O Governo chinês está a tentar exterminar o animal que terá servido de inspiração ao Pikachu, o ratinho amarelo elétrico que encantou milhares de fãs da série Pokémon. O pika é um mamífero semelhante a um rato, de pequenas dimensões, que vive em vastas áreas do noroeste da China, sobretudo no planalto tibetano, que tem cerca de 2,5 milhões de quilómetros quadrados. É encarado pelo Governo chinês como uma praga e, por isso, tem sido alvo de um plano de envenenamento.

Foi em 1958 que os planos para o controlo da espécie começaram, segundo o jornal inglês The Independent, que escreve igualmente que, em 2006, só naquele planalto, uma área de 360 mil quilómetros quadrados já tinha sido coberta com fosfato de zinco, uma substância considerada perigosa e tóxica que é usada em alguns produtos dentífricos. Nessa altura, a China renovou o plano, que previa que até ao fim de 2014 mais 110 mil quilómetros quadrados de terreno fossem alvo de intervenção.

A comunidade científica vem avisando já há algum tempo para os perigos de extinção total dos pika, de que existem atualmente cerca de 30 espécies (outras tantas estão já extintas). Recentemente, um estudo publicado na revista científica Ambio veio contrariar a visão do Governo chinês de que a presença dos pika no planalto tem contribuído para a degradação da qualidade dos solos. Segundo os autores do estudo, estes mamíferos “são uma espécie fundamental para a biodiversidade e a sua atividade de criação de tocas [burrowing, no original] presta um serviço crucial ao ecossistema, aumentando o nível de infiltração de água, assim reduzindo os escoamentos superficiais”.

Com a morte dos pika, outras espécies ficam afetadas e acabam também por desaparecer, argumentam os cientistas, referindo os casos de aves e répteis que usam as tocas dos pequenos ratos como abrigo. Esta já não é a primeira vez que estudos científicos demonstram os malefícios de combater a espécie, mas até ao momento – e ao contrário do que aconteceu em países como a Mongólia, que suspendeu a extinção dos pika -, o Governo chinês não deu ouvidos aos pedidos de ecologistas para que pare o programa lançado em 1958.

Conhecido como “torre de água da Ásia”, o planalto tibetano alimenta dez dos maiores rios do continente, fornecendo água a perto de 20% da população mundial, que vive junto às bacias hidrográficas desses rios.