Quando Stig Dagerman escreveu A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer não estava a pensar no ano da graça de 2016. Mas parece. Desde que se varreram as últimas garrafas do último réveillon, 2016 tem-nos pregado muitas partidas, casa vez com menos graça. Vimos desaparecer Bowie no meio de uma encenação que nos encheu de incredulidade e que remetia mais para Ziggy Stardust, personagem, do que para David Jones, homem de carne e osso. Mortal. Feito da mesma matéria que Prince e Lemmy Kilmister, embora o líder dos Motörhead disfarçasse bem. E que dizer do solista Muhammad Ali, capaz de tocar sonatas com as luvas calçadas?

Ora, chegados a novembro, mês de mortos e de todos os santos, surge a necessidade mais temida pelo cronista acidental: escrever em jeito de obituário, fazendo por disfarçar a mágoa para com o cosmos. O Cohen? Como assim, o Cohen? Com que autoridade nos despedimos de um homem que (também) nos ensinou a ser homens? E no entanto a morte, espécie de Maquiavel sem escrúpulos (passe a redundância), é capaz de sacrificar um dos príncipes, só para devolvê-lo ao lugar onde pertence. Há algumas semanas, e a propósito do Nobel atribuído a Dylan, ouvimos falar do príncipe por oposição. “Oh, se ainda fosse para o Cohen”. Agora, de forma naturalmente perversa, vamos ouvir, ler, escutar, respirar Leonard Cohen, restituindo-lhe a importância. O poeta, escritor, cantor, fazedor de homens será muito glosado em todos os meios e com toda a justiça.

Há quem vá buscar os seus modelos masculinos a Chuck Norris. Ou a Sylvester Stallone. Ou a Édipo, nos casos mais gravosos. Há quem emule Donald Trump e quem suspire por Casanova. Mas ninguém mostrou o caminho como Leonard Cohen, persona que é sinónimo de classe, de charme, de grandes canções, poemas e personagens. Falamos de um homem que começou por conquistar os livros, depois os discos, depois Manhattan e até Berlim. Foi preciso falhar, falhar novamente, falhar melhor na literatura para vermos este homem a agarrar a música pelos cornos. E só depois de fazer sucesso nos palcos é que surgiu o reconhecimento pelo que escrevera com a mestria dos melhores escritores. Aliás, acaba por ser disparatado usar categorias quando falamos do canadiano que escreveu “Partisan” para poder anunciar “the frontiers are my prison”. Verso que nos dias de hoje arrepia cabelo aos homens mais ou menos tacanhos que vão tomando conta do pedaço. Cohen era artista com agá grande.

Admitamos, todos quisemos, queremos, ser como ele. Todos lhe invejamos a verve literária, a voz que foi ganhando gravitas com o tempo, os fatos impecáveis rematados com o borsalino, a empatia. A capacidade de seduzir e de caminhar pelas trevas, de manter o equilíbrio entre o sagrado e o profano. Cantou aleluias e deu a mão aos beautiful losers. E ninguém construiu um sujeito como Cohen e todos quisemos ser esse sujeito nalguma ocasião: numa situação de engate, de luto, de afirmação de personalidade, de aflição adolescente. Poucos espalharam significados entre alta e baixa cultura, que no fundo são duas categorias criadas por fanáticos pelas réguas. A masculinidade em Cohen tanto pode ser discutida por especialistas da psicanálise em Lacan como posta em prática pelo adolescente na pista da discoteca Topas em Sagres, na hora de agarrar a parceira ao som de “I’m your man.”

Chapeau, monsieur québécois.

Quando lemos sobre o desaparecimento de Leonard Cohen lamentamos a perda e exaltamos o génio. Sobretudo procuramos consolo na ideia de que Cohen foi ao encontro de Marianne depois de lhe ter prometido a sua própria morte numa carta, veículo deliciosamente anacrónico. Conhecendo o perfil deste homem, só admitimos que tenha sido escrita com caneta de tinta permanente em papel de gramagem alta, capaz de aguentar a pressão do aparo e os vincos de uma vida cúmplice, cheia, invejável.

Agora, musa e criador olham o espectáculo do mundo a partir da plateia e a nós resta-nos a possibilidade de saborear You want it darker, a missiva que Leonard endereçou aos comuns mortais antes de sair de cena. Nela podemos escutar “I’m ready, my lord”. Nós é que não estávamos preparados para nos despedirmos de mais um ídolo. Mas podemos pedir à ceifeira que pare de olhar para o Keith Richards.

Pedro Vieira é consultor da Booktailors, pivô de televisão e ilustrador relutante.