Educação

PISA. Alunos portugueses acima da média da OCDE pela primeira vez em 15 anos

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Pela primeira vez, os alunos portugueses superaram a média da OCDE a ciências, leitura e matemática e foram mesmo os que mais evoluíram a ciências. Os privados e o Alentejo Litoral em destaque no PISA

O PISA avalia o nível de literacia de alunos de 15 anos a ciências/tecnologia, leitura e matemática

NUNO VEIGA/LUSA

Autor
  • Marlene Carriço
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501 498 492.

Esta sequência quase que podia ser um daqueles números de valor acrescentado para os quais se liga para tentar a sorte e, quem sabe, receber um prémio. Neste caso não é um número telefónico, mas dá direito a galardão: um prémio de bom desempenho aos alunos portugueses de 15 anos que foram postos à prova, em 2015, no âmbito do estudo internacional de referência Programme for International Student Assessment (PISA). Com 501 pontos a literacia científica, 498 a literacia em leitura e 492 em literacia a matemática, os alunos portugueses não só melhoraram face à última edição (2012), como ultrapassaram, pela primeira vez, a média dos países da OCDE, nas três áreas, de acordo com os resultados divulgados, esta terça-feira, pela organização.

O que é o PISA?

O Programme for International Student Assessment (PISA) é um exame internacional desenvolvido, de três em três anos, pela OCDE e que não visa avaliar conteúdos curriculares, mas antes avaliar em que medida os alunos entre os 15 anos e três meses e os 16 anos e dois meses (e que estejam a frequentar, pelo menos, o 7.º ano) mobilizam os conhecimentos que têm a leitura, matemática ou ciências, para resolver situações do quotidiano e exercerem plenamente a cidadania. O primeiro PISA data do ano 2000 e em cada ciclo tem sido dada ênfase a uma das três áreas avaliadas. Este ano foi a vez das ciências. Os resultados do PISA, numa escala de zero a 1.000, são tidos em muita consideração pelas instituições e governos de cada país pois são o reflexo das políticas adotadas e estabelecem metas baseadas em padrões de desempenho definidos internacionalmente.

Em 2000, na primeira edição do PISA, Portugal era uma espécie de campeão da liga dos últimos quando comparava o nível de literacia dos seus alunos com o dos restantes países. A ciências/tecnologia e a leitura — com 459 e 470 pontos, respetivamente — ocupava o antepenúltimo lugar entre os membros da OCDE e no caso da matemática (454 pontos) estava a quatro lugares do fim. Em 15 anos o quadro mudou radicalmente. O progresso foi “muito significativo”, escreve o IAVE no documento a propósito do PISA. No caso das ciências a pontuação média dos alunos subiu 42 pontos, a leitura subiu 28 e a matemática somou mais 38 pontos.

Esta melhoria dos resultados refletiu-se numa ascensão nas tabelas. Considerando apenas os 34 países da OCDE participantes, Portugal ocupou a 17.ª posição em literacia científica, na avaliação da leitura ocupou a 18.ª posição, e a matemática não conseguiu melhor do que a 22.ª posição.

“Portugal tem tido um percurso muito positivo. Ao longo das seis edições do estudo, em todos os domínios, a tendência de evolução global dos resultados mostra-nos uma subida gradual”, descreve Helder Sousa, presidente do conselho diretivo do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), acrescentando, ainda a este propósito, que “Portugal integra um lote muito restrito de países da OCDE que evidenciaram uma progressão positiva, bastante expressiva, ao longo das seis edições do estudo”.

No documento elaborado pelo Instituto, Helder Sousa destaca ainda que, “pela primeira vez, o resultado nacional nos três domínios está acima da média da OCDE: oito pontos em Ciências, cinco pontos em Leitura e dois pontos em Matemática” sendo que, neste último, a diferença não é significativa.

Portugueses foram os que mais melhoraram a literacia científica

Nesta edição do PISA as atenções estiveram voltadas para a literacia científica. E as conclusões não são animadoras no geral. A pontuação média baixou de 498 em 2006 para 493 em 2015. Em 63 países participantes, 30 mantiveram resultados, 18 baixaram e 15 subiram. A Finlândia, que era o país com melhor classificação em 2006, caiu 11 pontos desde então. Fez o caminho ao contrário de Portugal.

É dececionante que, para a maioria dos países com dados comparáveis, o desempenho científico no PISA permaneceu praticamente inalterado desde 2006″, lê-se no relatório do PISA 2015.

“De fato, apenas uma dúzia de países mostraram uma melhoria mensurável no desempenho científico dos jovens de 15 anos, como Singapura e Macau (China) e Peru e Colômbia”, destacam os especialistas no relatório agora apresentado. “Também é preocupante ver quantos jovens não atingem até mesmo os resultados de aprendizagem mais essenciais.”

