Esta não é a primeira aventura de Sofia Marques dos Santos. Em 2003, a atual diretora do Pallco fundou a Oporto Ballet School, escola especializada em ballet clássico e dança contemporânea, em Massarelos. Mas os alunos começaram a ser cada vez mais e o espaço cada vez menos – a escola tinha de se mudar. E Sofia, que sempre achou que “havia uma lacuna no Porto por não haver ensino artístico oficial em dança”, quis criar o “primeiro conservatório de música e dança da cidade”: “Há dança sem música e música sem dança. Mas são áreas que se complementam. E eu acho bastante interessante a ideia de um bailarino passar por uma sala e ver o violoncelista a ensaiar e um músico ver uma bailarina a alongar no corredor. Toda essa dinâmica faz sentido.”

Um ano e 1,7 milhões de euros depois, nasceu o Pallco, num espaço de 2400 metros quadrados que outrora havia sido um armazém de automóveis na Travessa da Prelada. E, nesta quinta-feira pelas 19h, vai ser inaugurado ao público, com a presença do presidente da Câmara, Rui Moreira.

A maior ambição da diretora e professora de ballet é que a escola consiga ter um impacto tanto nacional como internacional pela sua “qualidade de ensino” – algo que já tinha alcançado com a Oporto Ballet School quando esta foi distinguida, em 2016, com o Outstanding School Award, pela americana Youth America Grand Prix.

E, dentro de uma escola que integra várias artes, o objetivo é que se estabeleçam sinergias. E é isso que a direção diz destacar o Pallco das outras escolas artísticas: aos alunos de Dança, serão oferecidas aulas de Música de Conjunto Instrumental e Teatro e, aos alunos de Música, aulas de Movimento e Teatro.

Tudo isto, valorizando e empregando profissionais que foram cá formados, adianta Sofia Marques Santos: “Até agora formei bailarinos para fora. Agora gostava de os formar e mantê-los cá dentro, porque os bons profissionais também têm de ficar por cá, não é só exportar.”

Articular as artes com a escola

Apesar dos cerca de 150 alunos da Oporto Ballet School já terem estreado as instalações, o Pallco só vai começar a funcionar plenamente no próximo ano letivo, em setembro de 2018/19. Neste fim-de-semana, 21 e 22 de abril, vão ser feitas as primeiras audições de ingresso para os cursos básicos e secundários de música e dança. A segunda fase de provas está planeada para junho.

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A escola de ensino artístico, que terá autonomia pedagógica sob a tutela do Ministério da Educação, vai candidatar-se aos contratos de patrocínio. O custo dos cursos básicos e secundários vai, por isso, depender do apoio do Estado:

“Se 200 alunos passarem nas audições de ingresso, o Estado pode financiar 10, 50, 100 ou 200. E os que têm prioridade em ter o seu curso financiado são os que tiveram melhores notas nas provas”, explica a diretora.

Para os alunos que não tiverem esse apoio, o curso de dança ou música rondará os 120 euros por mês.

Depois de passarem as provas, os alunos terão de escolher entre o ensino de regime supletivo ou articulado. Neste último regime, a escola de ensino artístico articula-se com a escola pública de ensino regular e as crianças são dispensadas de algumas aulas – como educação física e educação visual. Para lá dos agrupamentos do Porto, o Pallco já tem este tipo de protocolos com agrupamentos de Santa Maria da Feira, Maia, Matosinhos e Gaia.

E as parcerias não ficam só em território nacional – já há projetos de intercâmbio planeados para o próximo ano letivo dentro e fora da Europa, confirmou a diretora ao Observador.

Para lá do ensino profissional, a escola contém diversos cursos livres de dança – a partir dos três anos – e de instrumento – a partir dos 4 anos. E é nos cursos livres que reside outra das novidades: o curso de teatro musical, que vai receber alunos dos 3 aos 17 anos e cuja formação será examinada pelo Trinity College London.

Mas o Pallco não é só para os estudantes. Vai estar aberto à população em geral para aulas de Pilates, Yoga, ginástica, dança para adultos, entre outras.

Acompanhamento além das aulas

Apesar de ser uma escola artística, este conservatório vai funcionar como um ATL – disponibiliza-se para ir buscar as crianças à escola e oferece apoio escolar e explicações (do 5.º ao 12.º ano) antes ou depois das aulas artísticas. E, acreditando que “por trás de um bom bailarino está um bom atleta”, a escola emprega profissionais de fisioterapia, podologia e nutrição. Sofia Marques dos Santos dá principal destaque à última área:

“Se as bailarinas vão a uma competição, podem ter uma técnica fantástica, mas se não estiverem naquela linha, ninguém lhes vai oferecer uma bolsa de estudo, é frustrante. E às vezes com um pouco de orientação, vai-se lá. Não é deixar de comer, é saber o que comer. E é importante termos profissionais que percebam do assunto.”

O edifício de dois pisos da Travessa da Prelada engloba um auditório de 250 metros quadrados, três estúdios, uma sala polivalente, salas dedicadas às aulas de instrumento e formação musical e um vasto jardim exterior. Em breve, as paredes brancas do edifício vão encher-se de cor, fruto de parcerias que o Pallco pretende estabelecer com escolas superiores de artes visuais. E, no futuro, o grande objetivo é “crescer mais” e “criar mais estúdios, mais salas, mais gabinetes” para alargar o palco a mais talentos nacionais.