No último dia de setembro, Volodymyr Lavriv comprou um bilhete de avião para Londres. Na madrugada do dia seguinte, saiu apressadamente com roupa suficiente para apenas uma semana fora de casa. Pouco depois, eram nove da manhã, estava de volta à casa que partilhava com a senhoria, no Saldanha, em Lisboa. O avião já tinha partido quando chegou ao aeroporto e agora tinha de se preparar para apanhar um novo voo, mais ao final da tarde. O motivo estava guardado no coração de Volodymyr e só agora se conhece: havia uma rapariga à espera do estudante de Medicina na capital inglesa. Por causa dos atrasos, desencontraram-se.

“É como se tivesse desistido de tudo”

A quase 1.500 quilómetros de distância, em Paris, Galyna Lavriv sentia que algo não estava bem com o filho. Cedeu ao pressentimento e telefonou-lhe mais cedo do que era costume. Ele atendeu e a voz mostrava inquietação: “Não tenho muito tempo para falar, mãe. Perdi o avião esta manhã e agora tenho de me preparar para apanhar outro”, explicou.

Mas não disse que força o movia para Londres. “Tenho mesmo de ir, tenho de tratar de coisas e fazer coisas que preciso de fazer”, limitou-se a explicar. Não levava nada para ficar por muito tempo. Ele que se preparava para o exame de especialidade que lhe traçaria o futuro numa especialidade de Medicina há meses, deixou os livros e o computador em casa. Nem casacos para enfrentar o frio londrino levava na mala. Não era preciso. Estava nos seus planos voltar a Lisboa apenas três dias depois, a 4 de outubro.

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Segunda tentativa. Às 20h30 portuguesas daquela sexta-feira, 30, Volodymyr – um rapaz que “não resiste a viajar”, amante de atletismo e de cultura – deixa finalmente para trás a vista do Tejo. No seu horizonte estava uma rapariga natural da Estónia que passeava por aqueles dias em Londres e por quem o jovem estudante estava apaixonado. Toda a gente sabia que Volodymyr não era namoradeiro, mas nem por isso deixava de ser mulherengo. Gabava-se de ter facilidade em conquistar os corações femininos, mas aquele parecia especial, contou ao Observador a irmã. Só que os planos saíram furados: quando chegou a Londres, eram 23h15, já a rapariga tinha voltado para casa. Nem a chegou a ver.

Foram as palavras que o rapaz dirigiu à irmã pouco depois de chegar a Londres que assustaram a família. “No dia em que chegou a Inglaterra ele disse que estava numa ‘guerra espiritual’, o que eu e os amigos tememos ser um surto psicótico. Talvez não tivesse noção das suas ações”, confessou Daryna Lavriv, a irmã do rapaz, ao Observador.

A verdade é que Volodymyr Lavriv estava sob pressão desde há um ano, quando começou a estudar para o exame da especialidade de Medicina. “Os amigos dele dizem que, desde há um ano para cá, começou a ter conversas estranhas. Nós nunca demos muita importância, só que este acontecimento fez-nos juntar as peças. Achamos que há a possibilidade de ele já ter algo do foro psiquiátrico e que esse stress do exame tenha sido a gota de água”, explicou a irmã. Não seria caso único entre os estudantes de Medicina, muito menos para os que ambicionam especialidades com médias muito altas. Ortopedia, a especialidade que Volodymyr queria, obriga a ter 80 pontos em 100. Pode ser demais para qualquer um.

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No dia 2 de outubro, Volodymyr voltou a falar com a mãe. Nunca disse onde estava a dormir, mas dissuadiu-a da ideia de o ir visitar a Londres no sábado seguinte, atravessando o canal da Mancha. Contava estar em Lisboa antes disso. Só que no dia seguinte desapareceu sem deixar rasto.

Os seus últimos passos só foram descobertos por Galyna quando voou de França para Portugal em busca de mais informações. Volodymyr chegou a Londres pelo aeroporto de Gatwick, a seguir jantou no McDonald’s de Victoria Street e depois fez um levantamento de 190 euros em Canal Street, Nottingham. A partir daí, o silêncio total.

Foram dezassete dias sem que Volodymyr desse sinais de vida.

Foi o padrasto que o encontrou esta quinta-feira num hospital psiquiátrico inglês. Tanto quanto pôde apurar junto da polícia, Volodymyr preparava-se para regressar a Lisboa através do aeroporto de Luton quando se envolveu numa briga violenta e resistiu à detenção por parte das autoridades. Foi então enviado para o hospital e deixado sem documentos nem oportunidade de fazer uma chamada. Mas a meio desta tarde, o telefone de Galyna voltou a tocar: “Sim, mamã. Eu estou bem. Estou à tua espera”. E Galyna pôde secar as lágrimas e engolir a angústia e seguir para Londres para ir buscar o filho, o seu “tesouro”. O pai está em Paris de baixa. Não consegue andar e, embora se sinta impotente (como nos explica a filha), já sabe das boas novas.

Um homem reservado, mas que ferve em pouca água

Por cá, as notícias de que Volodymyr Lavriv estava internado porque se tinha envolvido numa luta não espantaram ninguém. Ele é impulsivo, pratica kickboxing e ferve em pouca água. Mas nem sempre foi assim. Volodymyr nasceu a 25 de julho de 1991 em Kalush (Ucrânia), apenas um ano antes da irmã, Galyna. A mãe tinha o curso de bailarina e vendia ovos no mercado, o pai era engenheiro eletrotécnico e de alta tensão. “Eles passavam o dia a trabalhar, por isso era o meu irmão que cuidava de mim. Com oito anos cozinhava para mim, sabia fazer sopa muito bem”, disse Daryna ao Observador. Era então calmo e atinado e assim se manteve nos primeiros tempos em Portugal.