O que é a literacia científica?

A literacia científica corresponde à capacidade que os jovens de 15 anos têm para participar em discussões relacionadas com ciência e também com a tecnologia e sempre numa perspetiva de resolução de problemas do dia-a-dia. Um cidadão com um bom nível de literacia científica é capaz de ter um discurso fundamentado sobre ciências e tecnologia, ou seja, explica um fenómeno científico, mobilizando teorias, conceitos, explicações e factos; avalia e concebe investigações científicas, compreendendo a finalidade da investigação e aborda questões usando esse método e, por último, analisa e interpreta dados cientificamente.

Mas Portugal aparece em contra-ciclo. Já vimos que entre 2000 e 2015 a pontuação do alunos portugueses subiu 42 pontos nesta matéria e que de 2012 para 2015 subiu 12, para os 501 pontos, depois de ter resvalado quatro pontos entre 2009 e 2012. Se nos centrarmos nas edições exatamente comparáveis — as duas em que este tipo de literacia esteve em foco (2006 e 2015) — então, nesse caso, a evolução média da literacia científica foi de 2,8 pontos por ano. Em cada três anos de avaliação das ciências, Portugal aumentou oito pontos. Isso faz com que, entre os países da OCDE que participaram nos quatro ciclos do PISA desde 2006, Portugal seja o que denota um aumento mais expressivo.

Os alunos portugueses encontram-se agora no segundo bloco de países com melhores resultados a literacia científica e acima da média da OCDE. Se considerarmos apenas os países da organização, Portugal surge em 17ª posição, subindo de 26.º em 2012. Se atendermos a todos os 72 participantes, Portugal aparece na 23ª posição (35.º em 2012).

No primeiro bloco, em dez países sete são asiáticos. Singapura apresentou o melhor resultado, com 556 pontos, seguido do Japão, com 538 pontos, da Estónia, com 534, e da Finlândia, com 531.

O forte dos alunos portugueses é ao nível da interpretação de dados e evidências científicas (503 pontos) e, ao nível do conteúdo, são melhores na avaliação de conteúdos relativos a sistemas vivos (503 pontos).

Importante ainda sublinhar que Portugal foi o país que registou o maior aumento na percentagem de alunos “top performers”, entre 2006 e 2015. A maior subida registou-se entre 2012 e 2015. E, cumulativamente, o país reduziu a fatia de alunos com mau desempenho (“low performers”). Foi, aliás, dos poucos países que conseguiu essa conjugação.

Resultados melhoraram também a leitura e matemática

Mas não foi só a literacia científica que os alunos portugueses melhoraram o desempenho. No que toca à literacia em leitura, Portugal subiu 28 pontos face à primeira edição (2000) — numa média de 1,8 pontos por ano –, 10 pontos, relativamente a 2012, e nove quando olhamos para o último ano em que esta matéria esteve em destaque (2009). Em 2015, os alunos portugueses alcançaram 498 pontos a literacia em leitura, ficando cinco pontos acima da média da OCDE, em 18.º lugar quando comparado com os restantes países da OCDE (em 2012 ocupava a 25ª posição) e em 21ª tendo em conta os 72 participantes de todo o mundo (subindo da 32ª posição alcançada em 2012).

Mais uma vez, e agora a leitura, os países com melhores desempenhos são asiáticos: Singapura (535 pontos) e Hong Kong (527). Sendo que o Canadá igualou este último, também com 527 pontos. A Finlândia (526), a Irlanda (521) e a Estónia (519) são os melhores países europeus.

Olhando para o conjunto dos alunos postos à prova, o topo do topo das performances foi atingido apenas por 0,6% dos alunos mas, comparando com o último ciclo de avaliação em que a leitura foi o domínio principal (2009), Portugal registou um aumento significativo na percentagem de alunos “top performers”.

No capítulo da literacia em leitura, é de esperar que um jovem de 15 anos consiga localizar e recuperar um ou mais elementos de informação de um texto (requisitos para uma candidatura a uma oferta de emprego, por exemplo); integrar e interpretar (por exemplo, identificar uma relação que não é explícita ou inferir o significado de uma afirmação) e refletir e avaliar (relacionar a informação presente no texto com os conceitos e conhecimentos adquiridos fora dali e com as experiências do próprio. Aqui destaca-se, por exemplo, a apresentação de argumentos ou de evidências que estão para além do texto em si).

Por fim, a literacia a matemática que compreende a capacidade de alguém formular, aplicar e interpretar a matemática em contextos diversos e inclui raciocinar matematicamente e utilizar conceitos, processos e factos e ferramentas para descreverem explicar e prever fenómenos.

