“Em 1997, fui violada por Harvey Weinstein aqui, em Cannes.” Foi assim que a atriz italiana Asia Argento — uma das primeiras mulheres que acusaram o produtor norte-americano publicamente, em outubro de 2017 — iniciou o seu discurso na cerimónia de encerramento do Festival de Cinema de Cannes 2018.

Tinha 21 anos quando foi vítima dos abusos de Weinstein. Na altura, não contou o que aconteceu porque tinha medo das retaliações que podia vir a sofrer a nível profissional. À New Yorker tinha dito, em outubro, que só de falar do assunto o corpo lhe tremia. Hoje, com 42 anos, Asia Argento fez um discurso onde não mais mostrou a menina de antes e onde não mais tremeu. Mostrou, sim, uma mulher com garra. O discurso — poderoso, forte, arrebatador — durou cerca de um minuto e deixou a audiência em completo silêncio. No fim? Aplausos, muitos aplausos.

“Eu quero fazer uma previsão: Harvey Weinstein nunca mais vai ser recebido aqui. Ele viverá em desgraça, evitado por uma comunidade cinematográfica que o abraçou e encobriu os seus crimes”, afirmou Argento, reforçando a sua posição quanto a toda a polémica que envolve a comunidade de Hollywood. Mas a atriz foi mais longe e fez referência àqueles que têm os mesmos comportamentos mas que ainda não foram responsabilizados por eles.

E mesmo esta noite, sentados entre vocês, há aqueles que precisam de ser responsabilizados pela sua conduta contra as mulheres por comportamentos que não pertencem a esta indústria, não pertencem a nenhum setor ou local de trabalho”, disse, acrescentando: “Vocês sabem quem são. Mas mais importante, nós sabemos quem vocês são, e nós não vamos permitir que se livrem disto por muito mais tempo”.

Na reportagem publicada pela New Yorker pode ler-se que um dos produtores de Weinstein convidou, em 1997, Asia Argento para uma festa num hotel, porém, quando lá chegou, ao invés do prometido tinha apenas uma pessoa à sua espera no quarto de hotel: Harvey Weinstein. O produtor norte-americano elogiou o seu trabalho, antes mesmo de a coagir a fazer-lhe uma massagem, durante a qual “ele puxou a saia para cima forçou-a a abrir as pernas e fez-lhe sexo oral com ela a dizer-lhe repetidamente que parasse.”

O discurso da atriz, em França, rapidamente ultrapassou fronteiras e foi alvo de uma onda de apoio. A atriz Mira Sorvino — que também acusa o produtor norte-americano — escreveu no Twitter: “Tão orgulhosa & grata”, mas não foi a única. Também Rose McGowan escreveu: “As pessoas devem compreender a bravura que envolve o que ela fez. Falar da verdade crua da violação é incrivelmente difícil.”

Depois do momento emotivo em Cannes, Asia Argento não deixou de partilhar uma mensagem na sua conta de Twitter para todas aquelas que sofreram o mesmo (e que podem vir a sofrer). “Este é o discurso que eu escrevi e disse esta noite em Cannes. Para todas as mulheres corajosas que têm vindo a denunciar os predadores e para todas as mulheres que o vão fazer no futuro. Nós temos o poder #metoo”, pode ler-se.

https://twitter.com/AsiaArgento/status/997933017443291136

Recorde-se que Harvey Weinstein foi acusado por várias mulheres o que gerou uma grande polémica em Hollywood. O produtor, que sempre negou as acusações de que foi alvo, acabou por ser expulso do sindicato de produtores de Hollywood na sequência das denúncias de assédio e abuso sexual.