Brain freeze. É aquela coisa espetacular (ironia) que acontece quando se leva à boca colheradas de gelado como se não houvesse amanhã. Os pensamentos deixam de dar a mão e o cérebro desliga. É isto. Em Barcelos, com 4º a cantarolar no termómetro, o FC Porto sentiu o mesmo nos primeiros quinze minutos do duelo. O Gil Vicente entrou muito, muito bem. Uma bola à barra, cantos, coragem, boas jogadas, ousadia e remates. Estava tudo misturado no mesmo tacho. Mas o gigante que se deslocou ao Minho acabaria por acordar. Casemiro abriu a porta à vitória, Jander estendeu a passadeira vermelha com a expulsão ainda na primeira parte. O FC Porto goleou o Gil Vicente (5-1) e volta a colocar o Benfica sob pressão.

GIL VICENTE: Adriano Facchini, Gabriel, Pek’s, Enza-Yamissi, Evaldo, João Vilela, Luís Silva, Diogo Viana, Paulinho, Jander, Simy

FC PORTO: Fabiano, Danilo, Maicon, Martins Indi, Alex Sandro, Casemiro, Herrera, Óliver, Cristian Tello, Brahimi, Jackson

Os quinze minutos de fama do Gil Vicente começaram nos pés de Diogo Viana. O extremo que já vestiu as camisolas de Sporting e FC Porto desafiou Danilo e, na esquerda, cruzou com o pé direito. Luís Silva, meio sem jeito meio desequilibrado, baixou-se e cabeceou. A bola passou por cima de Fabiano, mas a barra não deixou que a glória minhota gelasse ainda mais o cérebro dos homens da Invicta. A seguir chegou outro lance de livre, novamente por Viana, mas ninguém desviou e a bola passeou-se pela área dos dragões.

Casemiro, porventura o homem mais “gelado”, teve um começo de jogo para esquecer, com passes errados, más decisões e um pensamento mais lento que um caracol com Xanax. Aos 10′, uma perda de bola do médio emprestado pelo Real Madrid isolou Simy, mas o avançado não teve pedalada para aproveitar quase um meio-campo inteiro para invadir. Maicon travou as aspirações do nigeriano, com 195 centímetros de comprimento. No seguimento, de canto, foi João Vilela a assustar, mas o cabeceamento saiu à figura e morreu nas mãos de Fabiano.

Aos 15 minutos, os homens da casa registavam três remates contra zero. Afinal, Julen Lopetegui avisara que o último lugar do Gil Vicente não correspondia com a qualidade apresentada nos últimos tempos. O primeiro remate do FC Porto chegou apenas aos 14, por Casemiro, o que seria como um prenúncio do que estaria para acontecer…

Brahimi estava mais solto do que é hábito. Porquê? Porque um homem chamado Gabriel estava a fazer uma marcação daquelas à antiga. Até ao fim, até ao balneário quase, se necessário, como se costuma dizer na brincadeira nos bastidores do futebol. Essa epopeia para travar o homem que fará companhia a Slimani na CAN, ao serviço da Argélia, tinha o seu preço: um buraco no lado direito da defesa gilista, que era explorado por Óliver, Herrera e Alex Sandro.

Herrera, com um remate forte, que saiu por cima, e Simy foram os homens que se seguiram nessa aventura que é fazer agitar as redes inimigas. Depois foi Óliver a abrir o livro, com um passe inacreditável com a canhota, a descobrir Jackson em boa posição. O colombiano ganhou em força ao central e ficou na cara de Facchini. Mas falhou, tentou um chapéu e o brasileiro não se deixou enganar. Já só dava FC Porto. A seguir foi Alex Sandro a tentar de calcanhar, após cruzamento de Herrera. O golo prometia chegar. A bola era do dono do costume: os dragões assinavam 65% de posse de bola.

Casemiro, então vilão do erro, transformou-se no herói. De longe, de muito longe, investiu numa bomba, com um jeito de bater na bola a fazer lembrar os remates de Cristiano Ronaldo. Facchini estava adiantado, porventura mal posicionado, e foi enganado pela curva da bola, 1-0. Logo a seguir, Brahimi deu cabo da cabeça dos defesas vestidos de vermelho e, antes de isolar Jackson, foi pisado por Jander. Foi o segundo amarelo para este canhoto, que já tinha visto o cartão por protestos. Assim ficava muito difícil. Aqueles 15 minutos prometiam cair em saco roto.

A segunda parte trouxe quatro golos, a magia de Óliver e o adeus de Brahimi. Primeiro foi Martins Indi a imitar Madjer na final da primeira Liga dos Campeões conquistada pelos dragões. O defesa central aproveitou um ressalto na área dos gilistas, aos 55′, para enfiar a bola na baliza de calcanhar, 2-0. Depois começou o show de Facchini, que ainda assim não conseguiu travar o tsunami que seria o ataque do FC Porto.

Brahimi marcou o terceiro, à Jackson, encostando um cruzamento que chegava da direita, do pé certeiro de Danilo, um lateral com pedalada que nunca mais acaba. Quatro minutos depois o argelino seria substituído por Quintero. O médio vai jogar a CAN e poderá estar, na pior das hipóteses, oito jogos ausente. “Brahimi, Brahimi, Brahimi!!”, gritavam os adeptos portistas, em forma de despedida. Aos 76′, o Gil Vicente espreguiçou-se no terreno e até conseguiu reduzir, por Vítor Gonçalves, 3-1. José Mota aplaudiu e incentivou os seus jogadores.

Mas o momento mágico desde duelo chegaria a dez minutos do fim. O mago, qual Houdini madrileno, foi Óliver Torres. O desenho da jogada desenrolou-se pela esquerda. O último toque, antes de chegar a este miúdo que se chegou a inscrever na universidade para estudar jornalismo, foi de Adrián Lopez, com quem jogou no Atlético Madrid. A bola entrou na área, onde estava Óliver. O espanhol bailou, sem tocar em nada, e tirou Pecks do caminho. Uma simulação, senhores. Na cara de Facchini, como alguém que não sabe dizer “enough is enough”, ainda picou a bola por cima do guarda-redes, 4-1. Magia. Óliver está cada vez melhor neste FC Porto de Lopetegui…

A manita chegaria a três minutos dos 90. Jackson recebe a bola à entrada da área, com a qualidade do costume vira-se e coloca no poste mais distante com a canhota. O golo foi espetacular, mas já olhamos para isto com um implacável encolher de ombros, que atesta a qualidade deste avançado colombiano. Tem muito futebol naqueles pés. E tem golo, claro.

Ponto final em Barcelos (Alex Sandro ainda foi expulso antes, por acumulação de amarelos). Os dragões sofreram no início, mas um golo feliz de Casemiro e a expulsão de Jander abriram a porta à goleada. Os azuis e brancos nunca tiraram o pé do acelerador e acabaram a massacrar a equipa de José Mota, que tão bem começou este duelo (ainda não venceu neste campeonato). O FC Porto não fazia cinco golos no campo do Gil Vicente desde 2003, numa altura em que Mourinho era o treinador e os dragões venceram por 5-3 (Postiga, Costinha-2, Maniche e Jankauskas). Três pontos, é o que separa agora o FC Porto do Benfica, que joga amanhã (vs. Penafiel).