Política

Jorge Coelho: “Eu peço informação a quem quiser”

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O comentador apresentou dados sobre investimento estrangeiro na Quadratura do Círculo que lhe foram enviados pelo Ministério da Economia. Coelho diz que foi ele a pedir, para acabar com uma "mentira".

Jorge Coelho favoreceu Governo com os números da economia, mas criticou Costa quanto ao diploma do fim do segredo fiscal

ANTONIO COTRIM/LUSA

Autor
  • Vítor Matos

Na tarde de quarta-feira, no Parlamento, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, apresentou dados positivos sobre o investimento estrangeiro em Portugal. Na noite de quinta-feira, no programa de comentário político Quadratura do Círculo, o socialista Jorge Coelho levou os mesmos números para reforçar os argumentos do Governo na SIC Notícias. A câmara fez um close up. Percebeu-se que era um email enviado pela chefe de gabinete de Caldeira Cabral. O caso passou a ser comentado nas redes sociais, mas Jorge Coelho diz ao Observador que a “responsabilidade” é toda sua. “Sou um cidadão livre, qual é o problema de pedir informações a quem quero pedir? Eu peço informações a quem quiser.”

No programa, Jorge Coelho começou por argumentar que, com o défice de 2,5% prestes a ser cumprido, a oposição tinha de mostrar que o país era uma catástrofe “na área do investimento e num conjunto de setores”. Para contrariar a ideia de que “não há um único indicador positivo nas contas portuguesas”, o antigo ministro socialista foi — nas suas palavras — “procurar saber que raio se estava a passar” e “estudar mesmo a fundo investimento estrangeiro”. Chegou então às mesmas conclusões de Caldeira Cabral, que lhe tinha enviado os números. E assim reforçou a narrativa que o Governo tem estado a construir desde o primeiro debate quinzenal dos deputados com António Costa depois das férias.

“As contas nacionais trimestrais, por setor institucional, divulgadas a 23 de setembro pelo INE”, nomeadamente “o investimento de empresas não financeiras, cresceu 7,7% no primeiro trimestre de 2016 em relação ao período homólogo”, disse Jorge Coelho no programa. E citou “um estudo da Ernst & Young” que revelava a propensão de 25% das empresa para investir nos próximos anos em Portugal. “O ambiente nas empresas e positivo para investir em Portugal”, defendeu. Mostrou gráficos. Virou-os para a câmara. Mas deixou que se visse o cabeçalho do email com os elementos enviados pela chefe de gabinete do ministro da Economia (onde é tratado por engenheiro, quando Jorge Coelho é licenciado em Gestão).

O investimento direto estrangeiro registou no primeiro semestre de 2016 um crescimento positivo em todos os setores menos no das comunicações. É o único, por causa da compra da PT o ano passado. Se retiramos essa operação, o investimento estrangeiro está a subir e até vou dizer quanto é que subiu: 4,7 mil milhões de euros”, afirmou Jorge Coelho na Quadratura.

Os argumentos são decalcados dos do Governo. “Então mas ia-me informar onde, à sede do PSD?”, pergunta Jorge Coelho ao Observador.”Pus o dedo na ferida, mostrei a verdade porque anda tudo a mentir”, afirma. Reagindo à polémica suscitada nas redes sociais, alega: “Em vez de discutirem o que digo, discutem onde vou buscar a informação”. E acrescenta: “Agora que estão todos nervosos. Para a semana levam mais.”

Contactado pelo Observador, o gabinete do ministro não quis fazer qualquer comentário.

Jorge Coelho, no entanto, não se limitou a favorecer o Governo com a utilização de números positivos para a economia. O antigo dirigente socialista também criticou, em termos muito fortes, o decreto-lei — que estava à espera do veto do Presidente da República — sobre o fim do sigilo fiscal para contas acima dos 50 mil euros:

Acho inaceitável e não me revejo numa sociedade em que a privacidade das pessoas seja posta em causa com a maior das facilidades.”

O companheiro de comentário de Pacheco Pereira e Lobo Xavier reconheceu que “a corrupção e evasão fiscal” envolviam “montantes gigantescos” que se fossem cobrados aliviava as pessoas que estavam “a passar as maiores dificuldades”. Nesta matéria, Coelho não pediu ao Governo para lhe mandar um guião, antes pelo contrário: “Temos de ter instituições fortes, ter capacidade para lutar contra a evasão fiscal. Se todos pagarem, o país vive melhor, com cada um a fazer o que a lei determina, sem se pôr em causa a privacidade de todos.”

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