E, de repente, o Queer Lisboa já tem 20 anos. O mais antigo festival de cinema de Lisboa, único em Portugal com o propósito de exibir filmes de temática gay, lésbica, bissexual, transgénero (LGBT), assinala a data com uma retrospetiva dedicada ao realizador britânico Derek Jarman (1942-1994), nome consagrado e influente do cinema queer.

O festival decorre no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, de 16 a 24 de setembro. A película de abertura é Absolutely Fabulous: The Movie, de Mandie Fletcher, baseada na série da BBC Absolutamente Fabulosas. E o encerramento será feito com Looking: The Movie, de Andrew Haigh, conclusão no grande ecrã da série de culto Looking, da HBO.

A programação completa foi apresentada em conferência de imprensa esta terça-feira ao fim da tarde, em Lisboa, e segue-se à divulgação, a 12 de julho, de alguns destaques.

Serão exibidos 114 filmes, de 27 países. Por comparação: foram 76 filmes em 2015 e 135 em 2014.

O ciclo Derek Jarman é descrito por João Ferreira, diretor artístico do festival, como “uma das mais ambiciosas retrospetivas” destas duas décadas. Recupera títulos projetados nas primeiras edições do Queer – então designado Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa – e apresenta algumas obras descobertas e restauradas há pouco tempo.

Trata-se de uma retrospetiva ampla, mas não integral, com 23 longas e curtas assinadas pelo realizador inglês, que morreu com sida em 1994.

Não faltará Blue (1993), Edward II (1991) ou The Last of England (1987). A curta Orange Juice, sobre a banda escocesa com o mesmo nome, terá mesmo estreia mundial no Queer, segundo João Ferreira. Electric Fairy, de 1971, que se julgava desaparecida, também integra o ciclo.

[trailer de Edward II]

Nos restantes filmes, as sinopses distribuídas pela organização permitem concluir que muitas histórias estão centradas no quotidiano das pessoas LGBT, sobretudo adolescentes e jovens adultos, o que parece demonstrar uma tendência atual do cinema queer de ficção: quase ausência de temas e pontos de vista políticos muito vincados.

Taekwondo (2016), dos argentinos Marco Berger e Martín Farina, é um desses casos, narrativa sobre a descoberta do desejo homoerótico por um homem de férias com os amigos. E o mesmo se diga de Théo et Hugo Dans le Même Bateau (2016), de Olivier Ducastel e Jacques Martineau, em torno de dois desconhecidos que se apaixonam depois de se conhecerem num clube de sexo.

[trailer de Taekwondo]

Nos documentários, as descrições fornecidas apontam em sentido contrário: obras mais políticas, se não militantes, como Tchindas (2015), de Pablo García Pérez de Lara e Marc Serena, sobre a transexual cabo-verdiana Tchinda. E ainda Yes, We Fuck (2015), de Antonio Centeno e Raúl de la Morena, seis histórias sobre sexualidade de pessoas deficientes.

[trailer de Tchindas]

Para além do cinema, o festival terá uma programação cultural paralela. Logo na noite de abertura, no São Jorge, o espetáculo 50. Orlando, ouve, de André Murraças, inspirado pelo massacre na discoteca gay Pulse, nos EUA, ocorrido em junho último.

Ainda no São Jorge, a atriz Susanne Sachsse, conhecida por ter entrado em filmes de Bruce LaBruce, vai dar uma palestra intitulada “De Brecht a Bruce LaBruce e de volta. Pronta para a minha próxima auto-exposição”.

Merece igualmente destaque a mostra A Natureza da Margem, com obras sobre sexualidade e natureza, com curadoria de José Aparício Gonçalves. De 17 de setembro a 1 de outubro na Fábrica dos Irmãos Marques, ao Bairro Alto.

Das várias secções competitivas do Queer, os prémios principais, como vem sendo habitual, são os seguintes:

Melhor Longa-Metragem (mil euros), tendo como jurados o tradutor e ativista Andrea Inzerillo, o ensaísta e crítico de cinema Rodrigo Gerace e a atriz Susanne Sachsse;

Melhor Documentário (três mil euros pela compra de direitos de transmissão na RTP2), com júri formado pela responsável da Apordoc – Associação pelo Documentário Cíntia Gil, o produtor de televisão Rui Filipe Oliveira e a escritora Sophie Monks Kaufman;

Melhor Curta-Metragem (1500 euros pela compra de direitos de transmissão na RTP2), avaliada pela realizadora Aya Koretzky, o diretor do festival de cinema LGBT de Nice, Benoît Arnulf, e o fundador do festival de curtas Córtex, José Chaíça.

O Queer Lisboa é organizado pela associação cultural Janela Indiscreta e tem uma média de cerca de oito mil espectadores por edição, indica o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).

Depois de Lisboa, o festival ruma a norte para a segunda edição do Queer Porto, que terá lugar no Teatro Municipal Rivoli, entre 5 e 9 de outubro. Ambos os eventos têm um orçamento total de 140 mil euros, informa a organização.