Isaltino had a dream. Certa manhã de abril, Isaltino Morais acordou e teve um sonho: ‘Vamos fazer uma exposição sobre os seis meses de mandato e os projetos que temos para o futuro”. Nessa manhã, o calendário marcava de facto meio ano desde que Isaltino tinha sido reeleito presidente da câmara de Oeiras, com uma estrondosa maioria absoluta de 41,65% dos votos. Estrondosa sobretudo porque aconteceu pouco depois de ter estado 14 meses preso por fraude fiscal e branqueamento de capitais. E como os “sonhos” são para ser levados a sério, nesse mesmo dia, o autarca apresentou a ideia à sua equipa de comunicação e deu-lhe a tarefa: têm 30 dias para fazer erguer a dita exposição.

“Na realidade, faço oito meses de mandato no dia 21 deste mês de junho, mas naquele dia, quando acordei e tive a ideia, fazia seis meses”, explicou o autarca na sessão que teve lugar esta quarta-feira em pleno Templo da Poesia, no Parque dos Poetas. A data é simbólica, como foi simbólica a mensagem que quis passar: o Isaltino Morais megalómano dos anos 90 está de volta. E de pé.

“Fui condenado, passei pela prisão, foi uma experiência dolorosa, mas estou aqui de pé”, disse no final da sua apresentação de mais de 40 minutos, quando um jornalista lhe perguntou qual a razão de ter sido o único autarca do país a sentir necessidade de mostrar trabalho feito ao fim de apenas seis meses de mandato. Foi por ter sido condenado e ter cumprido pena por corrupção? A resposta foi assertiva, Isaltino rejeitou qualquer tipo de condicionamento por ter estado preso, e a plateia aplaudiu — aplaudiu muito.

Acontece que o sonho de Isaltino passava ao lado de um pormenor: o dia escolhido para a sua ação promocional, onde puxou dos galões da “credibilidade” da equipa que dirige o município, viria a ser também o dia em que uma equipa da Polícia Judiciária e do Ministério Público entrava pela edifício da câmara adentro com um mandado de busca. (Mandado, com d). Segundo comunicou depois a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, foram apreendidos “documentos de índole contabilística” e “outras mensagens de correio eletrónico” no âmbito de uma investigação relacionada com “crimes de tráfico de influência, corrupção passiva e ativa, participação económica em negócio e abuso de poder”. Tudo isto aconteceu ao mesmo tempo que Isaltino fazia a defesa da sua honra ali ao lado, no Parque dos Poetas, na apresentação da exposição “6 Meses de Mandato – Um novo ciclo de desenvolvimento”. Mandato, com t. Sim, qualquer semelhança de palavras, é pura coincidência.

Aparentemente sem saber que as buscas estavam a decorrer, Isaltino matava saudades do palco e dos holofotes, discursando com à vontade, e sem vontade de se calar, para uma casa cheia. “Peço desculpa, não quero ser fastidioso, sobretudo com os jornalistas aqui presentes, mas quem está aqui neste púlpito não tem vontade de se calar”, diria a certa altura, quando já corria mais de meia hora desde que começara. Antes, já tinha dito que estava ali para falar de “sonhos” e de projetos futuros, mas só de alguns, porque se fosse de todos “seriam precisos três ou quatro Templos da Poesia”.

“Às sextas-feiras tenho feito uns passeios para estar em contacto com os cidadãos e os problemas que me colocam são problemas que sabem que vamos resolver. Acreditam que somos capazes, e é essa crença que nos confere uma responsabilidade enorme, mas também um privilégio enorme. Temos um grande capital de credibilidade e não vamos desiludi-los”, disse, sublinhando a “saúde financeira” de Oeiras, que tem “a maior solidez do que qualquer município em Portugal” e que até se prepara para reduzir significativamente os impostos. Promessa de Isaltino: em 2018, os munícipes de Oeiras vão sentir uma diminuição de 4 milhões de euros nos seus impostos (entre IRS, IMI e derrama), em 2020, essa poupança passa para 8 milhões, e em 2021 “o IMI estará no mínimo legal possível”.

Discursou, foi aplaudido, passeou pela exposição que detalhava todos os projetos onde prevê aplicar um investimento de 400 milhões de euros nos próximos oito anos, tirou selfies no terraço com vista para o rio (depois de lhe terem ensinado como o fazer), fez operação de charme, almoçou com os convidados, e, no fim, já o evento tinha acabado, viria a correr atrás do prejuízo: “As buscas estão relacionadas com o projeto para o empreendimento no Jamor (…) em datas onde o atual presidente da câmara não exercia funções no Município de Oeiras”, escreveu o gabinete do autarca em comunicado.

Na nota enviada às redações, a autarquia explicou que o projeto Porto Cruz, que se trata de um plano para a construção de um empreendimento junto ao Rio Jamor, remonta ao ano de 2004 e foi aprovado em 2014, sendo que tanto em 2004 como em 2014, “o atual presidente da Câmara não exercia funções no Município de Oeiras”. Isaltino foi presidente da câmara de Oeiras durante 24, desde 1985 até 2013, quando foi condenado por corrupção, tendo apenas feito uma interrupção entre 2002 e 2005 para integrar o Governo de Durão Barroso.

