O remate tinha muito de fraco e de inofensivo. O pé direito de Ricardo Dias até batera bem na bola, mas foi parco na força, impreciso na direção, e não desviou a mira das mãos do guarda-redes. A bola parecia estar a caminho de uma defesa fácil. Até foi, mas Rui Patrício, com tanta chuva e água no relvado, lembrou-se de ser prudente. Não agarrou a bola e preferiu, com as duas mãos, atirá-la para a relva, fazê-la ressaltar para, só depois, a agarrar. É coisa de guarda-redes e faz sentido, embora, desta vez, quase desse asneira da grossa — a bola, após tocar na relva, bateu numa das pernas do guardião, que a desviou para trás e só não entrou na baliza por acaso.

Foi canto. O capitão do Sporting foi buscar a bola, amassou-a com as luvas, abanou a cabeça e ficou com cara séria. Por pouco, muito pouco, não inventara um frango logo após o intervalo, aos 46’, quando o 0-0 ainda era teimoso e uma imprecisão do guarda-redes ameaçou quebrá-lo. Pareceu ter ficado nervoso. Afinal, ser impreciso é fácil no futebol e os leões jogavam o segundo dérbi seguido (após o 1-1 com o Benfica, na jornada anterior) no campeonato, mostravam-no de vez em quando.

Belenenses: Ventura; Palmeira, João Meira, Thicot e Nélson; Pelé, Ricardo Dias e Fábio Sturgeon; Miguel Rosa, Abel Camará e Rui Fonte.

Sporting: Rui Patrício; Cédric Soares, Paulo Oliveira, Tobias Figueiredo e Jefferson; William Carvalho, Adrien Silva e João Mário; André Carrillo, Nani e Fredy Montero.

Sobretudo Nani, João Mário e Carrillo, que tentavam inventar tabelas em todas as jogadas que faziam e insistiam em tentá-las pelo centro do relvado, onde o excesso populacional de jogadores azuis fazia com que se falhassem bastantes passes curtos. Queriam tudo fazer depressa e bem, mas erravam muito. O Belenenses, contudo, oferecia-lhes uma solução. Os quatro de trás resolviam muitas vezes avançar uns metros no relvado e, por isso, habilitavam-se a ver o adversário colocar a bola no espaço que tinham nas costas. Foi o que se viu.

Aos 24, Adrien picava a bola por cima de Nelson e Cédric, já na área, dominou-a de cabeça e rematou com a canhota, mas não acertou com a bola na baliza. Seis minutos depois e William lembrou-se de acelerar as pernas, tabelar com João Mário, lançar Jefferson na esquerda para, depois, correr até junto do primeiro poste e cabecear a bola cruzada pelo lateral brasileiro. Passou pouco, muito pouco, ao lado do outro poste. Antes, aos 12′, já Fredy Montero perseguira uma bola atrasada com pouca força por Thicot para Ventura, alcançou-a e rematou-a, mas o guarda-redes desviou o problema.

Não estava fácil para os leões serem precisos com os remates. Tão pouco o eram os azuis, quando Abel Camará, aos 19’, não acertou com um pontapé na baliza e, aos 26’, quando Miguel Rosa, à entrada da área, rematou com estilo uma bola cruzada por Pelé, na direita. As balizas e a bola só se cumprimentaram pouco antes do intervalo, assim que Nani, aos 34’, disparou uma pequena bomba, à entrada da área, para as mãos de Ventura — antes de, aos 39’, Nélson tentar uma surpresa e soltar um remate quando estava encostado à linha lateral. Rui Patrício desviou a bola para canto e ficou a refilar com João Mário, que não pressionou o adversário e sentou-se na primeira fila para o ver rematar.

Talvez por isso se juntou a Montero e ambos ficaram no balneário para lá dos 15 minutos de descanso. Entraram Tanaka, o japonês que anda a piscar o olho aos golos, e Mané, para jogar a 10 e tentar dar velocidade a uma zona onde pouco espaço havia para correr com a bola. A equipa não melhorou. Porque o Belenenses, a defender, era mais do que atinado. Sturgeon não largava William e pressionava-o até mais não quando este tinha a bola. Pelé e Ricardo Dias, ao centro, tapavam linhas de passes e obrigavam, quase sempre, a que o Sporting optasse por atirar a bola para as alas e sacar cruzamento atrás de cruzamento que em nada resultavam.

Os defesas azuis, sempre juntos e a poucos metros de distância entre si, cortava todas as bolas. Só aos 67’, aliás, é que, após trocarem éne passes para o lado à frente da área, é que Adrien Silva picou a bola por cima da defesa e fez com que a bola encontrasse Tanaka — o avançado, contudo, após dominar a bola, e ao invés de a rematar, preferiu passá-la a Nani, que a atirou para a bancada. Precisão era coisa que pouco se via quando o Sporting tentava fechar as jogadas de ataque. E também não se viu logo depois, em Rui Patrício, quando tempo era de guardar a baliza.

Nervoso ou não do quase-frango que cometera, o guardião, aos 70’, saiu da baliza quando viu a bola a chegar à área, vinda de um balão chutado pelo adversário. Rui Patrício correu, terá avisado Paulo Oliveira que aí vinha e, por isso, o central desviou-se e encolheu-se. Mas o guardião, quando chutou na bola, acertou mal. A expressão típica costuma dizer que lhe terá pegado pelas orelhas. Saiu uma rosca que, em vez de atirar a bola para a frente, a rematou contra Paulo Oliveira, ali ao lado. Resultado: a bola sobrou para Rui Fonte, homem que, no Benfica B, marcou 17 golos na segunda liga e, agora, fazia o primeiro pelo Belenenses. Segundo erro de Patrício e 1-0 para os azuis.

Viram-se leões de cabisbaixo. Um erro acabara de lhes custar um golo sofrido e, depois, um outro custou-lhes um homem: Cédric, aos 83’, rasteirava um Miguel Rosa velocista, em modo contra ataque, e viu o segundo cartão amarelo que se traduziu na expulsão. Sobravam sete minutos e mais uns quantos de compensação para o Sporting correr remediar o cenário e tentar, pelo menos, resgatar um empate da visita ao Restelo. Tentaram por todo o lado. Nani rematava contra muralhas de adversários, Carrillo e Jefferson multiplicavam os pés em cruzamentos.

Perigo não criavam. O Belenenses ia tentando ganhar faltas, abrandar o jogo, segurar a bola e adormecer um jogo que os leões queriam acelerar rumo à sua baliza. Até o iam conseguindo. Mas, aos 90’+5 houve uma última bola que foi até à esquerda e entregou o convite para Jefferson a cruzar. O brasileiro obedeceu, mas, na área, a bola foi para pertod e João Meira, que a tentou chutar dali para fora e acabou por a desviar contra o poste da baliza de Ventura. O ressalto foi parar a Carlos Mané, que a um metro das redes rematou para fazer o 1-1. Os leões faziam no Restelo o que o Benfica lhes tinha feito em Alvalade, empatando na última jogada da partida.

Conseguiu “uma quase derrota”, como lhe chamou Marco Silva, no final de “um jogo muito mau do Sporting”. Os dois pontos que os leões acabaram por não levar do Restelo fazem com que fiquem a cinco pontos do FC Porto e se coloquem a jeito para, caso o Benfica vença, passarem a estar a dez da liderança. O Sporting não perder há 12 jogos, mas o título e, já agora, a qualificação direita para a Liga dos Campeões, via segunda lugar do campeonato, ficam agora mais difíceis do que estavam.

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