Kim Yong-Chol lidera a delegação norte-coreana enviada à cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang, mas foi recebido com protestos mal pôs o pé em território sul-coreano. A delegação atravessou a fronteira entre as duas Coreias a pé e, chegado à Coreia do Sul, Yong-Chol tinha à sua espera dezenas de manifestantes, alguns empunhando cartazes onde lhe chamavam “criminoso de guerra”. O general norte-coreano e o resto da delegação, conta o The Guardian, tiveram de ser rapidamente enfiados em carros pretos da polícia.

Por que razão provoca este homem de 72 anos mais raiva entre os sul-coreanos do que, por exemplo, a irmã de Kim Jong-Un, que foi enviada à cerimónia de abertura dos Jogos? É que Kim Yong-Chol não é um homem qualquer na hierarquia do regime de Pyongyang e é visto por muitos como o responsável pela morte de 46 marinheiros sul-coreanos, quando ordenou um ataque ao navio Cheonan, em 2010.

O incidente foi grave o suficiente para que a Coreia do Sul impusesse sanções à Coreia do Norte na sequência do ataque. No entanto, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in aceitou recebê-lo e conversar com ele, imbuído do espírito de abertura que tem caracterizado os representantes sul-coreanos ao longo destes Jogos. Já Ivanka Trump, a filha do Presidente enviada pelos EUA para a cerimónia de encerramento, não deverá apertar a mão ao general.

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O homem responsável pelo ciberataque à Sony

A fronteira entre as duas Coreias, onde foi recebido com apupos, não é novidade na vida Kim Yong-Chol. O general começou a sua carreira como polícia militar na zona desmilitarizada e tornou-se mais tarde guarda-costas do líder Kim Jong-Il, segundo conta a revista Time.

A subida dentro das fileiras militares foi-se dando sem incidentes e Yong-Chol foi mesmo nomeado líder das negociações durante as conversações com os sul-coreanos entre 2006 e 2008. No ano seguinte, chega ao Gabinete Geral de Reconhecimento, um organismo de espionagem norte-coreano semelhante à CIA. A BBC afirma que é precisamente por ter ocupado esse posto até 2016 que os investigadores do ciber-ataque à Sony Pictures, em 2014, suspeitam que tinham sido ele o responsável pela tentativa de impedir o lançamento do filme The Interview, que satirizava o regime norte-coreano.

Recentemente, há cerca de dois anos, o general passou para a chefia do Departamento Frente Unida, uma agência de informação civil que gere grupos pró-Coreia do Norte na Coreia do Sul.

“Se quisessem uma fotografia com Ivanka, tinham enviado outro”

Os Jogos Olímpicos de Inverno têm sido marcados pela chamada “diplomacia desportiva”, com vários avanços e recuos na relação entre as duas Coreias a serem feitos através das delegações enviadas aos eventos desportivos. A escolha de enviar Yong-Chol foi feita imediatamente depois de ser anunciado que Ivanka Trump seria a representante norte-americana; mas há dúvidas sobre qual é o sinal que Pyongyang pretende enviar com a escolha deste dignatário.

Os EUA anunciaram novas sanções ao regime de Kim Jong-Un no último dia dos Jogos, o que levou Pyongyang a cancelar o encontro que estava previsto com o vice-presidente Mike Pence. O envio do general Kim Yong-Chol, escreve o Guardian, pode ser um sinal de que a Coreia do Norte espera negociar de facto, já que a delegação inclui militares de peso e até responsáveis pelo programa nuclear.

Outros analistas, contudo, têm um entendimento diferente. “Eles querem desafiar o exército sul-coreano e a aliança EUA-Coreia do Sul”, declarou ao Wall Street Journal Go Myung-hyun, investigador do Instituto Asiático de Estudos de Política, em Seul. “Se a Coreia do Norte quisesse uma fotografia com Ivanka, tinham enviado outra pessoa que não o general.”