Ponto prévio: o Sporting é especialista em roubar o tetra ao Benfica. Basta consultar o arquivo dos campeões em 1966, 1970 e 1974. Nesses três anos, o Benfica sonha com o inédito tetra e nada feito.

Ponto prévio (outro): o Sporting não é campeão em anos ímpares desdeeeeee. Quando mesmo? Basta consultar o arquivo dos anos do leão: 2002, 2000, 1982, 1980, 1974, 1970, 1966, 1962, 1958, 1954 e 1953. Bingo, o Sporting não é campeão num ano ímpar desde 1953.

Nessa época, o pódio é totalmente lisboeta: Sporting, Benfica e Belenenses. O Porto é quarto classificado. É o ano em que o Sporting festeja o tri com alguma naturalidade e ultrapassa, pela primeira vez, o Benfica em títulos de campeão (8-7). É ainda a gloriosa epopeia dos Cinco Violinos, embora Peyroteo já não more ali. Tal como Jesus Correia, cujo ultimato lançado pela direção obriga-o a escolher o hóquei patinado em detrimento do futebol. A decisão é anunciado pelo próprio, com pompa e circunstância, a 10 Outubro 1952. “Tenho 28 anos. Mercê de uma vida muito recatada, foi-me possível até esta idade jogar futebol e hóquei sem quebra de forças. Os anos, porém, contam: 14 ao serviço do hóquei, oito no futebol. Quase todos os dias, às primeiras horas da manhã, treino de futebol. Depois o emprego, que nunca quis nem quero deixar. À noite, hóquei, jogo ou treino. Tive de olhar pelo meu futuro e descanso mais no hóquei.”

Sem Peyroteo nem Jesus Correia, o Sporting do mestre inglês Randolph Galloway ainda tem Vasques, Travaços e Albano como dignos representantes do maior quinteto nacional da história. Vai daí, é naturalmente mais forte. Líder desde a 10ª jornada, acumula uma série de 11 vitórias seguidas, interrompida pelo bis de Faia, no Barreiro (2-1), numa altura em que a distância pontual em relação aos grandes é segura. Na penúltima jornada, um golo de Martins, aos sete minutos, garante a vitória magra sobre o Vitória FC (1-0) e, consequentemente, o título de campeão. Ponto. Parágrafo.

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De regresso ao presente. O tricampeão Benfica está à frente do campeonato que acaba em 2017 – ano ímpar, portanto. Como lida o Sporting com esta faca de dois gumes? A imprevisibilidade tem o seu quê de interessante e a culpa é de Petit. Esse mesmo. Este sábado à tarde (18h15 na SportTV1), o Sporting recebe o Tondela e o jogo já é um must da liga portuguesa. Basta-lhe uma edição para ganhar história. Falamos daquele 2-2 em Janeiro deste ano, no início da segunda volta, quando o Sporting é o líder e o Tondela o último.

Aos 15 minutos, Patrício derruba Nathan e o árbitro faz aquele dois-em-um (entretanto em desuso): penálti e expulsão do infrator. Chamado a bater, Nathan engana Boeck. Reduzido a dez jogadores, o Sporting demora a dar a volta. Quando o faz, é num abrir e fechar de olhos, através de Slimani (54′) e Gelson (60′). Nos instantes finais, de forma inesperada, o Tondela chega ao empate com uma desmarcação de Bruno Monteiro para o recém-entrada Salva Chamorro. No frente a frente com Boeck, o avançado espanhol nem hesita em silenciar Alvalade. É o 2-2. É a alegria do último classificado, que voltaria a surpreender um grande (1-0 no Dragão). É a alegria de Petit, o caça-leão mais famoso do campeonato 2015-16. Ao 2-2 em Alvalade pelo Tondela, acrescente-se o 0-0 no Bessa. Ao todo, Petit rouba quatro pontos ao Sporting. Não há ninguém assim. Nem Rui Vitória, muito menos José Peseiro e Julen Lopetegui, juntos. Em 2016-17, Petit continua espigadote?