De longe parece a parede orgulhosa das conquistas: três taças douradas pousadas em prateleiras com quatro bolas de baseball. Um hall of fame à americana, até se lerem as inscrições na base de cada troféu. Coisas como “so good at faking it, yet so bad at making it” (tão bom a fingi-lo, mas tão mal a fazê-lo), prémios “para os falhanços e não as vitórias”. Bem-vindos ao universo de Wasted Rita, onde o que vai parar à parede é um hall of shame e as bolas de baseball são na verdade cartas de amor para atirar contra alguém.

© Lara Soares Silva/Observador

© Lara Soares Silva/Observador

“Eu sou feita de erros, tenho orgulho nos meus erros, e essa não é uma palavra negativa sequer”, diz a artista e ilustradora de 27 anos, que encheu a sua primeira grande exposição individual de coisas que correm mal. “Human Beings — God’s Only Mistake” inaugura sexta, 27 de março, na Galeria Underdogs, em Lisboa, e é a concretização, em grande formato, do trabalho que começou a ser feito em 2011. “Delírios sobre a vida” que Rita transforma em pensamentos que resume nesta frase: “são sarcásticos, um bocado cínicos, agressivos, às vezes muito lamechas e provavelmente irritantes.”

A ideia é subverter o que se acha que está a ver, das cartas de amor escritas em papel cor-de-rosa que parecem fofinhas mas o mais provável é acabarem a insultar alguém, à peça que vai estar à entrada da exposição, uma máquina daquelas de pôr moedas para tirar um brinde surpresa que guarda bolas com mensagens impróprias para crianças. “Chamei-lhes misfortunate messages porque são rudes, sarcásticas e de azar”, diz Wasted Rita. Mensagens subliminares como “give anal a chance”, “regret in peace” ou “beyoncé does it better than you”.

As referências musicais acabam por estar espalhadas por todo o trabalho, vestígios do passado da artista ligado à cultura punk. E se na exposição que agora inaugura há uma série chamada “When I grow up I wanna be like Morrissey but happier”, com distorções de letras dos Smiths, na loja online há t-shirts com variações da célebre frase “não és tu, sou eu”, onde se lê: “It’s not you, it’s Wu-Tang”, numa referência ao grupo de hip-hop norte-americano, The Wu-Tang Clan.

t-shirt Wasted Rita

Outra variação, onde a culpa é do gin tónico.

A emancipação anti-desperdício

“O trabalho tem sempre muita ironia e é muito autobiográfico”, diz a artista, que partilha grande parte do que cria na internet e assume que “era capaz de fazer uma exposição só com uma folha e uma caneta”. Tudo acontece através da escrita, apesar de a persona artísica Wasted Rita ter nascido quando Rita Gomes terminou o curso de design gráfico no Porto e percebeu que não queria trabalhar num estúdio de outra pessoa, optando antes por criar um blogue onde podia alimentar “a rotina de desenhar e escrever”. “A Wasted Rita surgiu de uma emancipação daquilo que era a Rita Gomes”, conta a mulher por trás de ambos os nomes. “É uma espécie de Rita Gomes sem medo. Eu fui sempre criada para ter medo, tive uns pais muito protetores, e a Wasted Rita surgiu contra isso. O nome vem mesmo de não desperdiçar, de fazer aquilo que quero.”

Por isso é tudo dito frontalmente, com os riscos e rabiscos de quem pensa mais depressa do que escreve assumidos nas obras. E por isso os seres humanos são o grande erro de Deus, ou a palavra merda tem honras de ser repetida em telas, a dourado, no que pode ser classificado como “rude art“. “Se isto for rude art, sinto-me muito orgulhosa”, diz Rita, concluindo: “É um rude muito sincero. É como quando vais à Ribeira e as pessoas falam mal mas é tão genuíno que não levas a peito.”

Nome: “Human Beings — God’s Only Mistake”
Inauguração: 27 de março, às 19h00 (a artista vai estar a fazer uma performance das 20h00 às 21h00 e a escrever uma carta de amor a quem se sentar à sua frente).
Morada: Galeria Underdogs (Rua Fernando Palha, 56, Lisboa)
Horário: Terça a sábado, das 14h00 às 20h00, até dia 9 de maio