O Alzheimer é a forma mais comum de demência e estima-se que em Portugal existam cerca de 130.000 pessoas com esta doença. Para já sem cura à vista, e sem uma única intervenção médica que consiga evitar o seu aparecimento, parte do esforço da prevenção tem de partir de cada um. E porque se considera que uma boa alimentação é uma das chaves importantes neste processo, a Direção-Geral da Saúde (DGS), em parceria com o Centro Virtual sobre o Envelhecimento, lançaram um manual onde abordam o papel da nutrição e onde ajudam cada um a perceber o que deve ou não comer e em que quantidades.

De um modo geral, os doentes com Alzheimer apresentam deficiências em vários nutrientes, incluindo selénio, fibra, ferro e vitaminas do complexo B, C, K e E. Ao mesmo tempo, diferentes tipos de estudos epidemiológicos têm permitido obter informação sobre os efeitos positivos dos ácidos gordos ómega 3 e micronutrientes como as vitaminas do complexo B, vitaminas E, C e D. Mas sendo ainda controversa a recomendação de suplementação de nutrientes a estes doentes, as autoridades limitam-se a recomendar, pelo menos, o consumo das doses diárias recomendadas. Doses essas desconhecidas para a maior parte das pessoas. E por isso mesmo o Observador decidiu compilar uma série de informação deste estudo publicado esta sexta-feira no blogue Nutrimento.

  • A protetora vitamina C

A manutenção de valores normais desta vitamina “pode ter uma função protetora contra o declínio cognitivo relacionado com a idade e com a doença, mostrando ser uma vitamina a ter atenção tanto na prevenção como após o diagnóstico”, lê-se no manual.

As doses diárias recomendadas de vitamina C são de 90mg/dia num homem com mais de 18 anos e de 75mg/dia numa mulher com a mesma idade. Os especialistas deixam algumas dicas de como conseguir obter as doses recomendadas de vitamina C: dois kiwis (140g) – 100mg de vitamina C; uma laranja média (160g) – 91 mg; 10 morangos (150g) – 71 mg; 100g de couve portuguesa – 58mg; 100g de couve-lombarda – 44 mg; ¼ pimento (40g) – 43 mg e seis brócolos (180g) – 32 mg.

  • A importante vitamina E

A vitamina E, por seu turno, é importante para o funcionamento dos neurónios, sendo um constituinte das membranas dos neurónios e um potente antioxidante. E neste caso, existem estudos e dados epidemiológicos que mostram que a ingestão de vitamina E, proveniente de alimentos ou suplementos, está associada a uma diminuição do risco de desenvolver Alzheimer, embora mais uma vez não haja certeza sobre as mais-valias de uma suplementação de vitamina E acima das doses diárias de ingestão recomendadas que são de 15mg por dia tanto em homens como em mulheres com mais de 18 anos.

E os especialistas que construiram este manual ajudam-nos a perceber onde podemos encontrar esta vitamina: duas colheres de sopa de azeite (20g) têm 2,8 mg de vitamina E; 30g de sementes girassol – 7,4 mg; 30g de amêndoas – 7,2 mg de vitamina E; 30g de avelãs – 7,5 mg e 10g de creme vegetal – 1,5mg de vitamina E.

  • Importante ainda é ingerir também as doses recomendadas de vitamina B6 (que se pode encontrar em leguminosas secas, alguns tipos de queijo, cereais integrais, flocos de cereais, batata, alho francês, hortícolas de folha verde) e B12 ( presente em carne, pescado, ovos e lacticínios).
  • O selénio na diminuição do stresse oxidativo

O selénio é um micronutriente que tem um papel importante na diminuição do stresse oxidativo e, por isso, é particularmente relevante na prevenção e progressão da doença de Alzheimer, pelo que é importante ingerir as doses recomendadas, quer para prevenir, quer durante o tratamento. E as doses recomendadas são 55μg (microgramas)/dia em ambos os sexos, a partir dos 18 anos. E onde pode encontrar este micronutriente? Por exemplo no bacalhau: 90g de bacalhau cozido tem o equivalente a 32μg; 100g de peito de frango assado tem 20μg e um ovo médio tem 14 microgramas de selénio.

  • Ácidos gordos polinsaturados (Ómega 3) e o atraso do declínio cognitivo

Vários estudos com animais mostraram existir uma influência positiva dos ácidos gordos ómega 3 na estrutura cerebral, no atraso do declínio cognitivo e na redução da doença de Alzheimer. Os especialistas aconselham assim a que se monitorize a ingestão das doses diárias recomendadas de ómega3 que no caso dos homens com mais de 18 anos corresponde a 1,6g/dia e nas mulheres 1,1g/dia. E como se consegue alcançar estas doses? 90g sardinha têm 4,5g de ómega3; 90g de salmão grelhado (3,9 g); 90g de cavala (3,7g); 90g de dourada grelhada (2g); 30g de nozes (2,7g); 10g de sementes de linhaça (2,3g) e 10g de sementes de chia (2g).

