Aos 65 anos, com 30 dedicados à vida pública, Isaltino Morais saiu da prisão a 24 de Junho de 2014, onde, “exorcizou todos os demónios”. Hoje é proprietário de uma empresa de consultoria mas diz em entrevista ao Diário Económico (DE) que já teve convites de vários partidos para regressar à política. Nessa conversa com o DE, o ex-presidente de Câmara Municipal de Oeiras (CMO), conta um pouco do que 14 meses de prisão lhe fizeram algo que, aliás, já tinha avançado no seu último livro.

Na prisão recebeu 1400 cartas de pessoas que diziam bem de si e foi a esses “pensamentos positivos” que se agarrou. Perdeu 20 kg, ganhou cabelos brancos, mas a saúde cresceu: “Do ponto de vista físico e psíquico até me sinto melhor. Há mais de dez anos que não era capaz de cruzar as pernas, porque a barriga batia aqui em baixo”, conta ao DE. Mais:

“Saí um homem ainda melhor. Até porque só os homens bons podem melhorar. Os maus nunca têm cura. Tenho uma capacidade maior de tolerância e compreensão pelas pessoas que se movem por sentimentos negativos e de ódio. E continua a melhorar. Mas isso tem a ver com a minha vertente maçónica: acredito na melhoria das pessoas.”, atira.

O mais importante? “A liberdade é o maior bem que o ser humano pode ter. Sem liberdade não vivemos, sem liberdade não temos família. Sem liberdade não somos nada. (…) Os muros da prisão são muito espessos. E, portanto, o momento em que se abre a porta da prisão e saímos para a liberdade, é uma sensação extraordinária. Indescritível. Apetece o quê, naquele momento? Comer um bom cozido à portuguesa, abraçar a família, até o Sol tem outro brilho.”

Não se considera pobre com a sua reforma de “2.300 euros, casa própria e dívidas ao banco”. O empréstimo de 200 mil euros que contraiu serviu para pagar o processo: “Fui condenado pelo Tribunal por fraude fiscal, num acórdão em que a juíza diz que, provavelmente, subtraía 15 mil euros, mas só em custas de processo paguei 35 mil euros.”, explica o ex-presidente, acrescentando que “ainda deve 60 mil”.

Isaltino fala ainda dos seus tempos de escola, dos dois anos que chumbou e revela que só passou a ser bom aluno a meio da adolescência: “a partir do quinto ano (actual 9º ano). Depois sempre fui bom estudante e licenciei-me em Direito com 15 valores”. Acrescenta: “O Direito e a Justiça são, para mim, de uma sedução extraordinária”.

Sobre a família, fala do filho mais novo, Afonso: “Ele deu-me muita força enquanto estive na prisão (…) Penso que ele amadureceu cedo demais. Foi muito duro. Aquelas visitas à prisão eram insuportáveis para ele. Tudo aquilo lhe causava um grande sofrimento. Embora ele tentasse não mostrar isso ao pé de mim. Chorou algumas vezes no princípio, mas depois conteve-se.”

A governação absolutista de Pedro Passos Coelho

Quando questionado sobre o que pensa do trabalho de Pedro Passos Coelho no governo, Isaltino Morais resgata o seu lado Robin dos Bosques : “Os que têm que paguem mais do que os que não têm. Atualmente temos um sistema fiscal que nada tem a ver com a social-democracia. É um sistema fiscal eminentemente capitalista”.

Isaltino não se revê “na forma como as políticas estão a ser anunciadas”, já que este governo “age com um poder absoluto indiscutível.” E recorda um Pedro Passos Coelho que diz já não existir:

“Conheço-o há muitos anos, desde os tempos em que fazia a vida negra ao professor Cavaco Silva, quando era presidente da JSD. Nessa altura o Pedro Passos Coelho era diferente. Poderia ter evoluído no sentido mais tolerante. Parece-me que, às vezes, é muito duro.”

Tanto neste governo, como noutros anteriores, Isaltino não se identifica com a política de governação focada no período de duração dos mandatos : “o governo trabalhar para os quatro anos”. O ideal, sonha, era “um horizonte de esperança sobre aquilo que queremos ser daqui a 10, 15 ou 20 anos.”

E o que dizer do fim da sua vida política? O ex-presidente da CMO, remata: “A morte em política, é um acto de purificação. E a ressurreição é sempre um estádio mais elevado. (…) Se vou ter uma actividade de protagonismo político não sei, mas já vários partidos políticos me convidaram.”