É caso para dizer: “estava no lugar errado à hora errada”. Num mundo cada vez mais global, em que as fronteiras já não são tão intransponíveis, os conflitos surgem com demasiada frequência. E há histórias de estrangeiros apanhados em golpes de Estado sangrentos, vítimas de atentados ou simples turistas que, sem verdadeira noção do que se passa, veem o mundo ruir à sua volta. Estavam de passagem ou em trabalho. Encontraram guerra.

Ainda esta semana, no Egipto, oito turistas mexicanos foram mortos “por engano”, quando a caravana em que seguiam atravessava uma zona proibida e foram confundidos com terroristas.

Muitos destes casos reais chegaram à sétima arte. Com mais ou menos louvores da crítica, aqui ficam algumas destas histórias de quem teve um enorme azar, mas viveu para contar como foi. Ou para que outros filmassem (e romanceassem) as suas histórias.

Jornalistas: os “ossos do ofício”.

Se há relatos de guerras, muito se deve ao trabalho de jornalistas corajosos. A figura do correspondente de guerra já teve maior relevância, mas foi graças a palavras, imagens e sons captados nos piores cenários imagináveis que conseguimos perceber a dimensão da crueldade humana. Ou uma realidade que, de tão longe, parece não importar.

Mas quando sabemos dos factos que inspiraram “Terra Sangrenta” (1984), é impossível ficar indiferente. A acção decorre no Camboja, no Ano Zero (1975) de Pol Pot no poder, à frente do Khmer Vermelho. Dois jornalistas, um norte-americano e um cambojano, atravessam o território, no início de um regime em que quase 25 por cento da população foi dizimada (entre 1 e 3 milhões de pessoas).

Também trágica foi a história de Daniel Pearl, o repórter do Wall Street Journal capturado em Karachi, em 2002, e decapitado por extremistas paquistaneses. Este caso correu o mundo e deu contornos ainda mais bárbaros aos conflitos que se estavam a inflamar. Em “Um Coração Poderoso” (2007), o desaparecimento e morte do jornalista são contados do ponto de vista da esposa, Marianne Pearl, numa das interpretações mais dramáticas de Angelina Jolie.

Também com jornalistas, surgem dois filmes que referem Suharto, o antigo presidente indonésio. “O Ano de Todos os Perigos” (1982) decorreu em Jacarta, na véspera do golpe de Estado (1965) que tiraria o poder a Sukarno. Mel Gibson interpreta Guy Hamilton, personagem inspirada em Christopher Koch, jornalista australiano que sobreviveu a esses dias de tensão.

Menos sorte tiveram os “Cinco de Balibo”, o grupo de jornalistas australianos capturado e executado por forças militares indonésias, durante a ocupação de Timor-Leste (1975). O primeiro filme gravado no território, “Balibo” (2009), relança a busca pelos “Cinco” desaparecidos, numa parceria entre Roger East, um jornalista veterano interpretado por Anthony LaPaglia, e um jovem José Ramos-Horta, “vestido” por Oscar Isaac.

Moedas de troca e espionagem

Em tempos de conflito, mesmo quem se afasta dos combates, acaba por ser afectado. Muitas vezes, de forma trágica. Em 1996, em plena guerra civil da Argélia, sete monges franceses foram raptados do mosteiro de Tibhirine, no extremo norte do país. Passados dois meses de cativeiro, acabaram por ser executados. As circunstâncias da sua morte ainda estão por esclarecer, mas a história já chegou ao cinema, com “Dos Homens e dos Deuses” (2010). O filme foi louvado pela crítica e, após a estreia, venceu o Grand Prix do Festival do Cannes.

Outro caso recorrente é o rapto de figuras de representação diplomática, na tentativa de ganhar peso na mesa de negociações. Do outro lado do Atlântico, em 1969, o Brasil vivia o início de uma longa ditadura militar e grupos de jovens militantes de extrema-esquerda decidiram agir. O rapto do embaixador dos Estados Unidos da América (EUA), Charles Elbrick, foi recordado por Fernando Gabeira no livro “O que é isso, companheiro?” (1979), mais tarde adaptado para cinema com o mesmo título. O sequestro durou cerca de 20 minutos e não provocou feridos, mas Gabeira continua a não poder entrar nos EUA.

Com a indústria cinematográfica a dar o mote, não faltam casos de norte-americanos apanhados em falso. Principalmente, no Médio Oriente. Principalmente, no Irão. Com o mais recente acordo a dar alguma esperança de tréguas, filmes como “Rapto em Teerão” (1991) e “Argo” (2012) provam que o passado entre estes dois países não deixa saudades. No primeiro exemplo, Sally Field vive uma crise doméstica em que, ao visitar o país natal do marido (o iraniano Moody, interpretado por Alfred Molina), é impedida de regressar com a filha aos EUA. O filme, baseado em factos reais, foi um flop e mereceu críticas pela forma simplista como apresentou a cultura iraniana.

Já “Argo” leva as coisas para outro plano. Em 1980, na mediática “Crise de Reféns” (1979-1981), uma equipa liderada por Tony Mendez, agente da CIA, foi a Teerão fazer um filme de ficção científica. Era uma operação de fachada que resultou, pois conseguiram libertar seis dos diplomatas detidos.

O pior (e o melhor) da Humanidade

Diplomacia e trabalho jornalístico à parte, há também inúmeros casos de quem foi, simplesmente, apanhado de surpresa por um golpe militar. Os cineastas continuam a mostrar a confusão, o medo e os horrores de quem vê o mundo virado do avesso.

Entre uma família no sudoeste asiático em convulsão (“Sem Saída”, 2015), um casal no Chile de Pinochet (“Colonia”, 2016) e um médico escocês ao serviço do ditador ugandês Idi Amin (“O Último Rei da Escócia”, 2006), a ficção e a realidade entrelaçam-se. Mas “Hotel Ruanda” (2004) continua a merecer um destaque, neste jogo trágico em que a sorte não quis nada com os homens reais. A história de Paul Rusesabagina, com Don Cheadle no papel de uma vida, é o retrato cruel de um mundo em que a normalidade é efémera e, mesmo numa imensa tela de cinema, há momentos da história que custa acreditar que deixámos acontecer.