Cinema

“Mundo Jurássico: Reino Caído”: fartinhos de dinossauros clonados

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O segundo filme da nova trilogia saída do "Parque Jurássico" original é mais clonagem de dinossauros para monetização intensiva e tem valor de entretenimento nulo. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Autor
  • Eurico de Barros

Por mais voltas que se dêem, por mais toneladas de efeitos digitais com que se carreguem os filmes, vamos sempre parar aos mesmos arquétipos dos contos tradicionais e das narrativas épicas e fantásticas. Em “Mundo Jurássico: Reino Caído”, o segundo filme da segunda trilogia da série iniciada há 25 anos com “Parque Jurássico”, de Steven Spielberg, o arquétipo em causa é o da criança perseguida pelo monstro. A criança é Maisie (Isabella Sermon), a neta de Benjamin Lockwood (James Cromwell), multimilionário e parceiro do falecido John Hammond nas experiências de clonagem de dinossauros que levaram à construção do Parque Jurássico original. E o monstro é o Indoraptor, espécie de super-Velociraptor, maior, mais inteligente e mais letal, uma abominação híbrida fabricada geneticamente no laboratório do dissimulado e malvado Eli, (Rafe Spall) o secretário de Lockwood , para servir de arma de guerra.

[Veja o “trailer” de “Mundo Jurássico: Reino Caído”:]

Este arquétipo ancestral dá o mote ao filme, que sucede a “Mundo Jurássico” (2015). Não há nada que seja novo ou original aqui. “Mundo Jurássico: Reino Caído”, realizado pelo espanhol J.A. Bayona (autor de um arrepiante filme de terror, “O Orfanato”, de 2007) é mais um caso de “baralha e volta a dar”, de manipulação dos mesmos elementos do limitado ADN narrativo da série pelos seus autores, na tentativa de surpreender os espectadores. Que já conhecem a receita de cor e salteado, apesar da apresentação aparentemente nova dos ingredientes, e da introdução do Indoraptor à galeria de dinossauros. Em “Mundo Jurássico: Reino Caído”, a abandonada Ilha Nublar está em risco de ser arrasada por um vulcão, que irá matar os dinossauros que por lá andam à solta depois da destruição do parque da primeira fita.

[Veja a entrevista com o realizador J.A. Bayona:]

Entra em cena de novo Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), antiga executiva do “Mundo Jurássico”, agora ativista dos direitos dos dinossauros, que pretende que o governo financie uma missão de salvamento dos animais à Ilha Nublar (até no cinema é o contribuinte que é chamado a pagar os delírios dos militantes das causas fofinhas). Após ter recebido uma negativa do poder, Claire é contactada por Benjamin Lockwood, que pôs de pé uma operação privada de resgate dos dinossauros, a que esta adere, levando consigo dois membros da sua equipa  (essencialmente, para servirem de alívio cómico e protagonizarem uma série de situações estereotipadas), e Owen Grady (Chris Pratt), antigo tratador de dinossauros do parque e responsável por treinar e domar Blue, a última Velociraptor existente.

[Veja a entrevista com Bryce Dallas Howard e Chris Pratt:]

Uma vez chegados à Ilha Nublar, a fábrica de clichés começa a funcionar em pleno. Há dinossauros em pânico, humanos traiçoeiros, a obrigatória sequência de terror com um T-Rex e salvamentos “in extremis”. De volta à civilização, o argumento continua a debitar clichés, enquanto se vai afundando na inverosimilhança e no absurdo. E temos dinossauros transformados em mercadoria, humanos espezinhados, atirados pelos ares e mastigados pelos monstros e, nos intervalos das sequências de ação, discursos moralizadores contra a privatização das pesquisas científicas, a exploração dos animais, o perigo da extinção das espécies, a manipulação genética e a clonagem (neste último capítulo, há um subenredo risível envolvendo a neta de Lockwood e a personagem da governanta, interpretada por Geraldine Chaplin).

[Veja uma cena do filme:]

“Mundo Jurássico: Reino Caído” quer ter sol na eira e chuva no nabal. Petende ser, em simultâneo, um “monster movie” como mandam as regras, com muito espetáculo de dinossauros a arrasarem coisas, a espalharem o terror e a deglutirem gente, e um filme com preocupações ambientais, que dá lições “éticas” e deixa “avisos” sérios, rematados pelo discurso final da personagem de Jeff Goldblum, resgatada à primeira trilogia para vir dar um sermão de lugares-comuns hollywoodescos e com barbas bíblicas sobre os perigos do progresso científico e as ameaças do homem à natureza. O final desta segunda fita da nova trilogia deixa as portas escancaradas para a continuação, que deve chegar aos cinemas em 2021. Mas a verdade é que já estamos fartinhos desta série bombástica e esgotada, destes dinossauros digitais e das histórias de juntar por pontinhos em que os metem.

Se há alguém que os está a explorar de forma indecente, para fins meramente lucrativos e com valor cinematográfico e de entretenimento nulo, não são os vilões desta fita. São os responsáveis pelas duas trilogias nascidas do “Parque Jurássico” original que Steven Spielberg realizou em 1993, a partir do livro de Michael Crichton. Ao pé desta clonagem interminável de filmes de dinossauros para monetização intensiva, a do Indoraptor  de “Mundo Jurássico: Reino Caído” é trabalho de meninos ingénuos.

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