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As necessidade de capital e a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos são o principal pretexto para avançar com uma comissão parlamentar de inquérito ao banco do Estado. Mas o PSD, partido que avança com a iniciativa de forma potestativa, quer ir longe e a fundo na investigação à gestão da Caixa, designadamente na área da concessão de créditos. O objetivo é recuar ao ano 2000, quando estava no poder o Governo socialista de António Guterres.

O Observador foi conferir quem foram os principais responsáveis — políticos e gestores –, pela condução da Caixa Geral de Depósitos nesse período, pelo menos do ponto de vista formal. Estas são as caras que associamos às decisões e à estratégia que foi desenvolvida pela CGD nos últimos 16 anos

Houve mais ministros das Finanças do que presidentes da Caixa neste período, nove contra cinco líderes do banco público (ou sete, se considerarmos os cargos de presidente executivo e não executivo).

Segundo governo de António Guterres

Em 2000, o ministro das Finanças era Joaquim Pina Moura, do segundo governo minoritário de António Guterres. Em 2001, foi substituído no cargo por Guilherme d’ Oliveira Martins. O futuro ex-presidente do Tribunal de Contas ficou à frente da pasta das Finanças até 2002 quando o então o primeiro-ministro se demitiu, precipitando eleições,

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António de Sousa, que foi secretário de Estado do último Governo de Cavaco Silva, ocupou a presidência da Caixa Geral de Depósitos entre 2000 e 2004.

Governo do PSD/CDS

José Manuel Durão Barroso chegou a primeiro-ministro em 2002 e nomeou Manuela Ferreira Leite para a pasta das Finanças. A ministra ficou no cargo até ao verão de 2004, quando o então primeiro-ministro se demitiu para ocupar o cargo da presidente da Comissão Europeia. António Bagão Félix seria o ministro das Finanças do executivo seguinte, chefiado por Pedro Santana Lopes até às eleições antecipadas de fevereiro de 2005.

Na Caixa, nessa época, viveram-se momentos de tensão ao mais alto nível quando a então ministra das Finanças convidou Luís Mira Amaral para a administração do banco do Estado. O antigo ministro da Indústria de Cavaco Silva estava então no BPI.

Mira Amaral e António de Sousa inauguraram na Caixa um novo modelo de governo em abril de 2004. A presidência bicéfala — Mira Amaral liderava a comissão executiva e António de Sousa presidia ao conselho de administração — veio a dar maus resultados, uma experiência que viria a ser repetida no BCP de Jardim e Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto.

Ainda em 2004, mas já com Bagão Félix nas Finanças, a dupla liderança em conflito da Caixa Geral de Depósitos foi substituída. O novo presidente passou a ser Vítor Martins, que foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus nos governos do PSD de Cavaco Silva. Este conselho seria substituído pelo Governo seguinte que pagou indemnizações aos gestores.

Primeiro governo de José Sócrates

José Sócrates chega ao poder ao vencer as eleições antecipadas de 2005, convocadas depois da demissão do governo de Santana Lopes.

O socialista indica um académico e independente para o sensível cargo de ministro das Finanças. Luís Campos e Cunha fica pouco tempo no cargo e sai em divergência com o primeiro-ministro 130 dias depois de tomar posse. A mudança da administração da Caixa terá sido um tema central no desacordo com José Sócrates.

O independente é substituído por Fernando Teixeira dos Santos que tinha sido secretário de Estado do primeiro-ministro das Finanças de António Guterres, Sousa Franco.

E uma das primeiras medidas de Teixeira dos Santos foi a precisamente a de substituir a equipa de gestão da Caixa nomeada pelo anterior governo. Carlos Santos Ferreira assume a presidência numa administração onde entra Armando Vara. Santos Ferreira tinha experiência na área dos seguros, trabalhou no Grupo Champalimaud, e era visto como próximo dos socialistas. Vara tinha sido secretário de Estado e ministro dos governos de António Guterres e percorrera toda a via sacra partidária do PS desde a base.

Carlos Costa, atual governador do Banco de Portugal, também faria parte desta equipa até 2006, mas tinha sido nomeado em 2004 pelo executivo PSD/CDS.

No final de 2007, numa transferência muito polémica, Carlos Santos Ferreira muda-se da Caixa para o BCP e leva Armando Vara e outros administradores como Vítor Fernandes. A administração do banco do Estado é recomposta com a subida à presidência de Fernando Faria de Oliveira. O gestor, que foi ministro do Comércio do último governo de Cavaco Silva, era até então o responsável pela liderança do banco da CGD em Espanha, Francisco Bandeira, que já era administrador, sobe ao cargo de vice-presidente.

Segundo governo de José Sócrates

Fernando Teixeira dos Santos mantém-se como ministro das Finanças depois das eleições de 2009, tal como o secretário de Estado do Tesouro, Carlos Costa Pina. No banco do Estado também não há mudanças relevantes na equipa de gestão.

Governo de coligação PSD-CDS

Pedro Passos Coelho chega a primeiro-ministro em junho de 2011, com um resgate internacional e a tutela da troika. Para ministro das Finanças escolhe Vítor Gaspar, um técnico com currículo em instituições internacionais. A secretaria de Estado do Tesouro é ocupada por Maria Luís Albuquerque.

Faria de Oliveira mantém-se como presidente da Caixa Geral de Depósitos, mas é indicado José de Matos que sai do Banco de Portugal, onde era vice-governador, para liderar a comissão executiva do banco. António Nogueira Leite, entra como vice-presidente, um cargo que também será desempenhado por Norberto Rosa que já estava na administração do banco do Estado. Nogueira Leite, que chegou a ser secretário de Estado de um governo PS, mas foi apoiante de Pedro Passos Coelho, demite-se um ano e meio depois de ter iniciado funções.

Em julho de 2013, Vítor Gaspar sai do Governo e é substituído por Maria Luís Albuquerque nas Finanças. O Governo treme, mas não cai. Ainda esse mês, foi nomeada a administração da CGD que terminou o mandato no final de 2015. José de Matos manteve-se como presidente da comissão executiva e Álvaro do Nascimento, um académico, foi indicado presidente do conselho de administração do banco do Estado, substituindo Faria de Oliveira que se mantém na liderança da Associação Portuguesa de Bancos.

Governo de António Costa

O capítulo que segue ainda está por escrever. Já foi assumido quem será o novo presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues, um gestor que veio do BPI, mas a nova gestão ainda não tomou posse. A recapitalização da Caixa Geral de Depósitos ainda está a ser negociada com a Comissão Europeia. Mário Centeno é o ministro das Finanças, mas este é um dossiê que está ser conduzido com a especial atenção do primeiro-ministro, António Costa.