Médico de profissão, ao secretário da Saúde dos Açores não falta “clientela” nos encontros que o Governo Regional promove com a população no âmbito das visitas estatutárias que anualmente está obrigado a fazer.

“Pode prescrever [medicamentos]?”, é uma pergunta que, recorrentemente, nesses encontros fazem a Luís Cabral, a quem levam, também, exames complementares de diagnóstico para que o governante faça a sua interpretação clínica.

A propósito da visita estatutária que o executivo açoriano termina esta sexta-feira à ilha do Pico, o secretário regional afirmou que não dá “consultas formais”, mas reconheceu que coloca em prática, várias vezes, a sua formação, até na área da psicologia, fazendo, no fundo “uma consulta médica, mais do que uma consulta de governante”.

Segundo Luís Cabral, nalgumas situações com que já se deparou nas visitas, “mais do que uma solução concreta para um problema”, as pessoas precisam de “algum conforto psicológico”.

Os encontros com a população também “servem para quebrar um pouco a solidão”, acrescentou o responsável pelo Turismo e Transportes dos Açores, Vítor Fraga, relatando a este propósito que, desde que começou esta iniciativa, em 2013, todos os anos há um cidadão das Flores que lhe relata a sua história de vida, sobretudo do tempo em que esteve emigrado nos Estados Unidos da América.

Desde sugestões para ajustar horários, frequências e dias das ligações marítimas e aéreas a queixas por cancelamentos destas devido ao mau tempo, de pedidos de pavimentação de acessos a casas ou a sua reparação, o governante destacou o caso de uma idosa que “pediu meia dúzia de telhas e a sua colocação”.

“Embora não seja uma medida política profunda, a sua resolução tem um impacto enorme na melhoria da vida das pessoas”, sustentou Vítor Fraga.

O secretário regional apontou ainda o caso de um homem que “pediu para confirmar uma viagem em que estava em lista de espera”.

“Telefonei para a Sata [transportadora aérea açoriana] e transmiti-lhe que ainda faltavam dois meses para a viagem, pelo que o mais provável era ser confirmada”, disse à Lusa.

Andreia Cardoso, que tutela a Solidariedade Social, explicou ter sido confrontada por um pedido inesperado: “Um idoso das Flores pretendia que o programa ‘Meus Açores, meus amores’ [de turismo e mobilidade sénior] contemplasse em 2017 a deslocação à ilha Terceira, porque queria ver a campa do filho”.

Já o secretário regional do Mar, Ciência e Tecnologia, Fausto Brito e Abreu, adiantou que “há uma percentagem muito grande que são pedidos relacionados com procedimentos administrativos” e, no seu caso, com as pescas, mas recorda a solicitação de uma mulher que pretendia a proteção de “uma zona de poças onde tinha aprendido a nadar e achava importante se pudesse ser feito um pequeno acesso e uma escada para poder tomar banho, agora que estava já mais velhinha e não tinha tanta agilidade física”.

O secretário regional da Educação e Cultura, Avelino Meneses, afirmou que, “nas audiências concedidas à população no âmbito das visitas estatutárias, o povo pede justiça, por vezes quase que uma justiça de exceção, de todo impraticável”.

“A espaços, assalta-me uma incontida alegria, uma sensação de dever cumprido, quando é possível a satisfação de expectativas populares”, declarou.

Contudo, Avelino Meneses reconheceu que mais regularmente fica um “amargo de boca” quando “a maioria dos pedidos não tem possibilidade de solução”, como a construção de um parque desportivo, “inviável sem o recurso a fundos comunitários”.

Na memória de Avelino Meneses ficou, ainda, um pedido feito há dois anos, precisamente no Pico.

“Considerando a falta de nascimentos como a base da crise económica e social do Ocidente, recebi um pedido de um cidadão idoso para que trabalhasse na invenção de um modelo de colocação de professores que mantivesse a união das famílias de jovens professores para incentivo da natalidade”, disse, reconhecendo que, “apesar de muito matutar”, ainda não descobriu “a solução ideal”.