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O que é que uma arquiteta, uma engenheira química e uma engenheira civil fazem juntas? Se pensou “uma fábrica”, está frio. Mas é mesmo a temperatura que se quer neste caso. Ana Gonçalves, Francisca Lobo e Ana Ferreira largaram tudo para dar ao Porto gelados verdadeiros, sem pastas para intensificar sabores nem químicos para acentuar cores ou formas. Depois de uma temporada em Itália a aprender com quem melhor sabe, abriram a 1927 Gelataria Portuense, no dia 1 de agosto.

Ana Ferreira fala com o entusiasmo de quem tem a certeza de ter dado o passo certo. Aos 39 anos, depois de um passado que envolveu a troca da arquitetura pela engenharia civil, e de ter chegado aonde queria no mundo do trabalho, olhou para o futuro e não ficou satisfeita. Queria mais, mesmo sem saber o quê. “O Rui [responsável de marketing] diz que eu tive uma epifania“, recorda Ana, sobre o momento em que começou a dizer à família e aos amigos que o que queria fazer da vida era gelados.

“Fiz Erasmus em Veneza e comecei a pensar que gelados como aqueles não se encontravam aqui”, recorda. Entretanto, no último ano e meio, abriram algumas geladarias no Porto, umas melhores do que outras. Mas nem todas se terão dado ao trabalho de ir estudar tanto a química do gelado e como se chega à essência de um dos doces mais famosos de Itália. Na sua investigação, Ana chegou ao nome de Otello Cattabriga, que em 1927 criou a máquina Effe. Quando Santini abriu a sua primeira geladaria em Cascais, em 1949, tinha uma destas máquinas, e a marca ainda trabalha com uma. “É a mais artesanal que existe, pela sua delicadeza consegue preservar os sabores naturais”, afiança.

gelataria portuense

À porta existe uma pequena esplanada. À entrada há mesas e, ao fundo, é possível sentar ao balcão. © Sara Otto Coelho / Observador

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Antes de abrir as portas da Gelataria Portuense, as duas Anas decidiram ir estudar para a Carpigiani Gelato University, uma escola em Bolonha que, durante quatro semanas, ensina tudo o que é possível sobre o gelado italiano. Mas já na cidade, trocaram a academia pela prática e acabaram por usar essas quatro semanas para aprender com o mestre bolonhês Giacomo Schiavon na Sorbetteria Castiglione. O gelado de Bolonha caracteriza-se por ser menos frio, para que o palato possa sentir melhor o sabor. É também menos doce e tem menos gordura, o que são boas notícias para os gulosos.

“Vi que quem tinha uma máquina de Otello Cattabriga deixava-a à vista no balcão, porque se associa a um produto de excelência”, explica Ana Ferreira. Por isso, também a Gelataria Portuense tem a sua em cima do balcão, onde os clientes podem vê-la a trabalhar de manhã, quando os gelados estão a ser feitos. “Na segunda-feira entraram aqui uns italianos porque viram a máquina”, conta. Ao fundo fica o laboratório, onde se experimentam novas combinações e se cumprem os restantes passos que um bom gelado exige, para além da mistura da máquina.

Os italianos e demais clientes que ali entram têm sempre 22 sabores à escolha. Há 16 clássicos, entre sorvetes e gelados, com sabores como chocolate negro, doce de leite, abacaxi e basílico, cheesecake e morango. A regra é simples: “só trabalhamos com ingredientes verdadeiros, não há cá químicos ou pastas para dar sabor.” E a fruta é a melhor que se encontrar, de preferência portuguesa, e há um fornecedor para assegurar isso mesmo. Os mirtilos, por exemplo, são do Douro.

Depois há seis sabores de coleção. Atualmente estão disponíveis Porto Tawny, “muito envelhecido, para ter sabor”, misturado com puré de pera e nozes caramelizadas; Matcha, um gelado de chá verde com chocolate branco e puré de framboesa; Cereja com nibs de chocolate (pedaços como os da stracciatella) e sementes de sésamo caramelizadas; Amêndoa com citrinos, em homenagem ao Algarve; Pingo de mel, feito com figo e requeijão de ovelha (o mais parecido com a italiana ricotta) coberto com mel; e, finalmente, o Earl Grey, um dos que tem tido mais saída depois de os clientes provarem. Ao chá adiciona-se caramelo salgado e nibs de semente de cacau.

gelataria portuense ana ferreira

Ana Ferreira tem sempre os sabores fechados. “Quando estão à vista em contacto com o ar e mesmo assim têm bom aspeto, é porque têm químicos”, explica. Ao lado está a máquina Effe. © Divulgação

Um sabor clássico custa 2,20€ e um de coleção 2,60€. A partir daí há vários preços dependendo das combinações que se quiserem fazer. Quem gosta de provar vários deve pedir o menu de degustação (9€), com seis sabores e limão para ir limpando o gosto entre provas. Também há embalagens de um litro (18€) e meio litro (9€) para quem quiser levar para casa. Se comprados entre as 18h e as 21h, têm 25% de desconto. Todos os sorvetes são adequados para vegans e nenhum dos gelados da loja tem glúten.

De dois em dois meses os sabores vão mudando, consoante as combinações mais saborosas que saírem do laboratório, ao fundo da loja. O laboratório e a máquina estão à vista, mas os gelados da loja estão tapados, o que nem ajuda às vendas. “Só assim se preserva o sabor sem químicos”, justifica Ana Ferreira. “Quando os gelados estão todos à vista e mesmo assim se mantêm bonitos e em forma, não é bom sinal.”

Nome: 1927 Gelataria Portuense
Morada: Rua do Bonjardim, 136, Porto (entre a Estação de São Bento e o Teatro Rivoli)
Telefone: 22 242 3223
Horário: Domingo a quarta-feira das 11h às 21h, de quinta-feira a sábado das 11h00 às 00h
Site: www.facebook.com/gelatariaportuense