“A Febre do Mississippi”

Há toda uma cinematografia americana composta por filmes de jogo, jogadores profissionais e batota, e “A Febre do Mississippi”, da dupla “indie” Anna Boden e Ryan Fleck (“Half Nelson”) é um belo acrescento à mesma. Curtis (Ryan Reynolds) e Gerry (Ben Mendelsohn) apostam em tudo, desde dados onde haja uma mesa a cães onde quer que haja corridas, passando pelo primeiro tipo que sair de uma casa de banho pública usar ou não óculos. Curtis é jovial, charmoso e com muita lábia, diz que não joga para ganhar e gosta de pensar que sabe quando parar e não deitar tudo a perder, embora depois faça uma aposta disparatada que lhe pode valer um murro na cara. Gerry é caladão, mal ajambrado, deve dinheiro a muita gente e está confiante que o seu grande dia de sorte virá, mas entretanto vai perdendo, e perdendo, e perdendo, até chegar ao ponto de tentar roubar dinheiro do pé-de-meia da ex-mulher, que foi visitar com o pretexto de ver a filha. Curtis e Gerry rumam ao Sul, ao sabor dos jogos de póquer, dos casinos e dos galgos, ao som de “blues” e “country & western”, acabando inevitavelmente em Las Vegas, e Boden e Fleck seguem-nos sem pressa e descontraidamente, deixando que as suas personalidades se revelem à medida que vão vagabundeando, jogando, tendo alguns incidentes e desesperando que a fortuna alguma vez lhes sorria. “A Febre do Mississippi” é parte “buddy movie” peripatético, parte “gambling movie” em baixa voltagem dramática, tocado por uma poesia tristonha, entre canções dolentes, “riffs” de guitarra, quartos de hotel sempre iguais, “whisky” barato, conversa fiada, noites em branco e más cartas ao póquer. Reynolds e Mendelsohn, quais dois estarolas da jogatana inveterada, são pouco menos que magníficos.

“E Agora Invadimos o Quê?”

Desde 2009, quando realizou “Capitalismo: Uma História de Amor”, que Michael Moore não dava sinais de vida, como se o seu cinema incendiariamente militante só prosperasse quando está um presidente Republicano na Casa Branca. O novo documentário de Moore, “E Agora Invadimos o Quê?”, foi o seu maior fracasso comercial nos EUA, e percebe-se bem porquê. Primeiro, não passa de uma repetição da ideia por trás de “Sicko” (2007), onde o realizador ia buscar a outros países ideias modelares para aplicar ao sistema de saúde norte-americano e melhorá-lo. Aqui, Moore expande esse conceito, “invadindo” pacificamente uma série de nações estrangeiras (incluindo Portugal) para ir lá buscar aquilo que Moore considera serem boas práticas e políticas de todo o género, de sociais a laborais, escolares, carcerárias ou sobre a droga, e importá-las para aplicação nos EUA. E depois, a coisa é obvia e primariamente demagógica, forçada e fácil, uma espécie de pim-pam-pum de soluções político-sociais de eficácia instantânea, e de “pensamento mágico” progressista. O estilo “guerrilheiro”, habilmente tendencioso e formalmente espertalhufo de documentarismo praticado por Moore também já cansou e deu o que tinha a dar, assim como a sua “persona” cinematográfica de representante do cidadão comum, que à indignação “justa” acrescenta as receitas certas ditadas pelo “bom senso” para “consertar” o seu país. A melhor coisa que pode mesmo acontecer a Michael Moore é Donald Trump ganhar as eleições para presidente dos EUA.

“Sing Street”

Dublin, meados dos anos 80, em plena crise económica. Afligida por problemas de dinheiro, a até há pouco desafogada família de Conor muda-o de uma escola privada para um colégio católico onde o jovem se sente desambientado e infeliz, e é perseguido quer pelo padre director, quer pelo “skinhead” residente. Para impressionar a miúda altiva do lar de raparigas em frente ao colégio, que não fala a rapazes e quer ir para Londres ser modelo, Conor, que escreve canções, forma uma banda com uma série de colegas também “outsiders” como ele, e convida-a para protagonizar os seus telediscos. “Sing Street” é realizado por John Carney, um músico que também faz cinema, e que já rodou dois filmes muito bons, ambos sobre gente da música e sobre a maneira como a música é fundamental nas suas vidas, “No Mesmo Tom” (2007), que ganhou o Óscar de Melhor Canção, e “Num Outro Tom” (2013). E vê-se com a satisfação com se ouve uma boa canção pop “feliz-triste”. “Sing Street” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.