A poucos meses de completar 70 anos de carreira, o autor de banda desenhada José Garcês diz ter prestado “um serviço público ao país”, mas, aos 87 anos, não quer parar de trabalhar e tem inéditos à espera de publicação.

A 12 de outubro de 1946, a revista de BD O Mosquito publicou a história “Inferno verde”, que assinalava a estreia de José Garcês, um jovem lisboeta, então com 18 anos, saído da escola António Arroio, que tinha jeito para o desenho e queria muito fazer histórias em quadradinhos.

Setenta anos depois, em entrevista à agência Lusa, no atelier onde ainda trabalha, na Amadora, José Garcês reconhece uma ou outra falha de memória – “já foi há tanto tempo, isto tudo no século passado”, exclamou -, mas, no essencial, recordou um percurso que atravessou o século XX e o coloca hoje entre os últimos de uma geração na banda desenhada portuguesa.

O nome de José Garcês está associado sobretudo à criação de BD com figuras e acontecimentos da História de Portugal, com um traço realista e detalhado, feito integralmente à mão, com tinta-da-china e aguarela, a revelar afinidades com a obra do norte-americano Harold Foster (autor de “O príncipe Valente”).

A lista de revistas de BD com as quais colaborou é bastante extensa. Com editoras, entre as quais a ASA, com a qual trabalhou cerca de duas décadas, fez manuais escolares, ficção e percorreu o país em visitas a escolas e a partilhar esse entusiasmo pela banda desenhada e pela História.

Entre os livros publicados estão, por exemplo, “A História de Portugal em BD”, “Bartolomeu Dias”, “Cristóvão Colombo”, “D. João V”, “História do Porto” e “História do Jardim Zoológico”.

“Tenho algumas coisas de ficção, mas eu entendi que a minha carreira devia ser dirigida mais ao ensino. Acho que a banda desenhada foi uma boa opção para ensinar, porque tinha imagens”, afirmou.

Depois de O Mosquito, para o qual fez quatro histórias, desenhou, entre outros, para a Cavaleiro Andante, Modas e Bordados, Mundo de Aventuras e também para as revistas Camarada e Fagulha, estas da Mocidade Portuguesa, organizações juvenis do regime de Salazar.

José Garcês disse que apresentou sempre as histórias que queria e que nunca teve censura. Tirando uma excepção. Na revista Fagulha, publicada a partir de 1958, José Garcês criou a personagem feminina Fathma, mas a diretora recusou-se a publicar um desenho em que a mulher aparecia de bruços.

“Dizia que não era conveniente, não era bonito e eu tive de alterar o desenho, porque nessa altura era uma coisa terrível!”, disse. Apesar do episódio, a colaboração durou até aos anos 1970.

Naquele tempo em que a BD era lida sobretudo em revista, além de José Garcês trabalhavam, por exemplo, José Ruy, que tem hoje 86 anos, Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e Vítor Péon, estes já desaparecidos. “Não havia rivalidade, éramos todos amigos”, diz Garcês.

Quem quiser ler algumas destas histórias mais antigas não as encontra nas livrarias, porque não estão reunidas em álbum. José Garcês encolhe os ombros e prefere pensar em tudo o que ainda quer fazer, mesmo à beira dos 88 anos. “Passo os dias a tentar fazer mais coisas!”.

No pequeno atelier, dominado por um estirador, com canetas de aparo, lápis, pastas com desenhos, livros de História, paredes forradas com memórias – há um certificado da escola Voz do Operário, de 1940, para o menino “José Garcez” -, o autor tem guardadas pelo menos três histórias inéditas.

Uma é sobre a História de Silves, outra sobre a vida de Santo António e outra ainda, de finais dos anos 1990, sobre a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, inspirada nos relatos de Pero Vaz de Caminha.

José Garcês diz que 70 anos é uma carreira muito longa. Nela coube ainda um interesse profundo por desenho de temas militares, a criação de construções de montar em papel, do mosteiro da Batalha a uma série inédita sobre castelos portugueses.

E nestas sete décadas, a banda desenhada não foi uma ocupação a tempo inteiro. Durante quarenta anos, José Garcês trabalhou no antigo Serviço Nacional de Meteorologia, onde desenhou as cartas de previsão meteorológica e chefiou o departamento de desenho.

“Eu tenho consciência que fiz muita coisa, que prestei um serviço público ao país”, disse.

Texto por Sílvia Borges da Silva e fotos por Tiago Petinga, da Agência Lusa