Chama-se Filmin, é a primeira plataforma portuguesa de Video on Demand (VoD), e funciona em todos os suportes, do computador ao telemóvel, passando pelo tablet e SmartTV. Já está disponível online a partir de hoje (www.filmin.pt) e dispõe de um catálogo de quase 500 filmes. Pormenor fundamental: é totalmente dedicada ao cinema independente, de autor e clássico, congregando quase todas as pequenas distribuidoras e produtoras portuguesas, bem como festivais como a Monstra, o Queer e o 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Há duas modalidades de acesso. Por 6,95€ mensais, o utente tem à disposição todo o catálogo. Se preferir ver filme a filme, e dependendo do título escolhido, o preço vai de 1,95€ a 3,95€, e terá 72 horas para o ver. O pagamento pode ser feito por cartão de crédito ou Paypal. Para assinalar o lançamento, a Filmin vai dar o segundo mês de borla a quem faça assinatura para o primeiro.

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Esta é a homepage da Filmin

“Este catálogo surge de uma colaboração entre as pequenas distribuidoras independentes portuguesas”, conta Stefano Savio, da Il Sorpasso, associação que organiza todos os anos o 8 ½ Festa do Cinema Italiano, e é a curadora da Filmin. “Podia entrar aqui tudo o que não é de distribuidora ‘major’, mas fazemos uma escolha editorial porque também não queremos ser demasiadamente fechados no conceito de autor, desejamos crescer o mais possível. A verdadeira inovação da Filmin, para além de alguns aspetos técnicos, é a capacidade de podermos programar dentro do sistema. Temos a capacidade de reaproveitar e criar percursos de leitura dentro do próprio catálogo. Esta é uma plataforma ativa e criativa, em construção e expansão permanentes, que pretendemos que se torne num ponto de encontro e numa comunidade cinéfila online.”

[O clássico “Sentimento”, de Luchino Visconti, está na Filmin]

Os filmes surgem organizados por coleções – Jim Jarmusch, Luchino Visconti, ‘Western’ Moderno, Infantil, etc. – e a atualidade cinematográfica ou até mesmo corrente – a queda do governo ou uma vitória eleitoral como a de Donald Trump, por exemplo — pode dar azo a uma retrospetiva, como explica Savio “Esta semana estreia o ‘Ela’, do Paul Verhoeven, com a Isabelle Huppert. Por isso fazemos uma retrospetiva de filmes dela. Por outro lado, há filmes que poderão ter estreia simultânea aqui e em sala. Outros, como os do Visconti, estão só na Filmin.” O documentário de Werner Herzog sobre a história da Internet, “Eis o Admirável Mundo em Rede”, vai iniciar esta modalidade de estreia simultânea, numa parceria com a nova distribuidora Bold. A fita, que chega a Portugal no dia 24, terá uma antestreia virtual no dia 19, para a qual a Filmin vai oferecer 250 códigos de acesso, ou “bilhetes virtuais”. Quanto às séries de televisão, estão previstas para breve.

[“Trailer” de “Eis o Admirável Mundo em Rede”]

A Filmin nasceu em Espanha, em 2010, e já foi lançada também no México, em 2015, tendo o apoio do programa Media da UE, através do Europa Criativa. A Filmin portuguesa funciona em regime de “country manager” do espanhol. “Temos liberdade editorial e de escolha dentro da plataforma e tratamos de toda a comunicação e da relação com os distribuidores”, explica Stefano Savio. “A Filmin é, por agora, uma empresa espanhola a operar em Portugal. O futuro deste projeto é que ele se torne uma empresa feita de associados: distribuidores, produtores e festivais portugueses. O nosso público-alvo, que calculamos em cerca de 20 mil pessoas, é claramente o dos festivais, sobretudo os temáticos. Estes podem aqui expandir a sua programação ao longo do ano. A Monstra vai entrar com uma sessão, tal como o Queer, a Agência de Curtas e outros, que vão juntar energias de programação. Vamos ser aglomeradores, mas sempre com a preocupação de escolher as coisas mais interessantes.”

[“Ela”, o novo filme de Paul Verhoeven com Isabelle Huppert, dá o mote para uma retrospetiva da atriz na plataforma]

A plataforma está também em contacto com o produtor, distribuidor e exibidor Paulo Branco. “Estamos bastante confiantes que o catálogo do Paulo Branco possa entrar para aqui rapidamente, porque é uma contribuição muito importante para a plataforma”, diz Savio. “Falámos também com a NOS para sabermos como ter filmes independentes do enorme catálogo deles — do Woody Allen, por exemplo –, e ainda com a Pris. Outra das nossas vantagens é podermos continuar sempre a aumentar o nosso catálogo, seja do lado do cinema internacional, seja do do cinema português. Podemos tornar-nos na janela mais ativa e atualizada do cinema português e clássico. Queremos em especial dar visibilidade aos filmes nacionais e permitir-lhes uma vida mais longa. E trabalhar em conjunto com a Filmin espanhola, fazer intercâmbio de filmes portugueses e espanhóis e latino-americanos.” Nem a Cinemateca ficou de fora, já que a Filmin pretende integrar as edições em DVD que este organismo já fez e tem planeadas para o futuro.

[“Homem Morto”, de Jim Jarmusch, pode ser visto na Filmin]

Longe de querer tirar espectadores ao cinema, a plataforma pretende trabalhar para que as distribuidoras que o formam otimizem os custos de estrear um filme em sala e potenciem a sua disponibilidade ao público. “Estamos a juntar esses espectadores noutro meio e a trabalhar para que muitos deles continuem a ir ou vão mais vezes ao cinema, levados pelo que podem ver aqui”, como frisa Stefano Savio. A Filmin permite também que pessoas interessadas em cinema independente e de autor mas que vivem em sítios do país onde ou não há salas, ou onde não é programado regularmente, o possam agora ver. “E temos também muita potencialidade a nível educativo, queremos colaborar com as universidades para sermos uma ferramenta de acompanhamento de uma filmografia de um autor.”

Independente de qualquer operadora, a Filmin não terá publicidade, mas prevê poder associar-se pontualmente com algumas empresas a nível de programação, “para fazermos uma coleção de filmes de temática ambiental, por exemplo”, explica Savio. E conclui: “Não precisamos de um número muito, muito grande de aderentes para vingar, mas ainda temos que fazer bastante trabalho de divulgação. Se entrarmos bem no mercado, podemos ter uma grande expansão. Somos ainda um projeto sem fins lucrativos, embora esperemos que ele dê algum lucro, obviamente. Mas o cinema é que está na base do Filmin. O que nos move é o gosto pelo cinema.”