Hélder Bataglia guardará poucas recordações da sua infância no Seixal. Nasceu lá, é verdade, mas com apenas dois anos partiu para Angola, com o pai. Voltaria a Lisboa em meados de 1975, fugido à guerra após a independência. Foi em Lisboa que estou engenharia, no ISEL. Foi também na capital portuguesa que contactou primeiro com os negócios — estendeu-os ao Médio Oriente e à Rússia –, mas a fortuna seria amealhada no regresso a Angola. Uma década mais tarde.

O empresário luso-angolano, hoje com 68 anos, é presidente e fundador da Escom. Mas Hélder Bataglia só detém 33% do capital da empresa. As restantes ações são propriedade da Espírito Santo Resources, holding do Grupo Espírito Santo — que nos últimos anos foi um instrumento fundamental para os investimentos da família Espírito Santo em Angola.

A ligação de Bataglia a Ricardo Salgado e à família Espírito Santo é antiga e remontará ao começo da década de 1990, quando o grupo tentava reerguer-se e reaver as empresas que perdeu com as nacionalizações pós-25 de abril. Nessa altura Ricardo Salgado estava próximo de se tornar o presidente do BES. As relações entre Hélder Bataglia e Ricardo Salgado foram-se estreitando ao longo dos anos, tendo sido o próprio Bataglia a convencer Salgado a criar o BES Angola (BESA) — um banco que mais tarde, em meados de 2014, contribuiria e muito para o colapso do BES. Bataglia, próximo que é de José Eduardo dos Santos, foi o intermediário entre Salgado e o regime angolano.

Acabou por ser nomeado presidente do conselho de administração do BESA em 2001.

As polémicas e os casos, do “Monte Branco” à “Operação Marquês”

Os negócios de Hélder Bataglia em Angola são muitos e variados, da aviação às pescas, dos cimentos à mineração e ao imobiliário. Mas em Portugal o nome de Bataglia era praticamente desconhecido. Os casos em que se viu envolvido deram-lhe a fama. Em meados 2004, a sua Escom ficou sob investigação por ter assessorado o German Submarin Consortium na compra dos submarinos pelo Ministério da Defesa português. A Escom recebeu comissões de 30 milhões de euros dos construtores navais alemães.

Seguiu-se outro caso polémico: “Monte Branco”. Hélder Bataglia esteve sob os holofotes dos media por causa da sua ligação à Akoya, uma empresa de gestão de fortunas suíça que está a ser investigada neste caso. O empresário luso-angolano era sócio da Akoya — um outro era Álvaro Sobrinho, ex-presidente executivo do BES Angola. Bataglia deixou de o ser na semana em que três gestores suíços da empresa foram detidos. Negaria vezes sem conta que algum dia tenha sido sócio, mas tão-somente acionista.

Igualmente conhecida é a ligação de Hélder Bataglia à “Operação Marquês”, o inquérito-crime em curso no Departamento Central de Investigação e Ação Penal e que tem como principal arguido o ex-primeiro-ministro José Sócrates. Em abril de 2015, Joaquim Barroca, co-proprietário do Grupo Lena, e também ele arrolado no processo, ficou em prisão domiciliária. Pouco depois, em maio, o procurador Rosário Teixeira ordenou que se fizessem buscas no resort de Vale do Lobo — resort do qual, lembre-se, Hélder Bataglia é acionista, controlando-o de forma indireta a partir de uma sociedade, a Step, constituída na Holanda com Luís Horta e Costa e Pedro Ferreira Neto, dois administradores da Escom.

O objetivo de Rosário Teixeira era saber a razão de uma transferência de 14 milhões de euros para uma conta na Suíça de Joaquim Barroca. Os homens por detrás dessa transferência milionária? Jeroen van Dooren, um milionário holandês, e… Hélder Bataglia.

Que razão o levou a transferir 12 milhões de euros através das contas de Joaquim Barroca? — perguntava a revista Sábado a Hélder Bataglia em março. A resposta? “As matérias empresariais pertencem à minha esfera privada.” Esta sexta-feira, através dos Panama Papers, soube-se um pouco mais sobre o caso. Em declarações ao Expresso deste sábado, Helder Bataglia confirmou que as “transferências foram feitas a partir da ES Enterprises”.