Em 1977 morreu Elvis Presley e nasceu João Rui, da banda portuguesa A Jigsaw. “Aliás, no ano em que algumas teorias dizem que ele morreu”, relembra constantemente ao Observador o músico de Coimbra, em tom de brincadeira. Em qualquer fórum de Internet ou caixa de comentários onde se fale da morte do chamado Rei do Rock, é habitual surgirem teorias da conspiração que defendem que ele forjou a própria morte e que está bem vivo, algures neste mundo. Mas voltemos à realidade. Se fosse vivo, Elvis Presley entraria esta quinta-feira na ternura dos 80. E apesar de o Rei ter deixado o trono livre há já 37 anos, as influências musicais perduram.

Quem vê o português Frankie Chavez em palco, guitarra elétrica nas mãos, sabe que o rock, o folk e o blues estão garantidos. No ano em que nasceu, 1979, os Led Zeppelin lançaram o último álbum de originais, In Through the Out Door. Bob Dylan tinha entrado numa fase gospel e as lojas de discos receberam o mítico The Wall, dos Pink Floyd. O rock e o blues já tinham evoluído muito desde os anos em que Elvis se tornou popular, os anos 1950. Mas Frankie Chavez garante que, mesmo passado tanto tempo, o Rei ainda está vivo. E não se refere a qualquer teoria da conspiração.

“Desde que me conheço que me lembro do nome Elvis Presley e de ouvir as músicas dele porque tinha discos em casa”, disse ao Observador. Ainda que lá em casa ninguém fosse fã a ponto de ter toda a discografia, bastaram algumas canções para captar a atenção do jovem Francisco Chaves. Quando começou a aprender a tocar guitarra e a trilhar o caminho para se tornar em Frankie Chavez, lembra-se de tentar “sacar” músicas para reproduzir na guitarra. “Fingia que estava a tocar as músicas dele, como ‘Blue Suede Shoes'”.

Frankie  Chavez assume não ser o maior conhecedor de Elvis, mas não lhe poupa elogios.

“Ele foi o performer, o showman e o frontman de todos os tempos. Quem o via ao vivo percebia que ele era o ‘King’ por alguma coisa, sabia levar as pessoas ao rubro e foi referência para pessoas como Mick Jagger, que se calhar hoje em dia é o rei do rock. Eu nasci em 1979 e para mim já foi influente, imagino para as pessoas anteriores a mim”.

Quando se senta na bateria das Anarchicks, banda “riot grrrl à portuguesa”, Catarina Henriques ganha o nome de Katari. Nasceu em 1978, já Elvis tinha morrido há um ano. As canções do Rei não fizeram parte da sua formação musical, mas não deixa de ser uma referência. “Até consigo rever-me na música, no estilo e na simbologia dele, mas não é uma coisa que ouça”, admite. Prefere ouvir e comentar o rock clássico dos Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, e descobrir na Internet bandas mais recentes. “A última banda que conheci
chama-se Wampire“, partilha.

“O meu pai sempre me transmitiu que na altura do Elvis havia outro pessoal a fazer o que ele fazia, mas ele tinha um carisma muito grande, ligava a música à imagem”. E era branco, o que nos Estados Unidos dos anos 1950 era muito importante. Apesar de já haver músicos negros que se aproximavam daquela sonoridade, Katari reconhece o mérito de Elvis, ainda hoje. “Acho-o uma figura brilhante, com muito talento e uma figura incontornável. De alguma forma ele está sempre presente nas conversas, na forma de expressão e na linguagem corporal. E musicalmente tem aquela vertente rockabilly que nos agrada bastante”.

Voltemos a 1977 e a João Rui. Enquanto os colegas do liceu andavam a ouvir os britânicos The Cure, nos anos 1990, o vocalista e multi-instrumentista dos A Jigsaw estava “in love” por Elvis Presley, o que lhe valia alguns olhares desconfiados. Não só Elvis Presley foi importante na formação musical de João Rui, como, para ele, hoje em dia há uma maior aceitação para quem ouve o autor de “Love Me Tender”. Justifica-o pela “saudade do que era mais puro. Naquela altura havia três ou quatro pessoas a gravar em estúdio e hoje a maioria das coisas que se ouvem são ultra comprimidas. Perdeu-se uma certa magia”.

Ouvir as gravações dos anos 50 e 60 não só devolvem a magia como ainda têm alguma coisa a ensinar aos músicos de 2015. Ainda hoje há tentativas de recriar e puxar elementos daquele tempo, nomeadamente das gravações que Elvis fez ao lado de Sam Phillips, nos Sun Studios, no Tennessee. “Em termos técnicos, o ‘slack back echo’ que foi usado nos Sun Studios ainda hoje aparece em milhentas gravações, efeitos usados até na musica eletrónica, como forma de recriar aquele quentinho analógico, por assim dizer”, explica. Musicalmente, João Rui não poupa nos elogios. “Lembro-me que quando comecei a descobri-lo, ele a cantar a ‘Hound Dog’ no ‘comeback special’ e há ali qualquer na voz dele que parece que vai quebrar, e depois passa de um rugido para um tom melódico, perfeito”.

“Nas últimas gravações ele já está gordo como um texugo e tu vês a decadência dele enquanto pessoa, mas se dissociares a imagem do que está a acontecer na voz, é de uma magia…”, diz João Rui, assumidamente um súbdito deste rei, que conjugava amplitude vocal e emoção de forma única. “O Elvis não tem formação clássica, por isso qualquer pessoa pode ouvir e sonhar: ‘ok, ele não teve aulas, talvez eu também consiga’. Claro que ele tinha uma voz de deus. Como é que ele conseguia aquele domínio de voz?”.

Mais ou menos fãs, com maior ou menor influência, pelo menos numa coisa os três músicos concordam. O Rei pode ter morrido há quase quatro décadas, mas ainda é relevante. “Claro que sim”, responde João Rui sem hesitar. “Ainda é o rei do rock”, completa Frankie Chavez. Katari também não destoa. “Eu acho que sim porque ele já se tornou um mito, já transcendeu a condição humana e por isso quantos mais anos passam mais a magia cresce. O fenómeno não vai morrer”.