  • Álcool sim, mas com moderação

Há estudos que revelam que o consumo moderado de bebidas alcoólicas, sobretudo de vinho, parece estar associado a uma diminuição do risco de aparecimento de doença de Alzheimer, mas não há suporte científico para aconselhar o consumo de álcool a quem não bebe. Contudo, para aqueles que já têm por hábito consumir bebidas alcoólicas, recomenda-se que continuem a consumir com moderação (entre uma a três porções por dia),
sendo que, o ideal seria duas porções para homens e uma para mulheres por dia. Uma porção equivale a 150ml de vinho ou uma cerveja ou 30ml de bebidas destiladas.

  • Os efeitos benéficos da cafeína 

Graças ao teor de cafeína, tanto o café, como alguns chás são um estimulante psicoativo que resulta num maior estado de alerta e melhor desempenho cognitivo. Estudos têm indicado que a cafeína quando consumida regularmente tem efeitos benéficos contra um número de perturbações neurológicas agudas e crónicas, incluindo acidente vascular cerebral, demência e doença de Alzheimer. Para já as autoridades de saúde recomendam apenas um consumo moderado de cafeína, não ultrapassando as doses diárias máximas recomendadas. A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar recomenda que não se ultrapasse uma ingestão de 400mg de cafeína por dia: uma caneca de café de cafeteira com 200ml tem 90mg de cafeína; 250 ml de uma bebida energética têm 80mg; um expresso de 60ml apresenta 80mg de cafeína; uma chávena de chá preto de 220 ml tem o equivalente a 50mg; uma lata de coca-cola de 350 ml tem 40mg e 50g de chocolate negro têm 25 mg de cafeína.

  • Cuidado com o alumínio

Os investigadores aconselham precaução devido ao potencial neurotóxico do alumínio quando presente no nosso organismo em excesso. Além disso, o alumínio é encontrado frequentemente no cérebro de pessoas com Alzheimer. E para tentar minimizar a exposição ao alumínio deve-se evitar o uso frequente de utensílios de cozinha de alumínio e minimizar a ingestão de antiácidos, fermento em pó e outros produtos que contenham alumínio.

  • Ingerir poucos lípidos

A baixa ingestão de gordura hidrogenada e saturada e o consumo de ácidos gordos polinsaturados, sobretudo da série ómega 3, podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares e baixar potencialmente o risco de vir a ter a doença de Alzheimer. Foi ainda verificado num grande estudo que pessoas que tinham o colesterol total acima dos 240 mg/dL durante a vida adulta apresentavam um risco acrescido de vir a ter Alzheimer de 57%, 30 anos depois, comparativamente com os que tinham níveis inferiores a 200mg/dL.

Alguns exemplos de fontes de gorduras saturadas a evitar: leite gordo, queijos gordos, iogurtes gordos como iogurtes do tipo grego e natas; produtos de charcutaria e enchidos; carne de vaca, porco, borrego; salgados; doces; bolachas; chocolate, entre outros.

Em resumo, qual é então a melhor dieta preventiva?

O consumo diário de fruta e hortícolas ricos em antioxidantes, de peixe semanalmente, o uso regular de óleos ricos em ácidos gordos ómega 3, de frutos oleaginosos e de cereais e a diminuição do consumo de gorduras saturadas, bem como a moderação do consumo de álcool parecem diminuir o risco de Alzheimer e de demência, de acordo com estudos científicos.

Mas a prevenção não se fica apenas pela dieta alimentar. Deve-se incluir o exercício físico na rotina, o equivalente a 40 minutos de caminhada rápida três vezes por semana, segundo os autores deste manual. E é também muito importante manter uma rotina de sono de, aproximadamente, 7-8 horas por noite, bem como desempenhar atividades mentais que regularmente promovam novas aprendizagens, por exemplo 30 minutos por dia, quatro a cinco vezes por semana.

E quando os doentes não querem comer?

Este é um problema que surge sobretudo num estado mais avançado da doença: os doentes deixam de ter apetite, ou de conseguir engolir, ou então cospem a comida ou simplesmente não fecham a boca. E é aqui, mais uma vez, que os cuidadores assumem um papel muito importante. Para esses, os especialistas deixam algumas dicas: a comida deve ser dada na cozinha, na medida em que “pode evocar sentimentos de conforto e de segurança” e os sentidos devem ser estimulados através do cheiro e do som do cozinhar, “evocando memórias que fornecem pistas de momentos agradáveis e outrora familiares”.

