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A primeira-ministra britânica Theresa May disse, em maio, que a saída do Reino Unido da União Europeia levaria a uma saída em bloco de empresas do país. Numa conversa com responsáveis do banco de investimento Goldman Sachs, antes de os britânicos votarem no referendo do Brexit, e sem saber que a sua intervenção estaria a ser gravada, May também admitia que abandonar o projeto europeu teria riscos para a segurança do país. A conversa foi divulgada pelo jornal Guardian.

May sucedeu a David Cameron em julho, depois de o anterior primeiro-ministro britânico ter apresentado a demissão na sequência do “sim” ao Brexit. Em maio, a líder britânica assumia vários receios provocados pelo cenário de saída.

“Eu penso que os argumentos no plano económico são claros”, dizia May no encontro com banqueiros.

Penso que ser parte de um bloco comercial de 500 milhões [de cidadãos] é significativo para nós. Penso que (…) uma das questões é que muita gente vai investir no Reino Unido porque pertence à União Europeia”, referia May há meio ano.

A decisão de sair teria um impacto na economia do país, entendia a agora primeira-ministra. “Se não estivéssemos na Europa, penso que as empresas e companhias que estariam a ponderar se deveriam manter uma presença europeia em vez de britânica. Portanto, penso que há benefícios para nós, em termos económicos”, em ficar na UE.

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Mas não era apenas no campo económico que as vantagens de ficar se manifestavam. Também a segurança do Reino Unido sairia fragilizada com um (ainda) eventual sim do Brexit – por exemplo, pela perda de acesso a instrumentos como os mandados de detenção europeus e a partilha de informação entre polícias e agências de informação de cada Estado.

Há, definitivamente, coisas que podemos fazer enquanto membro da União Europeia que penso que nos mantêm mais seguros”, diz May, na gravação divulgada esta noite.

May tem sido criticada pela sua discrição durante toda a campanha do referendo. O Guardian sublinha que vários colegas do partido conservador ficaram “furiosos” com a então secretária de Estado britânica pela forma como se manteve à margem do debate diário sobre o tema. Uma postura que contrasta com a clareza com que May se referia, em maio, aos riscos de uma saída. Durante cerca de uma hora, a responsável britânica respondeu às questões que lhe foram sendo colocadas pelos presentes no encontro, no qual marcou presença como oradora convidada.

Durante essa hora, May acabou por ser confrontada com as suas eventuais pretensões para chegar ao número 10 de Downing Street e ocupar o lugar que então pertencia a David Cameron. “Essa é uma das minhas mensagens no que diz respeito ao referendo. De facto, não devíamos estar a votar para tentar recriar o passado, devíamos estar a votar para aquilo que é certo no futuro”, ensaiou May, sem responder diretamente à questão.

Clara defensora da permanência nas intervenções que proferiu no Goldman Sachs, a responsável britânica defendia não só a continuidade no projeto europeu mas, também, um papel de maior relevo de Londres na Europa.

O que penso é que o Reino Unido precisa de liderar na Europa”, defendia May. Precisamos de garantir que estamos a tomar a liderança” no plano europeu, ao invés de assumirmos “uma posição recuada”.