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Stress e ansiedade. Duas palavras comuns. Dois problemas silenciosos. Fala-se deles com banalidade, mas a verdade é que podem controlar vidas, criar obstáculos, arrefecer desejos e vontades, condicionar o bem-estar e a tranquilidade. O stress pode ser bom, se nos der adrenalina, mas pode tornar-se mau, péssimo, ao tornar-se crónico. Já a ansiedade é sua cúmplice e agrava este problema, tantas vezes desvalorizado.

O Observador participou num Workshop de Stress e Ansiedade, realizado na Clínica Médica e Paramédica de Oliveira do Hospital (CMPOH) e falou com uma neuropsicóloga e vários participantes para perceber de que modo o stress condiciona o dia-a-dia das pessoas, em que momento se torna perigoso e quais as estratégias e truques para aprender a lidar com ele.

Uma sala, várias almofadas no chão, música relaxante e dezassete mulheres. De mais velhas até bastante mais novas. Todas, uma a uma, apresentaram as principais razões de estarem ali. E nenhuma das participantes estava naquela sala por curiosidade. Todas elas, de uma maneira ou de outra, já sentiram na pele os efeitos de um problema que vai progredindo e que vai retirando forças, quer para se ser bem-sucedido no trabalho, como simplesmente para lidar com a família. Se algumas procuravam apenas conselhos, outras contavam histórias de experiências mais dramáticas, que obrigaram a que os medicamentos fossem presença habitual nas suas rotinas.

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O Workshop que se realizou no dia 14 de novembro e que contou com uma segunda edição, já no dia 21. Créditos: facebook/cmpoh

A neuropsicóloga, Mariana Paixão, esclarece que o stress “é um mecanismo de resposta a situações consideradas novas, ou seja, que necessitam de ação efetiva e imediata”, explicando que se trata de um mecanismo omnipresente, que nos pode ajudar em várias situações diárias, mas que, a certa altura, pode ficar fora de controlo.

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“Pensemos no exemplo de nos estarmos prestes a queimar no fogão e de retirarmos a mão rapidamente. O stress ajuda-nos nessa situação, enviando mensagens para o cérebro. No entanto, em várias outras situações, mais complexas, quando não conseguimos encontrar uma forma de solucionar os problemas, os mecanismos de stress estão constantemente ativados, o que gera um ciclo permanente e contínuo e, em consequência, um possível quadro de stress crónico”, afirma a especialista.

Um aperto no peito, o coração a bater a mil à hora, insónias, cansaço, esquecimento, tristeza, medo, insegurança ou angústia. Sinais que foram repetidos, várias vezes, pelas participantes.

Andreia Tavares tem 37 anos, é assistente social, e contou ao Observador como percebeu que alguma coisa de anormal se estava a passar. “Tudo começou em 2009, quando tive uma crise de pânico e senti que ia morrer”, disse. Passaram 6 meses até consultar um médico. As palpitações eram constantes e os tremores, também. Andreia explicou que passou um período realmente atribulado e que decidiu recorrer a um psiquiatra que a aconselhou a psicoterapia.

“Há 6 anos que estou medicada. A psicoterapia que comecei há um ano está a ajudar-me a libertar da medicação, mas tem sido uma mudança lenta e gradual. A psicoterapia fez-me perceber porque é que isto me acontece, ajudou-me a identificar o que me fazia sentir mal e ajudou-me a perceber que havia outros caminhos, até a nível profissional”, afirmou.

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O ciclo vicioso de stress vai afetando o organismo, passo-a-passo, explicou a neuropsicóloga. Créditos: facebook/cmpoh

“Podemos ter alterações muito específicas, que variam de pessoa para pessoa, mas sabemos que existem consequências gerais, como as situações de AVC, tensão arterial, diabetes e consequências comportamentais, cognitivas e emocionais”, revela por sua vez a neuropsicóloga. Mariana Paixão conta que a maioria das pessoas chega à consulta sem perceber a verdadeira razão daquilo que as trouxe até ali (o quadro de stress crónico).

