Acto I: o chef e a Sociedade

Leopoldo Garcia Calhau regressou a Lisboa há sete anos, depois de uma longa temporada a trabalhar no Alentejo como arquiteto. “Nessa altura, curiosamente, disse que ia passar a ir mais ao teatro”, recorda. Passado este tempo, realizou-se o velho princípio de Maomé e da montanha: o teatro encarregou-se de ir até ele e nasceu o novíssimo Café Garrett. Mas entre uma coisa e a outra, há toda uma história pelo meio. Que não começa com um era uma vez, antes com uma mudança de rumo profissional.

“Sempre passei muito tempo a ver a minha família a cozinhar em casa e eu próprio gostava de o fazer”, conta Leopoldo, de 39 anos. Quando fez Erasmus, em Milão, era o cozinheiro de serviço. “Era a forma de comer o que gostava”, conta. Ou seja, a paixão pela cozinha já a tinha. O que não tinha — mas passou a ter — era um plano para abrir o seu próprio restaurante.

Sem abandonar completamente a arquitetura — “continuei a exercer, mas como freelancer“, explica — Leopoldo inscreveu-se, primeiro, na Escola de Hotelaria do Estoril, onde estudou Gastronomia e Produção Alimentar. Depois passou para o terreno: estagiou no restaurante do Hotel Real Palácio e passou dois meses muito importantes no Belcanto, de José Avillez, onde, conta, aprendeu “muito sobre o respeito pelo produto e como é que se deve trabalhar.” Certo dia, já com aquilo que queria fazer em mente, foi à pizzaria Dieci, no Campo Pequeno, tirar umas dúvidas com um dos proprietários, que já conhecia. Acabou como cozinheiro, não só da dita pizzaria mas também do vizinho Rubro, que pertence à mesma gerência. “Foi importante, sobretudo para perceber se tinha resistência para aquela vida na cozinha.”

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Leopoldo em ação no Sociedade, o seu restaurante na Parede.
(foto © facebook.com/SociedadeCafeRestaurante)

Esteve quase a instalar o seu primeiro negócio no Príncipe Real — onde hoje mora um outro muito bem-sucedido — mas acabou bem longe dali, na Parede. E foi quase sem querer: “Nunca tinha ido à Parede, mas um amigo meu tinha os filhos na SMUP (Sociedade Musical União Paredense) e disse-me que andavam à procura de quem pegasse no espaço do restaurante.” Leopoldo concorreu, foi escolhido e pensou “bom, vai ser por aqui”. O Sociedade acabaria por abrir em novembro de 2014, projetado, remodelado e pensado — no fundo, cozinhado — por si. Olhando para trás, o arquiteto/chef acha que a localização até acabou por ser uma bênção. “Vai de encontro ao que eu acho que deve acontecer com um restaurante: se for bom, as pessoas vão até lá.”

Acto II: a comida e o teatro

A direção do Dona Maria II, empossada no início de 2015, queria alguém que desenvolvesse um conceito de restauração capaz de potenciar o open space que une, à entrada, a livraria, a biblioteca e a (até então) cafetaria do teatro. Algures durante essa busca, em meados do ano passado, jantaram no Sociedade. E, pelos vistos, gostaram muito. “Acho que batia mesmo certo com o que queriam”, explica Leopoldo, que aceitou quase de imediato a proposta de ficar com o espaço.

A cortina do Café Garrett — que até nem existe, é só uma metáfora teatral — subiu oficialmente no dia 13 de abril, com Leopoldo aos comandos. Isto implicou encerrar (mas só temporariamente, atenção) o Sociedade. “Faltava-me alguém de confiança que o pudesse aguentar na minha ausência”, justifica.

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As portas envidraçadas dão para a estação do Rossio.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

A cozinha aposta no mesmo conceito mediterrânico com produtos e sabores nacionais que tanto sucesso fez na casa da Parede. Alguns dos best sellers fizeram mesmo, inevitavelmente, a viagem da Linha até Lisboa. “Sim, trouxe os melhores pratos do Sociedade para aqui. Mas o inverso também vai acontecer, os que forem mais bem recebidos aqui também irão para lá”, revela. Assim, entre as sugestões que os clientes antigos de Leopoldo poderão reconhecer está uma entrada de pato e vinagre balsâmico (12€), um bacalhau com aipo e espargos verdes (14,20€), o polvo com batata-doce e coentros (18€) que ilustra o topo deste artigo ou o pudim de noz da Joana (6€), uma receita da mãe do chef. Quem quiser ficar nas suas mãos, deve optar por um dos dois menus de degustação disponíveis, de três (24€) ou de cinco (36€) pratos.

Ao almoço, é possível fazer uma refeição completa — couvert, entrada, prato, sobremesa e bebida — por 15€, graças ao menu “‘Bora Lá Ao Teatro”. E o Café Garrett não fecha durante a tarde. Mas tem um menu específico entre as 16h e as 19h, à base de petiscos, alguns deles bem criativos, como é o caso da bifana (8,50€), um pão de brioche com bochecha de porco panada.

Ato III: o vinho e as ideias

A carta de vinhos do Café Garrett destaca-se por uma organização invulgar. Há sete preços fixos estabelecidos, dos 13€ aos 97,50€ e em cada um deles cabe uma série de vinhos disponíveis, muitos deles de pequenos produtores, com grande ênfase nas regiões de Lisboa e da Bairrada. O espírito da coisa resume-se na seguinte expressão: diz-me quanto queres gastar, dir-te-ei o que beber. Já quem quiser levar o seu próprio vinho também pode, paga apenas a taxa de rolha (10€).

Integrar o Café Garrett no teatro que o acolhe é uma ideia bem presente na cabeça de Leopoldo. “Podemos fazer muita coisa. Vamos ter primeiro um menu a 18€ de jantar+teatro. Depois, podemos ter menus relacionados com as peças, por exemplo.” Mas antes que essa e outras ideias — como harmonizações, jantares com chefs convidados ou à volta de um só ingrediente — aconteçam é preciso formar e afinar a equipa. Sobretudo, fazer com que assimilem as ideias do chef, o que passa, em grande medida, por ensiná-la a receber. É que apesar do ar austero do teatro, Leopoldo quer muito que as pessoas se sintam em casa. Ou, pelo menos, no café.

Nome: Café Garrett
Morada: Teatro D. Maria II, Praça Dom Pedro V (Rossio), Lisboa
Telefone: 21 193 3532
Horário: De terça a domingo, das 12h à 00h (a cozinha fecha às 23h)
Preço Médio: 15€ ao almoço, 30€ ao jantar
Reservas: Aceitam
Site: facebook.com/CAFÉ-GARRETT