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Cristianismo

Mil anos depois, a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa sentaram-se à mesma mesa

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Quase mil anos depois, os líderes do Vaticano e da Igreja Ortodoxa Russa encontraram-se num lugar improvável: o aeroporto de Havana, Cuba. Apelaram ao fim da perseguição de cristãos no Médio Oriente.

Max Rossi/POOL/EPA

É um sítio curioso para pôr fim a um silêncio que começou em 1054, com o Grande Cisma do Oriente. O primeiro encontro entre o Papa da Igreja Católica e o Patriarca Kirill de Moscovo, da Igreja Ortodoxa Russa, deu-se numa sala do aeroporto José Martí, em Havana, capital de Cuba.

O encontro teve início depois de o Papa Francisco aterrar em solo cubano. Pelo caminho, quando sobrevoava Portugal enviou uma mensagem ao Presidente da República, Cavaco Silva: “Envio saudações cordiais a Vossa Excelência, ao sobrevoar Portugal na minha viagem para o México”. Viagem para o México — foi para lá que seguiu o avião com o Papa Francisco a bordo, onde fará uma visita oficial — mas com paragem em Cuba, onde foi recebido por outro chefe de Estado: o Presidente cubano, Raúl Castro. Este, acompanhou-o até à sala onde o esperava o Patriarca Kirill de Moscovo. Quando viu o seu homólogo russo, cumprimentou-o à boa maneira eslava: com um abraço e três beijos na cara.

O conteúdo da reunião, que se prolongou durante quase três horas, não é conhecido — e assim deverá permanecer. No entanto, no final, os dois clérigos assinaram um documento com 30 pontos que foi tornado público.

“Foi com alegria que nos encontrámos enquanto irmãos da fé cristã para falarmos cara a cara”, lê-se no documento, aqui disponível em inglês, onde mais à frente é lamentada a cisão que separou estas duas igrejas em 1054: “Durante quase mil anos, católicos e ortodoxos foram privados da comunhão da Eucaristia. Temos estado divididos por feridas causadas for conflitos antigos e recentes, por diferenças que herdámos dos nossos ancestrais na maneira como entendemos e expressamos a nossa fé em Deus e noutras três pessoas — pai, filho e espírito santo. Estamos magoados com a falta de unidade, que resulta da fraqueza e do pecado do Homem”.

Que a nossa reunião inspire cristãos em todo o mundo para rezarem pelo Senhor com um fervor renovado a favor da unidade de todos os seus discípulos. Num mundo que anseia não só pelas nossas palavras mas também por gestos concretos, que esta reunião sirva como um sinal de esperança para todas as pessoas de bem!”, lê-se no documento assinado por Kirill e Francisco.

Juntos pelo fim do conflito na Síria e da perseguição de cristãos

Uma parte considerável da declaração conjunta concentra-se na perseguição de cristãos no Médio Oriente e no Norte de África — e é este um dos motivos principais para esta reunião histórica. “As suas igrejas estão a ser barbaricamente destruídas e saqueadas, os seus objetos sagrados são profanados e os seus monumentos são destruídos”, escreveram, para depois afunilar o discurso para a situação “na Síria, Iraque e outros países do Médio Oriente”.

E, a propósito da instabilidade e conflito sentidos naquela região, fizeram um apelo à comunidade internacional que ajudasse cristãos e também pessoas de outras religiões:

Instamos a comunidade internacional a agir urgentemente para prevenir mais expulsões de cristãos do Médio Oriente. Ao levantarmos a nossa voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos também expressar a nossa compaixão pelo sofrimento sentido por praticantes de outras religiões que também têm sido vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista.”

O pedido à comunidade internacional é claro: “Que contribua para fazer regressar a paz civil através do diálogo”. Uma realidade que pode estar mais próxima — mas nem por isso perto — depois de o Grupo Internacional de Apoio à Síria (EUA, Rússia, países da Liga Árabe e outros, num total de 17 nações) ter chegado a um acordo para permitir um fim das hostilidades — menos contra o Estado Islâmico e outros grupos terroristas — naquele país. E, ainda neste tema, falaram dos refugiados que fogem do Médio Oriente em direção à Europa: “Não podemos ser indiferentes aos destinos de milhões de migrantes e refugiados que batem às portas das nações ricas”.

A reunião também serviu para as duas igrejas sublinharem os vários pontos onde estão de acordo. É o caso do aborto (“milhões vêm o seu direito de nascerem neste mundo a ser-lhe negado”); a oposição ao casamento homossexual (“a base da família é o casamento, um ato de amor e fé entre um homem e uma mulher”); a contrariedade a métodos alternativos de reprodução (“estamos preocupados com o desenvolvimento das técnicas de reprodução pela tecnologia, uma vez que a manipulação da vida humana representa um ataque à base da existência humana, criada à imagem de Deus”) e a oposição à secularização das sociedades (“observamos que a transformação de alguns países em sociedade secularizadas, desprovidas de qualquer referência de Deus e da sua verdade, constitui uma ameaça à liberdade religiosa”).

No final do encontro, o Papa Francisco e o Patriarca Kirill trocaram presentes. O líder do Vaticano ofereceu ao seu homólogo um cálice e uma relíquia de São Cirílico, o arcebispo de Alexandria do século V que é venerado tanto por católicos como ortodoxos. Do seu lado, o líder russo ofereceu ao Papa Francisco uma réplica de um ícone da Nossa Senhora de Kazan, a figura mais adorada na Igreja Ortodoxa.

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