“As pessoas chegam às consultas em situações limite, ou muitas vezes por casos específicos, como quadros de enfarte do miocárdio ou depressão. Nestas situações não é o stress ou a ansiedade que os leva a procurar o profissional, mas sim as consequências dele, sejam elas orgânicas, cognitivas ou ambientais”, acrescenta.

Sandra Oliveira é professora de matemática, tem 42 anos e conta que apesar de não estar numa situação de um quadro de stress crónico decidiu procurar o workshop porque sente que é necessário aprender a controlar os sintomas. “O trabalho é sem dúvida um dos principais focos de stress, face ao consumo de energia e de tempo. Tomei medicamentos no passado, mas neste momento estou a fazer a minha rotina sem químicos”, esclarece.

A professora explicou que fez um tratamento à base de produtos naturais e que a partir daí decidiu que nos momentos de stress e ansiedade tinha de encontrar forma de contornar a situação, refugiando-se, por exemplo, no exercício físico ou no crochet. “Necessitei de encontrar estratégias para me afastar desses pensamentos”, disse.

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Existem tratamentos alternativos para tratar os quadros de stress crónico para além dos medicamentos. (sessão 14 de novembro) Créditos: facebook/cmpoh

O stress torna-se um agente verdadeiramente perigoso quando toma as rédeas do trabalho e da família. Os químicos parecem a via mais fácil, com efeitos rápidos e eficazes, mas a neuropsicóloga alerta para a existência de outros tratamentos que implicam, contudo, mais esforço.

“Os tratamentos não químicos para o stress implicam um enorme esforço e uma plena motivação do paciente. Na verdade, podemos ter que prolongar no tempo esta intervenção e muitas vezes isso traz um encargo acrescido. No entanto, não são raras as vezes em que o uso de fármacos parece facilitar esta resolução, mas não nos podemos esquecer que o stress se trata de algo com base no cérebro e que nunca deve ser negligenciado”, disse a neuropsicóloga.

Também Carla Silva, com 35 anos, partilhou a sua experiência. Os altos e baixos da vida profissional tomaram conta do ânimo e da vontade. Vive medicada, mas à procura de uma solução. “Sempre senti que era uma pessoa ansiosa, mas comecei a sentir que era um problema quando iniciei a minha atividade laboral e sobretudo quando esta situação começou a transtornar a vida com o meu marido, o meu filho e a minha família”, conta Carla, que embora tenha trabalhado 6 anos como assistente social está agora num call center. “É um fonte de stress, uma pressão permanente”, afirma.

Ajuda, truques e técnicas. A fórmula mágica que todas as participantes queriam levar para casa. A neuropsicóloga Mariana Paixão explicou que não há mecanismos milagrosos e que resultem na mesma medida, em todas as pessoas, contudo, não deixou de lançar um desafio às participantes, convidando-as para um momento de meditação.

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A neuropsicóloga finalizou o workshop com uma sessão de relaxamento. (sessão 21 de novembro) Créditos: facebook/cmpoh

Da visão à audição, do tato ao olfato e ainda o paladar. A neuropsicóloga percorreu todos os sentidos num exercício em que se pedia descontração. Foi pedido às participantes que fechassem os olhos e se deixassem levar pelas palavras da neuropsicóloga, que alertou para a necessidade das pessoas procurarem tempo e espaço para elas próprias.

A meio do exercício um bombom para aguçar o paladar e, no final, um gato persa, para estimular a interação. Este é um animal que segundo a neuropsicóloga é utilizado em vários tratamentos de relaxamento face à interação que promove e ao seu temperamento calmo.

Para os mais stressados e ansiosos, que estão à procura de estratégias para contornar estes obstáculos a neuropsicóloga aconselha:

“É importante procurar tirar o máximo partido de novas situações, sem que elas sejam só vistas como uma ameaça. Retirar um tempo a cada dia, nem que sejam apenas 10 minutos, em que se possa estar sozinho e promover a introspeção. Caso não se consiga controlar os sintomas de forma autónoma, é fundamental procurar um especialista que o ajude a fazê-lo. E claro, lembrar-se que nada é definitivo e que o importante é viver o presente”.