“Existe uma cultura de dizer ena, dormi apenas cinco horas esta noite. Não sou fantástico?”, lamenta o neurocientista britânico Russell Foster, defendendo que “devíamos olhar com reprovação para este tipo de coisas. Da mesma forma que reprovamos quem fuma devíamos começar a censurar quem não leva o sono a sério”. Uma sociedade composta por pessoas que dormem pouco é uma sociedade doente, alerta o especialista.

Sono a menos, ou fora de horas, cria riscos para a saúde individual mas, também, representa um risco para a comunidade. O The Telegraph conversou esta semana com um especialista que alerta que quem trabalha nos transportes, por exemplo, pode colocar-se a si e aos outros em risco. A falta de descanso pode propiciar dificuldades de concentração e afetar as tomadas de decisão e, no limite, pode causar aquilo que Russell Foster chama de “micro-sonos”, que podem ser perigosos para quem trabalha ao volante, por exemplo.

“E olhemos para o setor da Finança, olhemos para as decisões recentes sobre a crise da Grécia”, nota o neurocientista, assinalando que “temos negociações importantes a estenderem-se pela noite fora, decisões com um impacto enorme tomadas por pessoas que, devido ao cansaço, têm as suas capacidades afetadas”. “Às quatro da manhã, a nossa capacidade para processar informação é semelhante a quando tomamos uma quantidade de álcool que nos tornaria embriagados, nos termos da lei – como se tivéssemos bebido vários whiskies ou cervejas”.

O Observador debruçou-se recentemente sobre este tema, a propósito do acordo na cimeira do euro atingido às primeiras horas de dia 13 de julho.

O corpo adapta-se a trabalhar por turnos? Não, não adapta

As consequências para o corpo humano de dormir pouco são perigosas. Mas Russell Foster junta a esta discussão os riscos associados a quem trabalha por turnos, ou em turnos da noite.

“Sempre se assumiu que quem tem de trabalhar turnos noturnos verá o seu relógio biológico a adaptar-se. Mas o que é extraordinário é que todas as descobertas [científicas] em vários estudos é que o corpo nunca se adapta”, diz o neurocientista, notando que trabalhar em horários noturnos foi ligado a uma maior probabilidade de doenças como o cancro, doenças cardiovasculares e diabetes do Tipo 2.

Um estudo recente feito em França revelou que os cérebros de quem trabalha horários noturnos há pelo menos 10 anos tende a envelhecer, em média, mais seis anos e meio do que quem trabalha com horários regulares e diurnos.