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Os saudosos anos noventa que agora renascem na revolução do parolo e na insaciabilidade de nostalgia foram também os anos de “Seinfeld”. Na televisão norte-americana e na TVI, o primeiro programa que me ensinou o que eram as madrugadas e os sacrifícios que um gajo está disposto a fazer por amor. Por mais sofisticado que por vezes queira ser, por mais fantástica que seja a ficção actual, “Seinfeld” vive no meu imaginário como um ponto de retorno: pelo seu carácter formativo, não pela ideia de que “está lá tudo” – mas, de facto, está lá tudo – e pelo que já me passou pelo estreito – e foi muito – já encontrei várias razões para o largar como referência. Mas, tal como na presença de uma travessa de bacalhau com natas, sucumbo ao à-vontade da “confort food” e acabo muitas noites a revisitar episódios de “Seinfeld” no Amazon Prime, em alturas que tenho séries para ver, séries para serem vistas ou simplesmente dormir.

O lado contranatura de ligar “Seinfeld” a “Arrested Development” é o mesmo que o torna natural. “Arrested Development” foi o seu antídoto e a sua continuidade. “Seinfeld” foi essencial num carácter formativo da adolescência, para entender códigos de humor e códigos de vida, mesmo que muitos deles só sejam tangíveis com a clarividência necessária dos trinta anos; “Arrested Development” participou na descoberta da idade adulta, na compreensão de que a televisão estava a mudar, não a mudança da HBO, dos “The Sopranos”, “Sete Palmos de Terra”, etc. A mudança com códigos de humor que exigiam uma relação diferente com o que se via.

Pouco de novo aqui. Esses tais códigos de humor incompreendidos existiram pela televisão – e não só – antes e depois de “Arrested Development”, o que me faz dizer isto sobre esta em particular é apenas uma questão de experiência pessoal, como por vezes as coisas devem ser vividas para serem partilhadas, fora do seu interesse histórico. Foi por volta de 2004 que descobri “Arrested Development”, provavelmente primeiro através de download ilegal e depois através de uma caixa de DVDs que continha as duas primeiras temporadas. A parte do download ilegal aqui importa. Já lá chego.

[o trailer da quinta temporada]

https://www.youtube.com/watch?v=gXg2_yExgVY

O contexto. “Arrested Development” é uma criação de Mitchell Hurwitz em volta da família Bluth, que fez fortuna no mercado imobiliário e que vê o patriarca a ser preso por fraude. Logo no primeiro episódio. O acontecimento serve de desculpa para trabalhar a família no seu todo, “disfuncional” é a palavra-chave aqui, tão querida pelas agências de comunicação e tão mal-usada para descrever tanta coisa. Neste caso, “disfuncional” é redutor, “Arrested Development” é um trabalho exímio sobre egos mimados e o modo como chocam. Vai além dos clichés e cria os seus próprios através de uma enorme paciência e consistência das personagens.

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Estreou-se em 2003 na Fox norte-americana, a crítica gostou, não agarrou o público. Seguiu-se uma segunda temporada no ano seguinte, que continuou a não corresponder às expectativas – aos números – e foram produzidos menos episódios do que o esperado. O período Fox terminou em 2005 com a terceira temporada, feita aos empurrões e com uma enorme autoconsciência de que não teria continuação. Depois de muitas promessas, da Showtime querer e continuar “Arrested Development”, a tão desejada quarta temporada lá aconteceu no Netflix em 2013. Cinco anos depois chega a quinta: esta terça, 29 de maio de 2018, com o peso de década e meia a viver em algumas personagens e com Michael Cera com umas olheiras de Macaulay Culkin.

Nesses quinze anos, Mitchell Hurwitz não perdeu um pingo do brilhantismo em jogar com a realidade e com os infortúnios da série no próprio argumento. “Arrested Development”, por alturas da terceira temporada, aquela que vi enquanto acompanhava o seu cancelamento – graças à pirataria – tornou-se numa narrativa fascinante de controlo do presente. Foi aí que ganhei a noção – ou perdi a ingenuidade – de que há muita coisa boa que é arrasada pelo cancelamento, por não cumprir essa coisa dos números. E durante cerca de cinco anos vivi obcecado em ver quase todas as séries que estreavam nos Estados Unidos (pirataria pois, mas pagava o meu pacote de cabo como um bom cristão) para perceber o fenómeno, viver a experiência enquanto elas existiam até serem canceladas.

Foi assim que, por exemplo, vi “Starved” série que competia por um espaço no FX com “Nunca Chove Em Filadélfia”. “Nunca Chove Em Filadélfia” ganhou, claro. É brilhante. Mas os sete episódios de “Starved” marcaram-me para sempre. É uma das coisas mais perturbadoramente cómicas que vi para televisão. E irrepetível, um produto do seu tempo. Claro que ficou esquecida, claro que dificilmente aparecerá num livro, claro que não há qualquer injustiça aqui. É a vida. Mas ainda se pode ver.

[uma entrevista com o elenco]

Esse tal “controlo do presente”, a noção de que “Arrested Development” vivia dos seus próprios infortúnios foi um bom choque. Algo irrepetível, numa altura em que se arriscava mais na televisão do que actualmente, Hurwitz criou um produto que era muito comercial e terra-a-terra para o cabo e um formato de sitcom contínua que exigia demais do espectador casual de um canal público. Exigia pouco, mas exigia: que se prestasse atenção ao pormenor, que se deixasse levar pelo carrossel de piadas que eram destemidas ao ponto de resgatar um pormenor que se julgava esquecido da série. Foi esse ritmo insano de piadas, com um narrador activo/omnipresente, Ron Howard (o próprio, também produtor executivo), que tornaram possíveis que séries como “30 Rock”, “Community”, “Archer” ou “The Thick of It “ / “Veep” pudessem existir.

Essa desadequação às necessidades das estações televisivas norte-americanas não dizem que o produto de Hurwitz estava à espera da era do binge watching. Até porque ninguém sabe se isso teria mudado alguma coisa. A vitória de “Arrested Development” é subsistir até hoje como um acto contínuo do que apareceu em 2003. O que move para os novos episódios é a leve esperança de que a trama nunca se resolva e que a série continue para sempre. Mesmo que a próxima temporada aconteça novamente só daqui a cinco anos. E que Michael Cera já esteja careca. É a continuidade e não o desejo de que volte a ser tão boa como em 2004/2005: até porque se tem de cair na real, as circunstâncias não se voltarão a repetir.

Se nunca viu “Arrested Development”, as quatro temporadas estão todas no Netflix, com a primeira parte da quinta a chegar no dia 29 de Maio (a segunda parte chega mais para o final do ano). Se apanhou uns episódios na TVI ou no FX, com o delicioso e genérico título “De Mal A Pior” (deve ser o que saiu à sorte num boião onde deviam estar “Uma Família Em Apuros”, “O Que A Casa Gasta” ou “O Michael É Que Paga”) e não gostou, pense sobre o que anda aqui a fazer. Rir é bonito. Com os Bluth é muito melhor.