A pressão pode ser tramada. O medo de fazer mal as coisas. De não ser tão bom quanto os outros esperam. De desiludir quem aposta em nós ou de estragar algo que vinha bonito antes de lhe chegar aos pés. Como uma jogada feita de passes curtos, ao primeiro toque e sempre a mexer, ou uma bola de ego enchido por uma finta que, antes, a fez desmontar as pernas de um adversário. Aí, num segundo, pode haver quem pense: e se eu estrago isto?

Lá está, é tramado. Porque, num milésimo de segundo, que assim pensa pode arriscar-se a estragar tudo. Um jogador pode receber a pressão de duas maneiras: com medo, ou de braços, e pés, abertos. Como Nico Gaitán. Nesta caso não houve fintas, passes multiplicados ou jogada de arregalar o olho. Houve um passe, um dos bons, com a bola no ar, de Enzo Pérez, assim que este argentino, aos 8’, viu o outro a arrancar uma corrida na diagonal, entre o lateral e o central da Académica. Era Nico.

O passe saiu e tornou a bola difícil, porque ia cair na fronteira da grande área e com Lee, o guarda-redes, já lançado ia para lá. Por isso Gaitán tinha de a dominar rápido. E fê-lo no ar, com a ponta da chuteira esquerda, em suspensão, antes de, com o joelho, fugir do guardião, antes de, com um último toque, desviar a bola para a baliza. Sempre com a perna, a canhota, que mais usa para domesticar a bola que o gosta de ter como dono. 1-0 e, logo a abrir, o Benfica ganhava.

Tanta palavra só para um momento? Sim, pois, com ou sem pressão, foi de longe o melhor que 45 minutos de bola a rolar mostrou em Coimbra. E o argentino trocou um abraço com a pressão e transformou-a num golo dos bonitos. Como bonito foi, aos 23’, o cruzamento que deu, desde a esquerda, para a cabeça de Jonas rematar a bola contra a relva para, depois, o ricochete a fazer bater na barra. De resto, o jogo fez-se lento, com a Académica a encher o centro do campo de jogadores e a obrigar os encarnados, também eles sem nada quererem com a rapidez, a trocarem passes pelas laterais. Sem intensidade.

Samaris, ao meio, era o que mais bolas perdia, sobretudo quando as recebia de costas para um adversário. Enzo é certinho, mas correrias como as da época passada já não se vêem. Salvio sprintou menos do que o costume e só Gaitán e Jonas, com tabelas — como a que, aos 23’, o brasileiro fez com Maxi, usando o calcanhar –, abanavam com alguma coisa. Os anfitriões, no ataque, mal existiam, e nem Rui Pedro ou Ivanildo, os mais amigos da técnica, conseguiam descolar a equipa do nada.

Quem descolou da baliza, logo, foi Lee, o guardião da Académica, quando, aos 45’+1, saiu disparada dos postes assim que Enzo Pérez bateu um livre lateral. A bola foi parar quase à fronteira da grande área e Lee quis ir até lá. Onde não devia. Porque Luisão — que estava em fora-de-jogo — mal precisou de saltar para, com a cabeça, chegar primeiro à bola que as mãos descontroladas do guardião procuravam. Em vão. Aparecia o 2-0 e Lee escurecia a sua própria fotografia.

A imagem do encontro, na segunda parte, é que se iluminou um pouco. A Académica, a perder — até aqui não fora derrotada em casa, esta época –, quis acelerar as coisas. Rui Pedro começou a pedir mais a bola e a aparecer perto de Rafael Lopes, o avançado. Ivanildo imitava-o, numa ala e, ao centro, o médio Marcos Paulo punha uma mudança acima e tentava fazer tudo mais rápido. Mas nem sempre bem.

Aos 50’, contudo, o remate que surgiu foi de Jonas, à entrada da outra área, com força e direto aos punhos de Lee, que socou a bola para canto. Mas o Benfica parecia estar a amolecer. Jesus viu-o. Por isso, pegou no mais enérgico encarnado que tinha, Gaitán, e puxou-o para o centro do campo para tentar infetar os restantes com a rapidez de fazer as coisas. Ou seja, tirou Talisca, colocou Ola John numa ala e deixou o argentino atrás de Jonas.

Por minutos correu bem, quando Nico começou a trocar jogadas com Salvio que, aos 75’, deram um remate fraco a Gaitán, na área e, aos 78’, ofereceram o mesmo a Derley. Ambos chutaram a bola sem força e à figura de Lee. Do lado que quem estudava tudo isto e maneiras de chegar à baliza de Júlio César via-se ainda menos. A par um remate longínquo e rasteiro de Marcos Paulo, aos 71’, e de outro à entrada da área de Ivanildo, aos 69’, a Académica nada fez. E parecia nem ter capacidade para o conseguir.

O jogo prosseguiu, cheio de baixos e poucos altos, até bater no fundo quando, aos 90’+5, Marinho colou os pitons da chuteira à canela de Samaris e, quando se virou para trás, já o árbitro tinha o cartão vermelho apontado na sua direção. Expulsão. Talvez fruto da pressão de, a perder 2-0, ver a equipa sem nada fazer para contrariar um Benfica que, mesmo mole, saiu de Coimbra com três pontos que o recolocam na liderança do campeonato — que, na noite de sábado para domingo, se deitara com o Vitória de Guimarães (venceu o Moreirense por 2-1).

A pressão, portanto, fora empurrada pelos vimaranses para a porta dos encarnados. E eles, como Gaitán, receberam-na com um abraço. E uma vitória.