FOMO significa Fear Of Missing Out e é uma designação informal para justificar a ansiedade que se vive neste milénio em volta da sensação de que se não se fizer x ou y pode-se estar a perder algo e consequentemente sentir-se fora do grupo ou da conversa. Em parte, é por isso que se quer ir aos concertos que toda a gente está a falar, ou a razão para se ver qualquer coisa quando estreia. É normal que isso conduza os gostos e os tempos livres, mais as conversas dos grupos de amigos e colegas.

“Os Boys”, cujo último episódio vai para o ar esta quarta-feira às 21h50 na RTP, ficou fora dessa conversa. A série criada por Tiago Guedes e Stjepan Klein (usando o pseudónimo John Doe) e escrita por Mário Botequilha e Vítor Elias é um ótimo exercício dramático sobre a política portuguesa após o 25 de Abril. Estreou a 7 de Setembro, naquela semana em que a RTP mostrou as suas apostas na produção nacional para a rentrée: “Mulheres Assim”, “Dentro” e “Miúdo Graúdo”. Foi um exercício arriscado que resultou em estreias com valores entre os 5 e os 6% de share e que na segunda semana, com a exceção de Miúdo Graúdo, registou uma quebra nas audiências.

[o trailer de “Os Boys”]

A inclusão de “Os Boys” neste lote acaba por ser pouco produtiva. É a única das quatro com a certeza de que é uma série para televisão e não um produto derivado do formato telenovela que, por cá, também se chama de série. Talvez por causa dessa estreia em grupo tenha passado despercebida, os média deram-lhe pouca atenção e não é algo que se fale nas redes sociais. E isso, nos dias que correm, é praticamente sinónimo de que pouca gente a está a ver. Os “talvez” serão sempre talvez e, felizmente, a RTP oferece ferramentas para ver todos os episódios da série através do serviço RTP Play. Vale a pena voltar atrás para ver uma sátira política como raramente se faz em Portugal. Há boas razões para isso.

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É o país que temos

Tiago Guedes foi um dos responsáveis por “Odisseia” (2013), uma das melhores séries de comédia feitas em Portugal neste milénio. “Os Boys” começa com um bom cold opening e logo aí percebe-se que não se anda a brincar às séries. Isto é a sério, mais próximo do modelo norte-americano e britânico a que o espectador está habituado.

Foge também às gravações em estúdio, é rodada em exteriores e isso traz uma dimensão que a diferencia de muita da ficção nacional que estreia nas estações portuguesas. É uma coisa tão pouco usual que até se pode dizer que se estranha. Faz-se bom uso disso, por vezes com breves cenas que se percebem que devem ter sido um pesadelo para a produção mas que justificam todo o esforço. E há piadas que o merecem.

O humor como ferramenta

Na ficção televisiva portuguesa não existem muitos exemplos em que a comédia tem um carácter de serventia para se aprender a rir com a política e, a partir daí, construir-se um discurso de sátira em volta daquilo que se passa em redor. Desde o início que “Os Boys” pratica isso. Existe, de certa forma para formar mentalidades, instituir o bichinho de que algumas coisas podem ser gozadas neste país de maneira inteligente. Ao fazer isso, a série contorna a ideia de que vai explicar o que se passa nos corredores da política portuguesa. “Os Boys” não pretende ser um “House Of Cards”, “The West Wing” ou “Veep” português, mas uma ferramenta para se olhar e falar da política em Portugal de outra forma, com uma visão acutilante do presente e do passado recente, que mistura com inteligência situações que realmente aconteceram com outras inventadas.

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Essa mistura é muito produtiva, por vezes o espectador dá por si a pensar no quão ridículo algo é, para depois perceber que isso realmente aconteceu em Portugal. Noutras vezes a sequência e a lógica dos acontecimentos da narrativa fazem acreditar que algumas coisas, se calhar, passam-se mesmo assim, porque só o absurdo pode justificar a sua existência. Fá-lo com uma dinâmica exemplar e pelo meio trabalha ideias mais populares e que são lugares comuns, como o de que este país está a ser vendido por interesses políticos ou de que qualquer dia isto é tudo dos chineses. E de absurdo em absurdo apresenta-se uma leitura mordaz da política portuguesa das últimas décadas. Não é isso que acontece com as séries políticas que chegam lá de fora?

Atenção ao pormenor

Desde o início que se sente que há uma grande atenção aos pormenores e nada é entregue ao desbarato ao longo de “Os Boys”. Se foi introduzido na narrativa, é para ser usado até perder a sua utilidade. É isso que acontece quando o Dr. Angelino (Orlando Costa) diz “É o país que temos”, frase usada em quase todos os episódios para justificar uma certa inoperância em Portugal. Acontece que, quando o diz, surge no contexto de uma das suas trafulhices ou dos seus negócios interesseiros com o governo, e a expressão, que quase todo o português usa, ganha uma nova vida ao longo da série.

[o genérico de abertura:]

É a partir do Dr. Angelino que surgem alguns dos pormenores mais deliciosos de “Os Boys”, como os milhares de paletes de uma água péssima que vende ao governo como contrapartida para um favor. As garrafas de água não ficam esquecidas nesse momento e nos episódios seguintes estão sempre presentes nos corredores políticos, para lembrar o espectador de que há uma consequência nas ações da série e providenciar novas situações de humor. Ou, por exemplo, quando a Sra. Zhang (Jani Zhao), que faz alguns negócios com o Dr. Angelino, confronta Bombarda (Tónan Quito) num dos últimos episódios sobre o facto de ele achar que ela não falaria português. Sra. Zhang é uma personagem regular, uma mediadora dos negócios que os políticos portugueses fazem com o governo chinês, e nesse diálogo ela quebra um gelo que, até aí, o espectador não sabia que existia, porque nem sequer pôs essa hipótese. É uma piada guardada desde o início para servir um momento hilariante muitos episódios à frente.

Calma, isto é muito melhor do que parece

Os exteriores são de facto uma das mais-valias da série de Tiago Guedes e Stjepan Klein, mas fazê-lo sai caro e não é segredo de que a produção nacional não nada em dinheiro. Mas são essenciais para a dinâmica de uma série como “Os Boys”, como também é essencial que algumas cenas tenham muitos atores e figurantes. Nem sempre isso é possível e é frequente a dupla arranjar soluções de cinema para dobrar as suas limitações. Em “Os Boys” essa atitude raramente é realizada unicamente com o propósito de desenrascar e costuma servir um bem maior.

No episódio 7, “O Pântano”, discute-se o novo presidente da Comissão Europeia e na dificuldade de filmar uma série de atores a discutirem a situação, filma-se uma tradutora (Monica Calle) numa cabine, cria-se a ilusão de que se está naquele espaço a ouvir e a ver aquelas pessoas, quando de facto só se está a assistir ao processo em segunda mão. E, do nada, cria-se uma personagem misteriosa, que o espectador nem percebe bem o que é (que o terá mais à frente no episódio, claro, porque nada é deixado ao acaso), mas que o cativa e o conduz pela narrativa desse episódio. E, simultaneamente, é um pormenor que está ao serviço de uma narrativa maior – a da série – e que prova, muito bem, que é possível fugir ao marasmo e aos becos em que frequentemente a produção televisiva nacional se mete.