As refeições deverão ser relaxadas, sem pressas e livres de distrações e sem barulho, de preferência. Há, porém, estudos que indicam o benefício da música ambiente na hora da refeição. Importante é também “tornar o prato sensorialmente apelativo, através das cores, das consistências e dos aromas”. Outras estratégias para conseguir fazer com que o doente coma é oferecer várias pequenas refeições ao longo do dia, com sabores familiares, bem como cortar a comida em pequenas porções de maneira a que os doentes possam utilizar apenas a colher para comer, ou então opte por comidas que possam ser ingeridas com as mãos como sandes, fruta, ou outras.

E se os doentes deixam de comer, a utilização de suplementação energética e proteica com suplementos nutricionais orais em indivíduos com doença de Alzheimer em risco de desnutrição, costuma resultar “em melhorias significativas na ingestão energética comparando com os que não fizeram suplementação”.

Visto que a Doença de Alzheimer atinge tantos milhares de portugueses e muitas vezes os sintomas são desvalorizados pelos familiares, sendo associados ao envelhecimento, o Observador elenca ainda de seguida outros aspetos importantes a reter, para lá dos cuidados com a alimentação.

Sintomas do Alzheimer:

  • No início da doença, observam-se pequenos esquecimentos, perdas de memória e dificuldade em encontrar palavras certas
  • Mudanças de humor
  • Os pacientes podem tornar-se bastante confusos – problemas em lidar com o dinheiro, perda constante de coisas, repetição frequente de perguntas – e até agressivos
  • Com o avançar da doença,  aumenta a perda de memória e a confusão
  • E surge a dificuldade em reconhecer os familiares e até mesmo eles próprios quando se olham ao espelho
  • Dificuldade na realização de tarefas que envolvam vários passos (como por exemplo vestir-se)
  • Num estado mais avançado, começam a surgir limitações físicas e dificuldades de comunicação
  • E é nesta fase mais grave da doença que surge a incapacidade de comunicar, a perda de peso, as convulsões, as lesões cutâneas, a dificuldade em engolir, o aumento da sonolência e a incapacidade no controlo do intestino e da bexiga

Diagnóstico:

De momento, o diagnóstico desta doença faz-se através da exclusão de outras causas de demência, ou seja, através da análise do historial da pessoa, de análises ao sangue, tomografia ou ressonância, entre outros, explicam os autores deste estudo. Existem ainda exames que, através de testes genéticos, podem revelar a probabilidade de o indivíduo vir a ter Alzheimer.

Na próxima segunda-feira, a Universidade Portucalense apresenta um novo centro de investigação que vai trazer para Portugal tecnologia única de diagnóstico precoce de Alzheimer. O Instituto Portucalense de Neuropsicologia e Neurociências Cognitiva e Comportamental (INPP) conta, entre os seus investigadores, com autores de métodos de deteção precoce da doença de Alzheimer, que podem prever com dois anos de antecipação as pessoas que vão desenvolver Alzheimer, noticiou a instituição, em comunicado.

Tratamento:

Num estudo publicado na revista “Science Translational Medicine”, em março deste ano, ficou-se a saber que um grupo de especialistas conseguiu desgastar a placa que se forma no cérebro de pacientes com Alzheimer com uma técnica experimental aplicada a ratos, com recurso a ultrassons combinados com microbolhas injetadas no sangue de ratos. Em 75% dos casos, conseguiu-se quebrar quase totalmente as placas que se formam devido aos depósitos anormais de fragmentos de proteínas beta amiloide, e que criam um emaranhado que afeta a transmissão entre as células nervosas do cérebro, provocando o Alzheimer. Isto  sem causar danos no tecido do cérebro e com melhores resultados nos testes de memória.

Mas até à data não se descobriu a cura para a doença. Existe sim medicação que parece permitir alguma estabilização do funcionamento cognitivo, nas fases ligeira e moderada, bem como melhorar sintomas secundários, como agitação e depressão, ou ajudar os doentes a dormir melhor. E é este tipo de abordagem que os médicos fazem,  procurando ajudar as pessoas a manter as suas funções mentais o melhor preservadas possível e retardar os sintomas.

Fatores de risco:

Há vários fatores de risco associados à demência. De acordo com os especialistas, o maior fator de risco para desenvolver Alzheimer é o aumento da idade, visto que uma em cada quatro pessoas com mais de 85 anos sofre de demência. Mas também o sexo é apontado como um fator de risco, na medida em que a prevalência desta doença é mais elevada nas mulheres do que nos homens. De igual modo a genética e o historial da família são apresentados como fatores de risco.

Além destes, os especialistas da área têm ainda apontado o consumo excessivo de álcool também como fator de risco. Já o seu consumo moderado (em particular no caso do vinho) parece estar associado a uma menor incidência de Alzheimer.

Algumas pessoas que desenvolveram Alzheimer têm também na sua história médica um episódio de traumatismo cranioencefálico meses antes do diagnóstico desta doença. O acidente vascular cerebral, a doença cardíaca e a
hipertensão aumentam também o risco desta doença, bem como a diabetes mellitus tipo 2, de acordo com estudos recentes, e a inatividade física.