Já se quis esconder o peito, já se quis evidenciá-lo, já se quis tapar muito e pouco, tê-lo em forma bicuda e redonda, já se usaram espartilhos com muito sofrimento à mistura, já se voltaram a usar corpetes de livre e espontânea vontade. É caso para dizer que mudam-se os tempos, mudam-se os soutiens. Mas o que terá mudado, de facto? E haverá ainda espaço para evoluir?

Para fazer uma história do soutien é preciso regressar à Grécia Antiga. Na altura, muitas mulheres não o usavam — tendência que tem voltado entre as mais ousadas –, mas as que se queriam tapar usavam uma fita de lã à volta dos seios, que tinha por objetivo achatá-los e comprimi-los junto à caixa torácica. O método era muito semelhante do que se praticava no século III em Roma, onde as mulheres protegiam os seios com bandas durante a atividade física, numa espécie de método precursor dos soutiens desportivos que existem hoje. Segundo Inês Basek, uma das fundadores da loja Dama de Copas, inovadora na arte do bra fitting, “imobilizar o peito não é a melhor solução: o soutien tem um objetivo por cumprir que passa por sustentar o peito”.

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Mosaico do século IV encontrado em Villa del Casale, Roma.

Rondava-se o ano 1500 quando apareceram os espartilhos, peça de vestuário mais semelhante a um elemento de tortura e que muitos defendiam representar uma restrição física e simbólica para as mulheres. A pressão era tanta que os corpos femininos assumiam a forma de ampulheta (a chamada “hourglass”, uma silhueta que tem sido treinada, atualmente, por celebridades como Kim Kardashian).

Por causa dos espartilhos, as mulheres tinham dificuldades em respirar, chegando a desmaiar e a fazer com que os órgãos trocassem de lugar. Hoje os corpetes continuam a vender-se mas “mais confortáveis” e não se aconselha a usá-los no dia-a-dia. “Há outras peças modeladoras”, diz Inês Basek, para quem o corpete não deixa de ser uma peça sexy, que pode ser inclusivamente “usada para uma festa, debaixo de um casaco, desde que não tenha aspeto de lingerie”.

apertar espartilho

Quando o assunto era um espartilho, dava sempre para apertar mais um bocadinho. Foto: Getty Images

Só em 1914 o soutien foi patenteado por uma socialite nova-iorquina que decidiu “partir o espartilho em duas partes”. Conta-se que Caresse Crosby decidiu ir mais cómoda a um baile para o qual tinha sido convidada e que quando as outras mulheres a viram dançar livremente, sem as amarras do espartilho, foram fazer-lhe encomendas. Como o material que Caresse usava era elástico, só havia um tamanho de soutien — o conforto ainda não tinha chegado ao peito de todas as mulheres.

Os espartilhos conheceram o seu fim, pelo menos tal como existiam até então, com a I Guerra Mundial. Com os homens na guerra, as mulheres tiveram de ir trabalhar para as fábricas e começaram a precisar de uma maior liberdade de movimentos. Estima-se que nesta fase só elas tenham produzido 28 mil toneladas de ferro, suficiente para fazer dois navios de guerra.

3rd November 1914: A copy of the first patent for the brassiere, filed on 12th February 1914, by Mary P Jacob. (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

A patente do “brasserie”, palavra que apareceu pela primeira vez na Vogue norte-americana, em 1908.

Com a chegada dos anos 30 chegaram também as copas, pelas mãos de William e Ida Rosenthal. “A verdade é que só havia duas copas, A e B, mas as mulheres antigamente tinham menos peito do que agora. A alimentação mudou e os hábitos também”, explica Inês Basek. Além de terem aparecido os aros e as alças ajustáveis.

Apesar de toda a destruição que a II Guerra Mundial provocou, a fundadora da Dama de Copas conta que “foi a falta de seda [durante a guerra] que levou ao desenvolvimento dos tecidos sintéticos e que trouxe um grande avanço ao nível da roupa”.

3rd June 1949: A woman wearing a strapless lace bra and corset suspenders. (Photo by Chaloner Woods/Getty Images)

O aumento do tamanho das copas em vários estilos de soutien veio dar outra liberdade de escolha às mulheres, que agora podem usar um cai-cai sem problemas.

Nem todos os progressos foram bem vistos. Nos anos 60, um concurso da Miss América tornou-se palco da conhecida “queima de soutiens”, organizada por 400 ativistas cuja intenção era acabar com a exploração comercial realizada contra as mulheres. Devido a uma intervenção da polícia acabaram por não se queimar soutiens nenhuns, mas o acontecimento é referido até hoje.

A evolução a nível de tamanhos aconteceu nos anos 90, década em que os push-ups — soutiens cujo objetivo é “dar o efeito de peito junto para fazer um decote bonito” — conheceram os seus anos de glória (quem não se lembra de Eva Herzigova na campanha da Wonderbra?). Hoje em dia ainda se vendem, mas a fundadora da Dama de Copas defende que só devem usar usados por quem tem peito pequeno.

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O famoso cartaz da Wonderbra que chegou a provocar vários acidentes na estrada.

A tendência para o futuro é continuar a aumentar os tamanhos que, atualmente, já vão na copa KK, e continuar a melhorar os materiais, em prol de um maior conforto. E se antigamente as mulheres se ficavam pelo clássico, hoje podem escolher as cores que quiserem. “Uma senhora de 80 anos não é obrigada a andar de soutien branco”, diz Inês Basek, acrescentando que “a mulher tem o direito a poder escolher o que quiser, seja um cai-cai ou um soutien desportivo do seu tamanho”. E esta é outra grande alteração do passar dos tempos: se antes um soutien dava para tudo, agora há um soutien para várias ocasiões.

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Exemplo de um soutien à venda na Dama de Copas (64€).

Quanto à probabilidade de, daqui a uns anos, as mulheres fartarem-se de usar soutiens, Inês afirma que tal “é impossível de vir a acontecer, porque é demasiado desconfortável”. Já questionada sobre se o uso do soutien estará ligado ao cancro da mama, a especialista em bra fitting garante que não. “É um erro, não há estudo nenhum que o confirme.”

Quebrados mitos, as mulheres devem estar cientes de que a “engenharia de um soutien é muito complexa” — “são muitos elementos desde as costuras aos revestimentos” — e que “mais vale ter três ou quatro bons soutiens do que muitos que não façam o seu trabalho.”

Se andar por Londres a partir de dia 16 de abril de 2016, pode aproveitar para ver a evolução da roupa interior ao vivo, na nova exposição do Victoria & Albert Museum. Diz que vai haver corpetes, boxers e até ceroulas, para além de algumas cuecas provavelmente mais compostas, já que a tanga só apareceu nos anos 80. Mas essa é outra história.