Transplante

Primeiro transplante de medula óssea em Portugal há 30 anos e a evolução não mais parou

O primeiro transplante de medula óssea foi feito há 30 anos no IPO de Lisboa a uma criança de seis anos e foi "um sucesso". Evolução nunca parou, falta agora capacidade para responder à procura.

O IPO fez o primeiro transplante de medula óssea há 30 anos e a procura pelo tratamento continua a crescer

António Cotrim/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O primeiro transplante de medula óssea foi feito há 30 anos no IPO de Lisboa a uma criança de seis anos e foi “um sucesso”. Cientificamente, a evolução nunca parou, faltando agora capacidade para responder à procura.

“Não temos o número de camas para responder a todas as necessidades do país e aqui no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa somos particularmente penalizados por isso”, disse à agência Lusa Manuel Abecasis, o médico que dirige o departamento de hematologia e do serviço de transplantação de progenitores hematopoiéticos.

Este hematologista, que há 30 anos realizou o primeiro transplante de medula óssea, no IPO de Lisboa, adiantou que em cima da sua secretária tem uma lista com 40 doentes que aguardam um transplante.

“Se eu hoje encerrar a lista, temos doentes para transplantar até ao final do ano. E todas as semanas chegam casos novos”, disse, reconhecendo que, sem o transplante, estes doentes “correm risco de vida” e que “muito provavelmente” acabarão por morrer sem esta intervenção”.

Se a falta de resposta à procura se tem mantido, melhor é a resposta em termos das células necessárias para o transplante.

“Graças a um desenvolvimento que surgiu há cerca de quatro, cinco anos atrás, pode dizer-se que hoje em dia é raro o doente que não tem um dador compatível”, disse.

Esta nova abordagem veio permitir transplantar doentes com o pai ou uma mãe, um filho ou uma filha, uma evolução determinante numa sociedade com cada vez menos irmãos.

“A grande complicação que havia teoricamente associada a este tipo de transplante haploidêntico era a doença do enxerto contra o hospedeiro, situação curiosa em que os linfócitos do dador reconhecem o organismo do doente como organismo estranho e vão atacá-lo e querer destrui-lo e pode ser muito grave e até matar o doente”, explicou.

Esta doença era “um obstáculo inultrapassável nos transplantes haploidênticos”, mas nos anos 90 apercebeu-se que 1% de células úteis no transplante (os restantes 99% vão para “o lixo”) têm a propriedade de poder neutralizar um medicamento (ciclofosfamida) que, por sua vez, é fatal para os linfócitos”.

“Se nós, nos dias a seguir ao transplante haploidêntico, quando os linfócitos do dador estão em grande proliferação para atacar o organismo do hospedeiro, dermos uma grande dose de ciclofosfamida matamos esses linfócitos todos, mas não matamos as células que verdadeiramente vão dar origem à medula óssea. Estas células, como têm uma enzima que neutraliza a ciclofosfamida, sobrevivem e conseguem repor a medula óssea”, adiantou.

Este avanço era impensável há 30 anos, quando uma criança de seis anos, com uma “leucemia péssima”, foi sujeita ao primeiro transplante e “com sucesso”. Morreria um ano mais tarde por complicações da doença.

Desde então, o serviço realizou cerca de 2.000 transplantes de medula e o mais antigo sobrevivente tem hoje 33 anos e já é pai, resistindo assim aos efeitos da quimioterapia que é realizada antes do transplante, para matar todas as células da medula, as leucémicas e as outras.

Outra diferença significativa passa pelo local de colheita das células a transplantar.

“Na altura, no ato técnico do transplante só podíamos ir colher células à própria medula óssea do dador. Hoje em dia também se podem obter no sangue periférico. De uma veia do braço podem colher-se células para o transplante, e também no sangue do cordão umbilical, o que foi um avanço muito grande”, disse.

Para Manuel Abecasis, “tudo isto evoluiu imenso. Quando começámos, tínhamos poucos antibióticos à disposição, não tínhamos medicamentos eficazes contra vírus, como temos hoje, praticamente não tínhamos medicamentos para tratar infeções por fungos, que era uma causa importante de morte dos doentes”.

Olhando para o passado, o médico e pioneiro nesta área confessa: “Quase parece a pré-história”.

Para tal também contribuiu a constituição das famílias, hoje com muito menos filhos.

“Escolhemos o dador entre os irmãos do dador, porque é aí que vamos encontrar a melhor compatibilidade. Hoje em dia as famílias são muito pequenas. Passámos a trabalhar num universo completamente diferente, sem dadores na própria família. E isso levou a que se desenvolvessem os registos ou painéis de dadores voluntários, pessoas perfeitamente altruístas que se ofereciam para dar células a quem precisasse de fazer um transplante e não tivesse um dador na família”.

Ao longo destes 30 anos, afirmou, “este projeto dos bancos de dadores cresceu imenso, ao ponto de hoje em dia termos um universo de quase 30 milhões de pessoas onde podemos procurar um dador para os nossos doentes”.

A biotecnologia veio facilitar a escolha do melhor dador: “Quando se introduziram as técnicas de biologia molecular começámos a perceber que o que de início parecia igual era totalmente diferente”.

“Estas técnicas que foram desenvolvidas sobretudo ao longo dos anos 90 permitiram melhorar muito a escolha do dador, ao ponto de hoje em dia termos resultados entre irmãos e dadores não relacionados praticamente idênticos e essa foi, se calhar, a maior revolução na área dos transplantes, porque veio permitir oferecer esta estratégica terapêutica a doentes que não tinham dadores”, prosseguiu.

Em Portugal existe um banco de dadores com 400 mil voluntários. Quase 50% dos doentes são transplantados com dadores portugueses.

Isto apesar de cerca de 30% dos dadores inscritos já não estarem disponíveis na altura de serem chamados a doar.

O número de transplantes de medula óssea deverá crescer para os 120 anuais após as obras nesta unidade, que deverão começar em breve

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