Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Como todos os mitos urbanos, os pormenores sobre o seu aparecimento são escassos e confusos, porém, há algo que se sabe: oficialmente esta consola nunca existiu. Sabe-se apenas que surgiu no final da década de 1980 e que durante a década de 1990 era presença quase obrigatória em todos os lares da chamada “classe média”. Onde existissem crianças lá estava ela, sempre presente, a adornar as salas portuguesas.

A comercialização começou por ser subtil e no Natal de 1990 podia ser vista no Euromarché ao lado das eternas rivais da Sega e Nintendo. Ninguém sabia ao certo o que esperar dela: tanto na televisão como nas revistas de videojogos da época, não existia qualquer informação sobre a consola e cada hipermercado tinha uma marca e modelo diferentes.

Mas então porque haveria alguém de comprar uma consola desconhecida? A resposta era evidente: enquanto uma NES custava 25 contos e uma Sega Master System, 20 contos, esta custava apenas 15. Mas, mais importante que a diferença de preço, eram os números que surgiam na caixa: alegadamente a consola possuía 168, 500 ou 1000 jogos! Isto eram números nunca antes vistos. Era o negócio do século, um filão de ouro dos videojogos, era o Totoloto em forma de consola. Nunca mais ninguém precisaria de comprar jogos… ou pelo menos era isto que nós pensávamos.

As caixas traziam quase sempre, na parte traseira, dezenas de imagens, muitas delas sem qualquer informação sobre que jogo era suposto representarem. Mas isso pouco importava: o principal eram os números e esta consola possuía, quase de forma mágica, 168, 500 ou 1000 jogos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O primeiro encontro com a consola: do mito para a realidade

No meu caso, o ponteiro do relógio tinha acabado de anunciar a meia-noite do dia 25 de dezembro de 1990 e, depois de retirar esta misteriosa consola do embrulho, eis que chega a altura de a ligar. Seguiram-se momentos que mais pareceram um ritual iniciático: ligar os comandos, o transformador e o cabo de antena que vinha sempre acompanhado de um switch em metal, que permitia alternar entre a antena de televisão e a consola (mas que por algum motivo, raramente era utilizado) e o objecto digno das lendas estava ligado. Restava apenas sintonizar a televisão e, depois de alguns momentos de ansiedade que pareciam nunca mais terminar, surgia no ecrã a lista de jogos disponíveis para jogar.

Por momentos a sala estava em silêncio absoluto enquanto os olhos percorriam uma lista que parecia interminável à procura de um qualquer nome familiar… de repente o silêncio dava azo aos inúmeros e simultâneos pedidos:

– Põe esse!
– Não! Põe o Contra!
– Olha o Mário!

O primeiro impacto era avassalador e durante as primeiras semanas ninguém se apercebia que os 168, 500, 1000 eram na verdade 20, 30 ou 40 jogos…todos os outros não passavam de modificações ou níveis diferentes desses mesmos jogos.

Aos poucos, a realidade e a inquietude da novidade assentavam, e com elas chegava a constatação da excessiva semelhança com os jogos da NES e a necessidade de ter novos jogos…mas onde comprar? A resposta óbvia seria no mesmo sítio onde foi comprada a consola, mas tão rápida e misteriosamente como apareceu, assim desapareceu dos hipermercados, sem qualquer rasto de alguma vez ter sido lá comercializada. Onde foi parar todo o stock que restou?

Também sem razão aparente, começaram a ser vistas em papelarias e nas chamadas “lojas dos indianos” mas desta vez, além das consolas, existiam algumas dezenas de jogos em cartuchos com cores que variavam entre o preto, o vermelho, o azul, o amarelo e o cor-de-rosa. Na parte da frente do cartucho existiam sempre ilustrações, umas mais bem conseguidas que outras. E se, para umas, adivinhar o jogo que tentavam ilustrar era fácil, para outras era um verdadeiro desafio à imaginação. Entre os cartuchos existiam também os que tinham vários jogos, alguns dos quais, a serem tidos em conta os números apresentados (que rondavam os muitos milhares) seriam verdadeiros prodígios da tecnologia de armazenamento.

A consola afinal existia?

Estas consolas chegaram a ser produzidas em Portugal (o que será assunto para outro artigo), Espanha, Índia, Taiwan, China e URSS, e por mais incrível que pareça ainda hoje são produzidas, mais de 25 anos depois das primeiras consolas deste género terem aparecido em Portugal. Por cá, continuam a ser vistas nas lojas chinesas em novas reencarnações, que suscitam mais pena do que recordação. São cópias baratas, sem qualquer tipo de qualidade e que raramente duram mais do que alguns meses. É que ainda hoje tenho essa consola desembrulhada na noite de Natal de 1990 a funcionar, o que desafia a longevidade de qualquer consola actual.

Não existem números oficiais relativamente às vendas destas consolas e jogos que inundaram a Europa, a Ásia e o norte de África, porque mais não era do que uma cópia não autorizada da Famicom (NES japonesa), mas mesmo assim é possível afirmar sem sombra de dúvidas que é a consola mais vendida de sempre e que para sempre permanecerá na memória de quem teve uma. E o nome dela? Ficou para sempre chamada de Family Game. Mas para a História ficará apenas denominada pela consola que nunca existiu.

Sérgio Serra, Rubber Chicken