Dos três meses de missão em Lesbos, o agente António Rocha traz a satisfação de ter ajudado a salvar muitos refugiados e, apesar de admitir que nunca se está preparado para lidar com a morte, não hesitaria em voltar.

António Rocha é agente de 1ª. Classe da Polícia Marítima e esteve, pela primeira vez, na ilha grega de Lesbos entre janeiro e março deste ano, no âmbito do controlo de fronteiras da União Europeia e combate ao crime transfronteiriço, integrado numa missão da agência Frontex Poseidon Sea 2016.

Em conversa com a agência Lusa, o agente admite que o que de mais satisfatório retira desses três meses de missão é o facto de ter tido a oportunidade de ajudar a salvar muita gente.

“Poder chegar, depois de cada patrulha, e saber que se nós não tivéssemos lá, se calhar elas estavam mortas”, contou, referindo-se às dezenas de pessoas de cada embarcação intercetada, vindas da Turquia e que tentavam alcançar a Europa.

“Isso é muito gratificante e faz pensar continuar o dia-a-dia e voltar noutro dia e noutra missão porque sabemos que a nossa presença é fundamental”, acrescentou.

O drama dos refugiados é o tema do documentário “Fogo no Mar”, do realizador Gianfranco Rosi, apresentado na quinta-feira à noite em ante-estreia no cinema Nimas, em Lisboa, numa sessão com a participação do agente António Rocha para contar a sua experiência em Lesbos e responder a perguntas da assistência.

“Fogo no Mar” tenta mostrar a realidade da ilha de Lampedusa, em Itália, onde diariamente chegam centenas de refugiados, resgatados do Mediterrâneo pelas autoridades italianas, enquanto os habitantes prosseguem normalmente com o seu dia-a-dia, sem que estas duas existências se cruzem.

De acordo com António Rocha, a realidade que conheceu em Lesbos é diferente do que é retratado pelo filme em relação à ilha de Lampedusa, já que em Lesbos os migrantes circulavam livremente pela ilha depois de serem identificados.

Outra diferença diz respeito ao tipo de embarcações resgatadas e à quantidade de pessoas a bordo, já que no documentário são intercetadas embarcações com centenas de pessoas, enquanto na missão em Lesbos o agente da Polícia Marítima diz que o mais frequente era encontrarem botes com cerca de 60 pessoas.

Mas as diferenças terminam aí, já que, não só o processo de resgate é idêntico, como todos passam pela experiência de nunca saberem o que vão encontrar em mais uma embarcação intercetada: “Pode haver pessoas mortas, como aconteceu, vemos crianças, pessoas inválidas, em cadeiras de rodas, velhotes, famílias inteiras”.

Dos três meses de missão, António Rocha recorda um episódio em particular, em que resgatou dois bebés, com três e seis semanas, nascidos já durante o período de fuga dos pais.

“Deram-me um bebé para as mãos, embrulhado num cobertor, muito leve. Não percebi o que era, depois é que vi que era um bebé. Fez-me lembrar as minhas filhas e pensar nelas naquelas situações. Os sentimentos vêm ao de cima e às vezes há lágrimas que podem aparecer”, contou.

Apesar da experiência profissional, o agente da Polícia Marítima é perentório em afirmar que nunca se lida bem com a morte, mesmo até porque o primeiro objetivo é manter vivas todas as pessoas resgatadas no mar até chegarem a terra e poderem ter assistência médica.

Para António Rocha, a maior satisfação está em ter podido salvar gente e, por isso, diz, sem hesitações, que volta numa nova missão se for novamente convidado para isso.

Adianta ainda que a Polícia Marítima vai voltar a integrar uma missão da agência Frontex em maio do próximo ano, provavelmente na ilha de Lesbos.

A colaboração da Polícia Marítima no âmbito da Frontex decorreu entre 1 de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2016, tendo realizado 94 missões de busca e salvamento que tiveram como resultado o resgate de 3.674 pessoas, entre as quais 894 bebés e crianças, e a detenção de cinco presumíveis traficantes.

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