A revenge of the 90’s de Isaltino, e a Silicon Valley de Portugal

Os anos 90 foram dele, e foi essa obra que Isaltino quis invocar. Depois de ter criticado o anterior executivo de Paulo Vistas (outrora seu delfim e vice-presidente), dizendo que, depois de toda a obra por si feita era “fácil andar para trás”, bastando apenas para isso “estar parado”, Isaltino Morais dedicou 40 minutos a explicar como iria voltar a fazer de Oeiras o “município número 1” de Portugal. Quer em termos de educação, como de mobilidade, infraestruturas ou ação social.

Contam-se, pelo menos, quatro as vezes em que o autarca lembrou os “anos 90”. Primeiro, para dizer que nessa altura Oeiras era um “concelho de referência a nível europeu”, que já usava conceitos como “smartcities” ou “economia circular” — “conceitos intelectuais que dão um ar de sustentabilidade mas que já eram aplicados aqui desde os anos 90”. Depois, para lembrar que nesses tempos áureos, Oeiras estava nos primeiros lugares do “ranking da transparência”, prometendo que é para lá que vai voltar. Voltou a citá-los para recordar que foi nos anos 90 que começou a idealizar um concelho sem estradas: “O conceito de estrada vai desaparecer, vamos ter a marginal e a A5, mas queremos que os cidadãos circulem a pé ou de bicicleta”, disse, prometendo “acabar com as valetas” e “construir 20 km de ciclovia nos próximos oito anos”.

E, finalmente, para lembrar como, nos anos 90, se dizia que havia casas a mais, mas que foi com uma estratégia de longo prazo para a habitação que “combatemos as desigualdades” e “contribuímos para a coesão social do município”. Para o futuro, Isaltino prometeu ainda mais casas: “Vamos dar habitação para todos os segmentos que carecem de habitação, porque a casa é o castelo da família”, disse.

O plano é ambicioso. São 350 a 400 milhões de euros em investimento “puro e duro” nos próximos oito anos, mais 15 a 20 milhões “extra” só para educação, porque Isaltino quer levar para Oeiras “os melhores alunos do país”, sendo que por investimento “puro e duro” o autarca entende investimento em infraestruturas, desde escolas, habitação, lares a campos de futebol. Com que dinheiro? “Oeiras tem a maior folga financeira que permite devolver aos cidadãos em qualidade de vida”, repetiria várias vezes, não detalhando mais do que isto.

No plano de Isaltino, pensado para mais um mandato (oito anos), está ainda uma revisão do Plano Diretor Municipal para permitir a fixação de mais empresas, como a Google. Também aqui os números são ambiciosos: em 48 quilómetros quadrados de área municipal, 30% é para empresas de base tecnológica. Ao SATU, o transporte elétrico não tripulado de Oeiras cuja obra foi descontinuada em 2015, é que o autarca dedicou poucas palavras. Questionado pelos jornalistas, responderia depois que está em curso uma auditoria para estudar os custos de uma eventual reposição do meio de transporte ou os custos de destruição da infra-estrutura. Isaltino até admite retomar a construção do SATU até ao Lagoas Parque, mas não mais do que isso: a partir daí terá de ser substituído por “outro veículo, elétrico, claro, mas com condutor”. Sem mais pormenores. “Até ao fim do ano teremos novidades”.

Na exposição, com extensos painéis que detalhavam os investimentos ao pormenor, a cada obra prevista correspondia um custo estimado e uma data para a realização e conclusão. Não raros eram os exemplos, contudo, em que não havia custo estimado, mas havia uma previsão de calendário. Tudo para “voltar” a fazer de Oeiras o que já foi. Que é como quem diz: Isaltino está de volta. “A Oeiras dos anos 90 era o 1º município do país, hoje não é, é sempre o segundo ou o terceiro nos rankings, temos de admitir, mas há que voltar a ser”, diria.

Entretanto, enquanto o discurso continuava no púlpito, ninguém parecia cansado de o ouvir. Mas Isaltino, experiente, sabia que não se podia alongar muito para lá da conta, sob pena de a mensagem não passar. Tinha ensaiado um final apoteótico para o discurso — longe de imaginar que as buscas que por aquela altura decorriam na sede do município iriam ofuscá-lo. “É por tudo isto que a partir de hoje vão ouvir falar muito de Oeiras Valley“, disse, numa referência ao centro tecnológico norte-americano de Silicon Valley. E assim saiu de cena.

Por pouco tempo. Voltaria a entrar logo a seguir: “Ah! Estou disponível para as perguntas dos jornalistas, peço desculpa mas entusiasmei-me um bocadinho perante esta plateia”. Assim como assim, o slogan “Oeiras Valley” já não era novo: começou a ser usado em 2013, quando Isaltino já estava detido, mas ainda era formalmente autarca do município.