O arquiteto Nuno Teotónio Pereira, que faria 94 anos no próximo dia 30, morreu na manhã desta quarta-feira. Deixa uma carreira de 60 anos que o tornaram uma das mais destacadas personalidades da arquitetura nacional.

Nuno Teotónio Pereira, que nasceu em 1922 e se formou na Escola de Belas Artes de Lisboa, distinguiu-se por ser autor de uma obra bastante eclética, muitas vezes realizada em colaboração com outros arquitectos e que explorou algumas das principais correntes estéticas da segunda metade do século passado.

Vindo de uma família ligada ao Estado Novo — o tio, Pedro Teotónio Pereira, foi ministro de Salazar e figura muito influente nas décadas de 1930 e 1940, época em que ocupou também alguns importantes postos diplomáticos –, o arquiteto distanciou-se rapidamente do regime na década de 1950, tornando-se num dos militantes mais destacados do movimento dos chamados “católicos progressistas”. Quando o 25 de Abril chegou encontrou-o preso em Caxias, para onde fora levada depois de ter sido preso na Capela do Rato a 31 de dezembro de 1973 quando, em conjunto com outros ativistas, uma “greve da fome” destinada a assinalar uma vigília pela paz convocada a pretexto do Dia Mundial da Paz, que o Papa Paulo VI acabara de propor e se celebrada a 1 de janeiro.

Nos anos seguintes ao 25 de Abril teria uma intensa actividade política no MES (Movimento de Esquerda Socialista), o mesmo onde pontuaram figuras como Jorge Sampaio, João Cravinho ou Ferro Rodrigues.

Como arquitecto o seu atelier na Rua da Alegria, em Lisboa, foi, durante muitos anos, uma escola de talentos onde Nuno Teotónio era, muitas vezes, apenas uma espécie de primus inter pares. Entre os nomes com quem assinou obras conjuntas contam-se Bartolomeu da Costa Cabral, Nuno Portas, Pedro Vieira de Almeida, Braula Reis, João Paciência, Gonçalo Byrne e Pedro Viana Botelho, com quem partilhou o atelier nos seus últimos anos de vida criativa.

Ainda jovem arquiteto participa no movimento que, a partir do  1º Congresso Nacional de Arquitetura de 1948, contesta o formalismo da arquitectura do regime, uma arquitectura tradicionalista e supostamente “portuguesa” e com inspiração na “casa tradicional”, defendendo os princípios do movimento moderno e da Carta de Atenas. Como escreveu a historiadora de Arquitetura Ana Tostões, esse congresso representou “uma vitória incontestável da classe, na medida em que, pela primeira vez, os arquitetos se reúnem para discutir livremente ideias e afirmar convictamente a necessidade de fazer Arquitetura moderna no quadro de uma nova consciência profissional”.

Nuno Teotónio Pereira seria um dos protagonistas da renovação da arquitectura portuguesa nos anos seguintes, não só através das obras que foi produzindo – com destaque, ainda na década de 1950, para o Bloco das Águas livres em Lisboa, que desenhou em colaboração com Bartolomeu Costa Cabral entre 1953 e 1955 – como do influente Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa, um levantamento realizado em todo o país a partir de 1949 sob iniciativa do Sindicado Nacional dos Arquitetos. Nuno Teotónio Pereira realizaria, em conjunto com António Pinto Freitas e Francisco Silva Dias o levantamento na região da Estremadura. O resultado desse inquérito, ainda hoje uma obra de referência com sucessivas edições, permitiu desmitificar a ideia de que existia uma “casa portuguesa”, bem pelo contrário, sendo grande a diversidade de estilos e tradições das diferentes regiões de Portugal.

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A primeira edição de “Arquitectura Popular Portuguesa”

Entre as suas obras mais marcantes encontram-se as que, por três vezes, lhe permitiram ganhar o Prémio Valmor, um galardão atribuído ao melhor projecto construído na cidade de Lisboa. Isso aconteceu com o edifício de habitação na Rua General Silva Freire, n.º 55 a 55 A, nos Olivais Norte, em Lisboa, um projecto realizado com António Pinto Freitas e que foi premiado em 1967; o edifício de escritórios e comércio na Rua Braancamp n.º 9, conhecido por Edifício Franjinhas, uma obra realizada em colaboração com João Braula Reis e que, mesmo tendo sido galardoada em 1971, suscitou enorme polémica e foi tratada como “mamarracho” pela imprensa popular da capital; e a Igreja do Coração de Jesus, que desenhou em conjunto com Nuno Portas e conquistou a edição de 1975 do Prémio Valmor. Para além disso também ganhou mais uma menção honrosa, em 1987-1988, como o Quarteirão Rosa do Bairro do Restelo, projectado com Pedro Viana Botelho.

