Foi estranho, bastante até. Em dia de clássico, com os bês do Benfica na outra metade do relvado, a equipa com um golo a menos (3-2) e a querer vencer um clássico secundário, o projeto de craque é substituído. Ao intervalo saía quem, aos 19 anos, já leva 11 bolas rematadas para dentro de balizas na segunda liga. Ivo Rodrigues abandonava a partida que a versão B dos dragões não conseguiriam mesmo ganhar.

Depois percebeu-se porquê. Ou pelo menos que havia uma razão. “Dentro de poucas horas vão perceber”, dizia, sem atirar pistas, Luís Castro, o treinador que, na época passada, servira durante uns meses de bombeiro na equipa principal do FC Porto. Pouco depois, confirmava-se a novidade — Ivo Rodrigues era convocado por Julen Lopetegui. E o espanhol que hoje por lá manda até fez mais, porque o miúdo com 1,79m de Gondomar foi logo titular.

FC Porto: Helton; José Ángel, Iván Marcano, Diego Reyes e Ricardo; Campaña, Evandro e Rúben Neves; Ivo Rodrigues, Juan Quintero e Ádrian López.

União da Madeira: Ricardo Campos; Diogo Coelho, Edson Almeida, Zarabi e Chigo Gomes; Soares, Jota e Zé Luís; Talles, Mendy e Osei.

Mas não foi por isso que perdeu a timidez. Ou isso ou a cabeça assente na terra. Ivo não inventava. Via-se que era rápido, com técnica de sobra nos pés e igual vontade de fintar e brilhar, mas não. O miúdo jogava pelo seguro: escolhia passes simples, corria para defender e preferia uma tabela a um drible. Queria aproveitar a estreia para ser certinho. Tanto que aos 17’ até encolheu a perna, talvez receoso, e não acertou na bola que Juan Quintero lhe cruzou da direita com ordem para transformar em golo. Aos 27’ o ‘10’ repetiu o comando, mas aí nem com o corpo todo esticado alcançou o cruzamento.

Era ele, o colombiano adorador de tabelas, remates de longo alcance e bola colada ao pé, o extrovertido da partida. O União da Madeira, cauteloso, arrancou o encontro preocupado a defender e adaptar-se ao jogo de passe e troca de bola rápido dos dragões. Até ao intervalo os anfitriões tiveram quase sempre mais de 70% da sua companhia, porque os madeirenses, mesmo com a sigla CR7 na camisola — a equipa é patrocinada pelo museu de Cristiano Ronaldo –, não conseguiam ser rápidos e precisos o suficiente para chatearem o FC Porto em contra-ataques.

Essa imprecisão foi fatal aos 25’, quando Diogo Coelho errou um passe, colocou a bola em Evandro que, ao ver Quintero colocar-se a jeito à direita da área, lhe passou a bola e viu-o a apontar a canhota à baliza e a rematá-la, rasteira, rumo ao poste direito. Só parou nas redes. 1-0 e desbloqueava-se a partida que também servia para que Helton, quase um ano volvido, e Rúben Neves, um mês depois, voltassem a jogar. Mas quem fazia com que tudo funcionasse continuava a ser Quintero.

Porque aos 31’ disparou uma bomba que Ricardo Campos defendeu, e logo depois, cruzou uma bola para Diego Reyes rematar e não acertar por pouco na baliza. O FC Porto controlava tudo e, talvez sentindo-se senhor do jogo, relaxou. Abrandou as coisas. E quase pagou por isso quando o União lá acertou uma aceleração e, com uma jogada que acabou em cruzamento da esquerda, de Diogo Coelho, um ressalto deixou que Baines rematasse a bola ao poste da baliza de Helton.

Um susto. A última impressão da primeira parte era esta e os dragões voltaram do intervalo diferentes. Primeiro porque Ivo Rodrigues ficou no balneário e Ricardo Quaresma saiu do banco de suplentes. Segundo, porque foram os anfitriões, depois, a aceleram as coisas. E a tornarem-nas mais bonitas de se ver.

Até à hora de bola a rolar os passes foram ainda em maior número e, com Quintero a deambular por todo o lado, a equipa tinha em Quaresma, à esquerda, o único extremo com amizade pela linha lateral. Por isso a bola rodava, de pé para pé, com poucos toques, até que o colombiano ou Rúben Neves, com um passe longo, pelo ar e quase sempre certeiro, a atirassem para perto de Quaresma. Parecia só existir um destino para onde voavam e aterravam todas as jogadas. Foi numa de muitas jogadas do tipo — esta sempre com a bola na relva — que aos 55’ a bola chegou ao extremo, ele a ajeitou para o meio, cruzou-a e viu-a desviar no pé de Zarabi. Sorte para uns, azar para outros e 2-0 para o FC Porto.

Depois houve novo relaxamento. Ou várias distrações no meio campo azul e branco que, quando a equipa perdeu uma bola, aos 57’, foram lentos a reagir, distantes a pressionar e deram tempo para que Zé Luís enviasse um passe longo para a corrida de Élio Martins, extremo canhoto que dominou a bola de cabeça, deu-lhe um toque para a manter rápida e, à saída de Helton, a rematou para golo. Com pinta e tudo. 2-1 e, agora sim, surgia o castigo. Por isso, os dragões lembraram-se da cautela.

Aí abrandaram os passes, a bola passou a viajar mais para os lados do que para a frente e as fintas tornaram-se coisa rara. Os madeirenses, a pouco e pouco, lá iam tentando pressionar e dar passos em frente a defender, mas as bolas roubadas não eram muitas e abriam espaços para os portistas arriscarem. Ao 64’ houve um exemplo, quando Óliver só foi parado em falta e inventou um livre que Quintero bateu para a bola rasar o poste da baliza. Do outro lado, graças a uma trapalhada de Helton — que largou a bola, depois de a agarrar, quando tentou lançá-la para um companheiro — um livre de Mendy também passaria perto da baliza.

Depois viam-se dribles, bem mais em jeito do que em velocidade, de Ricardo Quaresma, que parecia fintar em bicos de pés e com pantufas calçadas. Houve dois slaloms do português para arregalar o olho de quem assistia e o terceiro, já aos 85′, serviu para o árbitro soprar no apito e dizer que era penálti — quando Diogo Coelho tocou na perna de Quaresma dentro da área madeirense. A bola parou a 11 metros da baliza e mexeu-se para ir parar às redes, graças ao pontapé de Evandro que enganou Ricardo Campos. 3-1, segundo jogo seguido do brasileiro a marcar.

Jogo feito, nada mais. Os três pontos conseguidos aumentaram para seis o total dos dragões no Grupo D da Taça da Liga e deixam a equipa a uma vitória de garantir viagem rumo às meias-finais da prova. O União da Madeira fica com os três que já tinha e com uma imagem organizada, com boa mistura entre certidão e risco, que justifica o facto de apenas estar a sete pontos (oitavo lugar) da liderança da Segunda Liga. Como já o fizera em casa, quando venceu (2-1) o Sporting de Braga.