“A Criada”

O sul-coreano Park Chan-wook, autor, entre outros, da tremenda ‘Trilogia da Vingança’ (“Sympathy for Mr. Vengeance”, “Oldboy-Velho Amigo” e Vingança Planeada”) , esmerou-se na adaptação e transposição, da Inglaterra de finais do século XIX para a Coreia sob domínio japonês nos anos 20, do livro homónimo da britânica Sarah Waters. Um vigarista que quer seduzir uma rica e ingénua herdeira órfã para lhe ficar com a fortuna, consegue que uma cúmplice, uma jovem ladra, seja contratada como criada pessoal desta, na mansão do seu tutor, que enriqueceu e foi titulado por colaborar com o ocupante japonês.

Só que o que parece nem sempre é, e a história não pára de dar reviravoltas inesperadas e de nos surpreender a cada esquina. Misto de “pastiche” de romance popular da época vitoriana e de “thriller” erótico com requintes de perversão asiática, e injectado com um sentido de humor muito negro, “A Criada” competiu no Festival de Cannes, tem duas bonitas e estupendas actrizes principais e é um filme sumptuoso e diabólico, sardónico e dissoluto, um habilíssimo e superior divertimento cinematográfico.

“Vale de Amor”

Gérard (Gérard Depardieu) e Isabelle (Isabelle Huppert) estão separados há alguns anos. O filho deles suicida-se, deixando uma carta que os convoca para, seis meses após a sua morte, se reunirem no Vale da Morte, nos EUA, prometendo que se lhes manifestará. Este filme do francês Guillaume Nicloux continua a experiência de metacinema, e de diluição das barreiras entre realidade e ficção, intérpretes e personagens, do seu anterior, “O Rapto de Michel Houellebeq” (2104), que prosseguiria no seguinte, “The End” (2016), também com Depardieu.

Recorrendo a uma premissa do cinema fantástico, Nicloux joga com o lastro de memórias cinéfilas trazido pelo casal de actores (que não contracenavam desde “Loulou”, de Maurice Pialat, de 1980), com a presença maciça de Gérard Depardieu e com a desolação sobrenatural e o poder evocativo do Vale da Morte, onde já foram rodados “westerns” como “Os 3 Padrinhos”, de John Ford, épicos como “Spartacus”, de Stanley Kubrick, e fitas como “Zabriskie Point”, de Antonioni, ou “Gerry” de Gus Van Sant, para assinar um filme hipnótico, fantasmagórico e intrigante, cuja ambiguidade declarada exasperará alguns, mas cativará outros.

“O Amigo Americano”

Tom Ripley, a amoral criação de Patricia Highsmith, já foi interpretado no cinema por vários actores — entre eles, Alain Delon, Matt Damon e John Malkovich — mas nenhum o conseguiu até agora corporizar satisfatoriamente, embora Delon e Malkovich tenham andado lá perto. Juntamente com o de Matt Damon, um dos piores, menos convincentes e mais inverosímeis Ripleys é o de Dennis Hopper (em substituição de John Cassavetes) neste “O Amigo Americano” (1977), de Wim Wenders, que vai buscar inspiração ao livro “O Jogo de Ripley”, e no qual Tom Ripley convence Jonathan Zimmerman (Bruno Ganz), um emoldurador que está a morrer de uma doença incurável, a assassinar um homem em seu lugar.

Wenders não tem “feeling” para o universo equívoco, malsão e moralmente desconfortável das histórias de Highsmith e para o traduzir dramática e cinematograficamente, e o enredo é confuso, fazendo deste “O Amigo Americano” uma das adaptações ao cinema mais chapadamente falhadas de um livro da autora. Os papéis de mafiosos são todos interpretados por realizadores amigos ou venerados por Wim Wenders: Sam Fuller, Nicholas Ray, Gérard Blain, Daniel Schmid. Reposição em cópia restaurada.

“Ghost in the Shell — Agente do Futuro”

Ghost in the Shell — Agente do Futuro”, de Rupert Sanders, com Scarlett Johansson no papel principal, vai minerar o território da “manga” e da “anime” japonesa. A “manga” original de Masamune Shirow, modelo da ficção científica (FC) “cyberpunk” em banda desenhada, já deu origem no Japão a quatro longas-metragens de animação, as duas primeiras assinadas por Mamoru Oshii, séries de televisão e jogos de vídeo, e influenciou filmes de FC ocidentais como “Matrix”.

A fita não é uma transposição literal da “manga” nem um “remake” aplicado do filme animado original. Vai “picar” aqui e ali à “franchise” nipónica, mantendo o cenário urbano futurista, as personagens principais e algumas das suas ideias e conceitos tecnológicos e narrativos, passando-se num mundo onde as pessoas se ligam directamente às redes de informação através de implantes, num sistema de “interface” neurocibernético, e as ciberpróteses são perfeitamente vulgares, desde olhos a corações e fígados. Johansson é uma sofisticadíssima “cyborg” com cérebro humano e corpo sintético, que lidera uma unidade de combate ao cibercrime. “Ghost in the Shell — Agente do Futuro” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.