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O edifício de escritórios que ficou conhecido como o “franjinhas”

Um outro projecto realizado também com Pedro Viana Botelho, o conjunto habitação social de Laveiras/Caxias, ganhou o prémio INH de 1992. Nuno Teotónio Pereira dedicou, de resto, uma parte da sua carreira à habitação social, tendo sido consultor de Habitações Económicas na Federação das Caixas de Previdência entre 1948 e 1972. Projectou habitação social para Braga, Castelo Branco, Póvoa de Santa Iria, Barcelos e V. N. Famalicão e foi ele que realizou o primeiro concurso para habitações de renda controlada.

Outra obra marcante é a Igreja Paroquial de Almada, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, de 1965-1967 e que, com a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, foi um importante contributo para a renovação da arte religiosa. Nuno Teotónio Pereira foi de resto fundados, logo em 1952, do Movimento para a Renovação da Arte Religiosa.

Em abril de 2015, Nuno Teotónio Pereira foi distinguido com o Prémio Universidade de Lisboa 2015 pelo exercício “brilhante” na área da arquitetura e como “figura ética”.

Um arquiteto que assume o ideário da modernidade

Para Ana Cristina Tostões, professora do Instituto Superior Técnico e especialista em História da Arquitetura”, Nuno Teotónio Pereira é “uma figura referencial da arquitetura portuguesa”. Pioneiro no trabalho de equipa, criou “um centro de inovação e discussão” paralelo à escola de arquitetura, que funcionava no antigo Convento de São Francisco, onde fica hoje em dia a Faculdade de Belas-Artes. “É um arquiteto que assume o ideário da modernidade, mas sempre com uma vontade de colocar as suas obras nos lugares, feitas para as pessoas. Trabalhava com aquilo estava à volta”.

Ao Observador, Ana Cristina Tostões lembrou ainda a dimensão social e de intervenção do trabalho de Nuno Teotónio Pereira, e a sua preocupação em criar edifícios a “pensar nas pessoas”. “Fez uma excelente habitação social e renovou os programas para melhorar as condições dos trabalhadores. Criou equipamentos como a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, sempre em equipa. Foi um homem muito generoso, um católico que se revoltou contra as injustiças e que teve uma intervenção política assumida — foi preso três vezes pela PIDE.”

Para a especialista, é essa faceta humana, que Nuno Teotónio Pereira sempre fez questão de passar para a arquitetura, que é o seu verdadeiro legado. “E é em relação a esse que temos de estar à altura.”

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Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa

Já Pedro Belo Ravara, vice-presidente da Ordem dos Arquitetos, considerou a morte de Nuno Teotónio Pereira uma “triste notícia para todos os que conheciam”. Ao Observador lembrou sobretudo a figura de professor: “Ele foi uma influência de escola para os arquitetos portugueses. Às vezes fala-se na Escola de Lisboa e na do Porto, mas ele estava para além disso. Fomos todos influenciados”. Aos alunos que ensinou, Nuno Teotónio Pereira passou os “valores mais humanos e de confraternização”, que sempre tentou passar para os seus trabalhos. “Nos projetos de habitação que ele desenhou, havia sempre zonas de encontro e de estar”, salientou o vice-presidente. “A arquitetura era um complemento da pessoa.”

Como exemplo do seu trabalho, Pedro Belo Ravara referiu o “Edifício Franjinhas”, na esquina da Rua Braamcamp com a Castilho, e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que “acabam sempre por valorizar e oferecer espaço-público”. “Deixou uma marca na cidade, nomeadamente através dos projetos habitacionais”.

O vice-presidente da Ordem dos Arquitetos salientou ainda que, apesar da profissão, Nuno Teotónio Pereira, um homem “fora de série” e com “uma enorme sensibilidade”, nunca deixou de se “dedicar a causas mais sociais e de defesa dos direitos e das liberdades de todos nós”.

Numa nota enviada à Agência Lusa, o Partido Socialista (PS) manifestou “consternação pela morte do arquiteto” e lembrou-o como uma “figura maior da corrente dos ‘católicos progressistas'”, que sofreu com “a perseguição da ditadura”. “Para além de ser uma figura incontornável da história da arquitetura moderna portuguesa, Nuno Teotónio Pereira foi ao longo de toda a sua vida um notável exemplo de cidadania na defesa dos valores da Liberdade e da Democracia, antes e depois do 25 de Abril”, referiu ainda o PS.

Os socialistas frisaram ainda o seu papel enquanto cidadão e humanista, que se refletiu “no facto de ser um dos ‘pais’ da habitação social em Portugal, quer na dimensão teórica, que acabaria com a consagração do direito à habitação como um dos direitos tutelados pela Constituição da República Portuguesa em 1976, quer através de projetos concretos em diversos concelhos do país”.