Tudo começou quando a equipa de Hugo Silva, professor do Instituto Politécnico de Setúbal, procurava saber se os traçados cardíacos eram únicos para cada pessoa. Se assim fosse, explicou-nos o cientista, os sinais vitais produzidos a todo o momento pelo coração podiam ser usados como “uma espécie de impressão digital“. Mas havia um problema: essa investigação, no seio do Instituto de Telecomunicações, era demasiado cara. Os equipamentos que mediam esses sinais podiam chegar a custar 7.500 euros, fora os preços das formações com especialistas. Por isso, Hugo e os colegas encontraram uma solução: criaram o projeto BITalino, uma legião de equipamentos biomédicos que custam a partir de 20 euros. E à conta disso ganharam o prémio Innovation Radar Awards 2017 na categoria “Industrial & Enabling Tech”.

Vamos por partes. Como explicou ao Observador o investigador, os sinais biomédicos são indicações que o organismo dá para mostrar que está a funcionar, como os movimentos musculares involuntários, a dilatação das pupilas ou os batimentos cardíacos. Apesar de os podermos observar facilmente — quando alguém tem espasmos ou quando as pupilas dilatam na ausência de luz –, os equipamentos biomédicos usados em laboratório para os medir são muito caros. Hugo Silva percebeu que os preços eram muito altos porque eram máquinas muito complexas e porque os materiais que os compunham eram demasiado caros.

Para contornar essas desvantagens, a equipa que trabalha no seio do Instituto de Telecomunicações decidiu criar “uma plataforma de baixo custo e código aberto“, isto é, constantemente atualizável, que permitisse a qualquer curioso fazer essas medições biomédicas em casa. BITalino não tem uma caixa, nasceu de fundos públicos e de bolsas de projetos e, graças a isso, “democratizou a ciência. Agora, os estudantes e os académicos não precisam de usar máquinas que costumam custar mais de sete mil euros: podem usar materiais semelhantes que custam 15 euros. É como não conduzir um Ferrari, mas ter um BMW nas mãos. Não se fica mal, pois não?”, compara Hugo Silva.

BITalino. Que nome (genial) é este?

Na origem do nome BITalino há muitas histórias. O projeto começou por se chamar “VITalino”, uma mistura da palavra “vital” com “Arduino” — uma plataforma de hardware que funciona como esqueleto desta máquina –, mas uma simples pesquisa no Google mostrou que era um nome muito comum. Vitalino já era o nome de uma empresa de materiais hospitalares, o nome de um deputado do PS e até de um artesão brasileiro. Por isso, os cientistas deram “personalidade ao nome”: “Uma das nossas colegas era do Norte e em vez de Vitalino dizia muitas vezes Bitalino“. O nome colou, até porque “bit” é também a mais pequena unidade de informação computacional que pode ser armazenada. Vinha mesmo a calhar.

Desde 2013, ano em que o projeto nasceu, até agora, BITalino já chegou a mais de 30 países. A internacionalização do projeto começou quando Hugo Silva foi para os Estados Unidos fazer um estágio no âmbito do doutoramento e encontrou-se com o diretor de um laboratório no outro lado do oceano. “Quando expliquei o que era a BITalino ele disse-me: ‘Arranja-me 30 dessas coisas. E eu arranjei“, recorda Hugo Silva ao Observador. Desde então, o projeto já chegou à Índia, ao Japão e até às Ilhas Maurícias. Há cientistas do MIT (Massachusetts Institute of Technology), da Universidade de Stanford e do Imperial College London a usar a BITalino dentro dos laboratórios. Até o Facebook usa a BITalino para estudar as nossas reações enquanto navegamos na Internet. E a Boeing usa este produto português para estudar as reações dos clientes a novos serviços.

Hugo Silva admite que essa parte comercial de BITalino não estava no horizonte. Nem sequer estava nas suas mãos: quando a equipa percebeu o potencial daquela invenção chamou a PLUX para fazer o licenciamento da máquina e para a fazer chegar mais longe: “O nosso objetivo sempre foi científico e de investigação”. E continua a ser: por ter um software aberto, qualquer pessoa pode desenvolver projetos e aplicações que incorporem sinais biomédicos de forma fácil e rápida. Qualquer curioso pode estar em casa a descobrir mais sobre o próprio corpo: com 20 euros compra um sensor. Depois, por mais 149 euros, pode também comprar uma bateria, um carregador, seis ou sete sensores e cabos para todos eles: “É como uma evolução daqueles vídeos do YouTube com a etiqueta DIY [do it yourself]. Só que desta vez nas nossas mãos”.