É na literacia a matemática que os alunos portugueses pontuam pior: 492 pontos, apesar da melhoria face ao ano 2000 (mais 38 pontos, uma evolução média de 2,6 pontos ao ano) e ao primeiro ano em que a matemática esteve em análise (Portugal foi, aliás, dos países que mais evolui positivamente desde então) e do aumento de cinco pontos percentuais face a 2012, que colocou Portugal, pela primeira vez, acima da média da OCDE, embora não seja estatisticamente significativo (dois pontos). Isto porque, no conjunto, os países da OCDE pioraram o desempenho a matemática (menos quatro pontos face a 2012).

Em 2015, Portugal ocupa 22ª posição entre os países da OCDE e a 29ª considerando os 72 participantes, de uma tabela liderada, mais uma vez, por Singapura (564 pontos) e por Hong Kong (548). O país da OCDE mais bem classificado é o Japão, com 532 pontos. Já a Finlândia, por exemplo, ocupa a oitava posição da OCDE e 10 do ranking geral, apesar de ter quebrado na pontuação face ao último estudo (menos oito pontos).

Apesar das melhorias a matemática, quase um quarto dos alunos ainda tinham, em 2015, muitas dificuldades a matemática, estando abaixo do limiar do nível mais elementar de desempenho. Alunos de topo a matemática são 11%.

Rapazes melhores que as raparigas. Escolas privadas e Alentejo Litoral em destaque

Passando de uma análise mais macro para uma análise mais micro, e olhando apenas para o que se passa dentro das fronteiras nacionais, então aí o melhor desempenho a literacia científica é registado no Alentejo Litoral — com uma pontuação média de 536 pontos, 35 acima da média nacional –, seguido da Lezíria, da Região de Leiria, Alto Minho, Coimbra, Viseu Dão Lafões. No extremo oposto da tabela aparece o Tâmega e Sousa com menos 41 pontos que a média nacional, seguida de Alto Tâmega e Trás-os-Montes. No Tâmega e Sousa e no Alto Tâmega, mais de um em cada três alunos não atinge sequer os conhecimentos básicos a ciências.

Também em matéria de leitura, foram os alunos do Alentejo Litoral a revelar melhor desempenho, em 2015: 534 pontos (mais 36 do que a média nacional), seguidos dos alunos da região de Leiria (514) e Viseu Dão Lafões (511). No fundo da tabela voltam a estar os alunos do Alto Tâmega, que não foram além dos 442 pontos (56 abaixo da média nacional), seguidos dos alunos de Trás-os-Montes (456) e do Tâmega e Sousa (457). Os alunos da Área Metropolitana de Lisboa pontuaram melhor que os do Porto, com 505 e 501 pontos, respetivamente.

E a matemática, os melhores alunos estão igualmente no Alentejo Litoral, tendo alcançado uma pontuação média de 528 pontos, mais 36 do que a média nacional. Seguem-se os alunos do Alto Minho (518 pontos), Viseu Dão Lafões (514) e Lezíria do Tejo (513). Os alunos do Tâmega e Sousa voltam a ser os piores a matemática (454 pontos, menos 38 que a média).

Em relação à diferença de géneros, o PISA mostra que os rapazes portugueses pontuam melhor do que as raparigas no caso da literacia científica: os rapazes alcançaram mais 10 pontos do que as raparigas e olhando para os alunos de topo, encontramos lá 9,5% dos rapazes testados e apenas 5,2% das raparigas que participaram nos testes.

Portugal é, aliás, um dos países que registaram uma diferença mais acentuada na distribuição dos resultados por género”, no que diz respeito à literacia científica e essa diferença acentuou-se face a 2006.

Uma diferença de 10 pontos é também aquela que separa os rapazes das raparigas a matemática. Os rapazes tiveram, em média, 497 pontos em 2015 e as raparigas não foram além dos 487.

Mas no que diz respeito à literacia em leitura as raparigas levam a melhor. As raparigas pontuaram 17 pontos acima dos rapazes, ainda assim uma diferença menos acentuada do que aquela que se registou em 2012 (diferença de 39 pontos) e menos vincada do que a verificada na média dos países da OCDE: uma diferença de 27 pontos, favorável às raparigas.

Confirmando aquilo que vários rankings têm mostrado, os alunos das escolas privadas que participaram neste teste revelaram igualmente melhores desempenhos que os seus colegas que frequentam escolas públicas. Em literacia científica alcançaram 546 pontos, contra os 498 dos alunos das escolas públicas; em literacia em leitura conseguiram 532 pontos, mais 34 pontos do que os colegas das públicas; e na literacia a matemática o desempenho médio dos alunos das privadas foi também “significativamente superior à média nacional”.

Estes resultados do PISA chegam depois de ser também conhecido o desempenho dos alunos do 4.º ano. Os alunos do 4.º ano mostraram-se melhores a matemática e piores a ciências, do que em 2011. E Portugal foi o país que mais melhorou resultados a matemática desde 1995, no 4.º ano, de acordo com o Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS).

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