O anterior rei de Espanha, Juan Carlos I, terá uma conta bancária no Mónaco sob o nome do primo, Álvaro de Orleans de Borbón, e outra na Suíça em nome do advogado suíço, Dante Canonica. Esta é uma das notícias que está a ser avançada pelo jornal El Español com base nas escutas à mulher apontada como antiga amante do rei, Corinna zu Sayn-Wittgenstein. A conversa com a filantropa alemã terá sido gravada sem o seu conhecimento em 2015, numa reunião secreta em Londres com José Villarejo Pérez e Juan Villalonga Navarro.

Corinna manteve um relacionamento com o monarca entre 2006 e 2013. A separação do casal ocorreu na sequência do escândalo que gerou muitas críticas ao monarca por uma viagem ao Botswana para caçar elefantes. A alemã vive no Mónaco, um paraíso fiscal, e é o único nome conhecido envolvido no escândalo financeiro relacionado com paraísos fiscais Paradise Papers. Estes são algumas das revelações retiradas das escutas que estão a ser divulgadas esta quarta-feira na imprensa espanhola.

Corinna zu Sayn-Wittgenstein na 8º Annual Clinton Global Citizen Awards em Nova Iorque, 21 de setembro de 2014. (Michael Loccisano/Getty Images)

Contas em paraísos fiscais e propriedades secretas

Na conversa, Corinna revela vários dados sobre os negócios secretos do monarca agora deposto, assim como o nome de vários envolvidos. Entre as revelações, a filantropa alemã afirma ter posse de várias propriedades do rei e estar a ser pressionada para as passar para o nome do um primo próximo do rei, Álvaro de Orleans de Borbón. Segundo Corinna, Juan Carlos estaria a aproveitar-se da legislação do Mónaco, que não obriga à declaração de bens, para esconder propriedades.

“Eles colocaram algumas coisas em nome do seu primo, Álvaro de Orleans de Borbón, que também mora no Mónaco. As contas bancárias na Suíça foram colocadas em seu nome…. Agora eles estão a tentar fazer com que eu passe essas coisas [propriedades] para Álvaro através de Dante [Canonica]. Eles estão a fazer guerra comigo porque eu não quero cometer um crime”, cita o site Ok Diário.

“Ele está a colocar uma pressão bárbara em mim para lhe devolver essas coisas, mas se eu o fizer violo a lei e posso ir para a cadeia”, afirma num outro momento da conversa relatado pelo Diário Perfil. “Por exemplo: enviar dinheiro e dar-lhe coisas… isso é branqueamento [de capitais].”

O primo do monarca terá negado estas acusações quando questionado pelo El Español.

O outro testa de ferro referido é Dante Corina, um advogado suíço que trabalhou vários anos para o escritório Rhode Gestión de Arturo Fasana, que foi condenado no âmbito do caso Gürtel por tráfico de influência, fraude fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Fasana montou uma rede de empresas em paraísos fiscais com o propósito de esconder e branquear capitais ligados a benefícios de corrupção. De acordo com a ex-amante de Juan Carlos, Dante Corina estava encarregue de receber e enviar pagamentos fora de Espanha sob as ordens de Fasana.

Pagamentos de voos privados

Durante a gravação, Corinna reafirma as ligações dos associados de Juan Carlos a polémico caso Gürtel, nomeadamente à conta bancária Soleana. A conta suíça terá sido criada para movimentar e ocultar fundos de empresários espanhóis.

Segundo a ex-amante, o monarca terá usado esta conta, usando o primo como intermediário, para fazer o pagamento de uma série de voos privados para Los Angeles. Os aviões eram alugados à companhia aérea britanica Air Partner e partiam da zona militar de Torrejón, de forma a não serem controlados.

Propriedades em Marrocos

Segundo Corinna, uma das propriedades em causa é em Marrocos. A filantropa afirma que neste negócio Juan Carlos estava em contacto com alguém próximo do rei deste país, sendo Dante Cononica o intermediário. A propriedade foi colocada numa estrutura que era gerida pelo advogado suíço.

Como nem o antigo rei nem o representante marroquino podiam dar-se como beneficiários do negócio, Corinna foi designada no negócio. Contudo, garante que foi incluída no negócio sem o seu conhecimento prévio ou consentimento. Nas gravações, a alemã queixa-se de estar a ser pressionada para devolver as propriedades ao rei, mas teme faze-lo por poder ser acusada de branqueamento em Inglaterra, onde se encontrava em 2015 quando esta conversa ocorreu.

A reunião secreta

As gravações que chegaram agora à imprensa resultam de uma reunião secreta que terá decorrido em 2015 na sua propriedade de Eaton Square, Londres. De acordo com o espanhol Público, Corinna ter-se-á encontrado com entre José Villarejo Pérez e Juan Villalonga Navarro na sequencia de um encontro com o diretor do CNI (Centro Nacional de Inteligencia).

Corinna alega que foi pressionada e ameaçada de morte por Félix Sanz Roldán para não revelar a relação íntima com o monarca. Terá sido este o motivo que a levou a requisitar os serviços de Villarejo, através de um amigo comum (Villalonga). A alemã teria a intenção de apresentar queixa no Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o presidente do governo devido às ameaças de morte, mas terá antes contratado Villarejo para chantagear a Casa Real, relatou ainda o espanhol Público em março de 2017.

José Villarejo Pérez

José Villarejo Pérez é um ex-comissário da polícia espanhola. Encontra-se preso desde novembro de 2017 por organização criminosa, suborno e branqueamento de capitais. Segundo a acusação, o comissário servia-se do seu estatuto como membro das autoridades ao serviço dos seus clientes. Villarejo foi contratado por vários empresários proeminentes espanhóis para fazer as acusações que pendiam sobre eles desaparecerem.

Juan Villalonga Navarro

Juan Villalonga Navarro é um proeminente empresário espanhol. Ao longo da carreira ocupou os cargos parceiro na McKinsey & Company (1980–1989), CEO na Credit Suisse First Boston (1993–1994), CEO na Bankers Trust in Spain (1995–1996) e CEO da Telefónica (1996–2000). Foi também um membro do conselho administrativo do  Espirito Santo Financial Group até setembro de 2011.