arguido pelo Ministério Público: “Foi para me desejar um Bom Natal.” Sobre a “Operação Marquês” e o caso que decorre com o antigo primeiro-ministro, Pinto Monteiro disse que “está a haver um aproveitamento político num caso jurídico”, reforçando o que diz ser “uma promiscuidade entre política e justiça”.