Cinema

“Um Lugar Silencioso”: um ruído e toda a gente morre

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O actor John Krasinski realiza e interpreta um filme vigorosamente assustador, em que o silêncio é essencial para sobreviver a uma mortífera ameaça alienígena. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

No cinema, a Terra já foi invadida por toda a sorte de criaturas: homenzinhos verdes, vermelhos, azuis e amarelos, bisarmas macacóides, entidades vampirescas, lagartos inteligentes, polvos com olhos, substâncias informes, carpetes ambulantes, anões macrocéfalos, seres gasosos, polimorfos ou aracnóides, palhaços assassinos, mutantes hermafroditas. A lista é interminável e em “Um Lugar Silencioso”, o actor John Krasinski (“O Escritório”), que também realiza, acrescenta-lhe uma novidade: monstros cegos que comunicam entre si pelo som e têm um aparelho auditivo sofisticadíssimo. Graças a ele, atacam e matam ao menor ruído. Convém por isso estar mudo e quedo para lhes sobreviver. Não falar, não espirrar, não rir, não cantar, abolir os electrodomésticos, a música e os brinquedos com pilhas.

[Veja o “trailer” de “Um Lugar Silencioso”]

Pela informação indirecta que Krasinski nos dá, através das manchetes de velhos jornais, depreende-se que não foi difícil a estas criaturas provocar a queda de uma civilização humana envolvida em barulho e viciada em ruído. Quem conseguiu escapar ao massacre, tem que se habituar a levar uma vida de constante e profundo silêncio. É o que sucede à família Abbott, pai (Krasinski), mãe (Emily Blunt) e filha e filho adolescentes, instalados numa quinta no interior dos EUA, onde tudo está pensado para, em teoria, eliminar todo e qualquer ruído e a comunicação é feita por linguagem gestual (a filha, interpretada pela óptima Millicent Simmonds, de “Wonderstruck”, é surda-muda, tal como a própria actriz). Só que a mulher está grávida e já no fim do tempo, e a chegada do bebé vai pôr novos e sérios problemas à família. Um descuido com um choro da criança e é o fim.

[Veja as entrevistas com John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds e Noah Jupe]

Não sendo um filme mudo, “Um Lugar Silencioso” é dominado pelo silêncio que condiciona o dia-a-dia dos Abbott e significa a diferença entre a vida e a morte, e hábil e inteligentemente construído em redor desta premissa.  O som mais ténue atrai de imediato os monstros hipersensíveis da audição e cegamente predadores que vagueim pela região. Os filmes de ambiente pós-apocalíptico como este investem habitualmente nas fricções e nos desentendimentos que surgem entre as personagens dos sobreviventes, e as incompatibilizam e separam. Aqui, essas fricções e desentendimentos são aplacados seja como for, e os laços entre os membros da família têm que ser mais fortes que tudo.

[Veja uma sequência do filme]

Como não podia deixar de ser, o argumento de Bryan Woods, Scott Beck e do próprio Krasinski tudo vai fazer para os pôr à prova, através de uma sucessão de situações esmigalha-nervos e colecciona-calafrios, onde coisas tão banais como um prego saído no degrau de uma escada ou uma inundação numa cave, podem causar uma catástrofe. Este filme de terror em enquadramento de ficção científica sobre a adaptação dos humanos a uma ameaça mortal que lhes virou a existência às avessas, é monossilábico, abrupto e crispadíssimo, e vigorosamente assustador, resolvendo-se na canónica hora e meia com uma lógica narrativa e uma coerência interna inatacáveis. Parafraseando o ditado, quem pelo som mata, pelo som há-de morrer.

Rodado por uns modestos 17 milhões de dólares, “Um Lugar Silencioso” rendeu quase 10 vezes essa soma apenas nos EUA, para um total mundial que já passou os 210 milhões de euros. O filme irá ter uma inevitável continuação, que se deverá passar no mesmo mundo mas noutro local e com novas personagens. Mas é muito difícil que seja melhor que o original, que merece entrar pela porta principal para o rol dos melhores filmes de terror desta década.

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