Cinema

“A Paixão de Van Gogh”: uma investigação passada dentro dos quadros do pintor

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Esta animação levou cinco anos a fazer, foi inteiramente pintada à mão, dá vida aos quadros de Van Gogh e explora uma tese alternativa sobre a sua morte. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Van Gogh é um dos pintores favoritos do cinema. Já o vimos em filmes tão diversos como “A Vida Apaixonada de Van Gogh”, de Vincente Minnelli (1956), “Vincent”, de Paul Cox (1987), “Vincent & Theo”, de Robert Altman (1990), “Van Gogh”, de Maurice Pialat (1991), ou ainda interpretado por Martin Scorsese num dos episódios de “Sonhos de Akira Kurosawa”, do mestre japonês (1990). Mas nunca o tínhamos visto como em “A Paixão de Van Gogh”, a animação de longa-metragem do inglês Hugh Welchman e da polaca Dorota Kobiela, pintado a óleo e objecto de uma investigação de pendor policial sobre a sua própria morte. O filme não é mais uma biografia do pintor, abraçando a tese segundo a qual Van Gogh não se suicidou mas foi assassinado (talvez involuntariamente), expressa pelos seus biógrafos Steven Naifeh e Gregory White Smith num livro de 2011, “Van Gogh: The Life”.

[Veja o “trailer” de “A Paixão de Van Gogh”]

Ao abordar esta hipótese heterodoxa sobre a morte do pintor, Welchman e Kobiela recorreram a um processo pouco convencional, que transformou “A Paixão de Van Gogh” na “primeira longa-metragem totalmente pintada do mundo”. Para animar o filme, que tem actores de carne e osso e usa também tecnologia digital, foram precisos 120 artistas, que pintaram à mão 65 mil fotogramas, usando a mesma técnica e o estilo de Van Gogh e transformando os quadros numa animação de hora e meia. A história, passada um ano depois da morte do pintor é, assim, contada através de dezenas de obras dele, protagonizada por pessoas com quem privou ou apenas retratou nesses mesmos quadros, e ambientada em locais onde viveu e que representou nas telas. Van Gogh aparece apenas em “flashbacks” monocromáticos e no final da fita, que além de contrariar a explicação geralmente aceite sobre a sua morte, recusa também o estereótipo popular do génio atormentado e suicida, o “pintor visionário e maluco ”. Este Van Gogh está mais próximo do interpretado por Jacques Dutronc na fita de Pialat do que do de Kirk Douglas na de Minnelli.

[Veja uma entrevista com os realizadores]

As características cinéticas da sua pintura, tal como o seu intenso e deslumbrante uso da cor, prestam-se muito bem a uma transposição para o universo cinematográfico, e da animação em especial, se bem que nos possamos perguntar se não teria sido mais prático e infinitamente menos penoso, e não poderia ter sido obtido um efeito semelhante, se os realizadores tivessem recorrido apenas à técnica do “rotoscoping”, como fez Richard Linklater nas suas animações “Waking Life” e “A Scanner Darkly” , ou Ari Folman em “A Valsa com Bashir”. Mas Welchman e Kobiela quiseram estar o mais próximo possível do espírito, da identidade estética e da autenticidade estilística dos quadros de Van Gogh e daí este exemplo consumado de “slow cinema”. “A Paixão de Van Gogh” demorou cinco anos a fazer. É um “tour de force” técnico e artístico, onde se combinam pintura tradicional, actores e computadores.

[Veja os bastidores da rodagem]

O inquérito “detectivesco” sobre as circunstâncias da morte de Van Gogh levado a cabo por Armand Roulin, o filho do carteiro do artista, em Auvers-sur-Oise, é suficientemente plausível para nos absorver e atenuar a gradual diminuição do efeito de novidade, inevitável num filme de hora e meia, bem como um certo virtuosismo repetitivo que existe em “A Paixão de Van Gogh”, onde os actores foram escolhidos pela sua parecença com as figuras dos retratados nos quadros, e encontramos nomes como Douglas Booth, Saoirse Ronan, Helen McCrory ou o veterano John Sessions (Van Gogh é personificado pelo polaco Robert Gulaczyz). Mas não sejamos demasiadamente picuinhas com “A Paixão de Van Gogh”, porque tão cedo não veremos um filme como este. Tendo em conta a trabalheira que envolveu, talvez mesmo nunca mais.

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