Um dia, estava ele no terceiro ano e ela no quarto, o pai, Sergyi Lavriv, apanhou o autocarro em direção ao Ocidente para encontrar uma vida diferente. “O plano inicial era parar em Espanha. Mas ele decidiu não sair naquela paragem. Deixou-se ir sem rumo. O autocarro só parou em Porto de Mós. Foi por lá que ele ficou”, conta a irmã. Um ano depois, o resto da família juntou-se em terras portuguesas.

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Dois dias depois de chegarem a Fonte de Oleiro, Volodymyr e Daryna já estavam na escola. “Eu não me lembro de aprendermos português. Simplesmente falamos português. Sempre tivemos facilidade de aprendizagem e isso nunca mudou”, conta ela. As coisas pareciam correr de vento em popa. O pai começou a trabalhar numa firma de eletricidade, depois passou para uma fábrica de moldes onde ganhava muito bem como chefe de secção. A mãe, além de dar aulas de dança em Leiria, trabalhou numa fábrica de cerâmica e depois numa de costura. E os dois filhos progrediam a olhos vistos na escola, primeiro na Escola Secundária de Porto de Mós e depois no Colégio de São Miguel.

Volodymyr mostrou-se um rapaz muito educado e muito estudioso. “Um nerd”, simplificam a irmã e uma das suas amigas, que preferiu manter o anonimato. Percebeu-se desde o início do secundário que Volodymyr era “uma barra”: as notas mais baixas a constar nas pautas de avaliação do rapaz, que entretanto já tinha conseguido dupla nacionalidade, nunca eram inferiores a 18. “A esperança de muita gente é que ele não fosse bom a Educação Física. Mas até nisso ele era excelente”, conta a amiga ao Observador. Garante que o amigo nunca passou por cima de ninguém, mas que era extremamente competitivo. “Eu dava-lhe sempre na cabeça. Dizia-lhe que não precisava de ser tão frio, tão duro. Tinha de ser mais humilde. Porque a verdade é que ele conseguia. Ele sabia que conseguia”, recorda.

Um dia deixou toda a gente de boca aberta. Foi na primeira noite da viagem de finalistas, quando Volodymyr, mostrou outras aptidões que não os estudos e a competição: uma queda inesperada para a dança. “Lembro-me de começarmos a beber sumo de pêssego e de ele dançar que nem um louco. Foi uma lição bem dada para muita gente porque mostrou que uma pessoa muito inteligente também sabe ser divertida”.

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Esses tempos já lá vão. Nos tempos em que estudava em Fátima, Volodymyr andou num colégio católico com que não se revia. Embora não participasse em algumas das atividades religiosas (por ter uma diferente, ligada à Igreja Evangélica), a irmã garante que Volodymyr sempre manteve um grupo de amigos coeso. Esse grupo manteve-se até mesmo quando os dois passaram para o ensino superior, embora nessa época as coisas se fossem inverter: “Quando entrámos na universidade, eu passei a ser a marrona e o meu irmão começou a viver mais a vida”.

O curso de Medicina foi o destino natural da irmã Daryna. Desde pequena que dizia que ia ser parteira. Já a decisão de Volodymyr foi mais difícil de tomar. Pensou em ser piloto ou arquiteto. Mas a segurança que o futuro na Medicina lhe garantia falaram mais alto. Ambos o conseguiram facilmente, com medias quase a rondar os 19. E foi a faculdade que o fez mudar. Não faltava a uma festa universitária, era rara a noite em que não saía, estava sempre com amigos e tornou-se um pinga-amor. Passou a ser um homem mais sociável, mas igualmente reservado. “Não fala dos seus sentimentos, mas gosta de convívios”.

Entretanto, com os dois filhos já na faculdade e encaminhados, os pais emigraram para França, porque a empresa onde Sergyi trabalhava faliu. A mãe foi fazer companhia ao marido, mas o divórcio não demorou. Nada que tivesse afetado os filhos. “Já era algo que esperávamos e, como já éramos crescidos, apoiámos a decisão deles”, explica Daryna. A mãe permaneceu em Paris, já que os filhos estavam em Lisboa a estudar Medicina na Universidade de Lisboa. E começou uma nova relação.

O regresso de Galyna a Lisboa deu-se agora à procura de pistas do rapaz de quem não sabia há quase três semanas. O padrasto seguiu para Londres. Os amigos colocavam alertas e fotos no Facebook. Mas as respostas demoraram. Até às boas notícias deste dia 20.

Mas o regresso de Volodymyr a Portugal pode ainda demorar alguns dias. Como se envolveu numa briga e resistiu às autoridades, terá de ser presente a tribunal. Também Galyna terá de ficar cerca de vinte dias em Londres para poder regressar a Portugal com o filho. Mas já todos os amigos se preparam para o receber. “Primeiro, vou-lhe dar um ganda abraço. E depois uma ganda chapada”, garante a amiga.

O exame da especialidade, que será em meados de novembro, pode ter de ficar para o ano. O mais provável é que Volodymyr faça o sétimo ano comum de Medicina já a exercer a profissão com remuneração, mas que tenha de o deixar a meio para poder então tenar a sua paixão por Ortopedia. Por agora, aos amigos e família basta que regresse a casa sem ossos partidos.