Esta terça-feira, um avião caiu no México. E temeu-se o pior um pouco por todo o mundo: um mundo que viu, nos últimos anos, um avião cair com uma equipa de futebol inteira, um avião da Germanwings despenhar-se no mar e provocar 150 vítimas mortais e um avião da Malaysia Airlines desaparecer arrastando 239 pessoas. Mas aconteceu aquilo por que menos se esperava.

Todas as 103 pessoas (4 tripulantes e 99 passageiros) que seguiam a bordo do voo comercial da Aeromexico sobreviveram. 49 pessoas estão hospitalizadas mas apenas duas têm ferimentos graves (uma delas é o piloto). O caso do desastre aéreo mexicano é raro mas não é único. Desde o maior acidente de aviação em território português, em 1977, até ao milagre no rio Hudson, em 2009, existem muitas outras histórias de quedas de aviões em que uma ou mais pessoas sobreviveram.

Além do lugar em que se está sentado, os especialistas atribuem à idade o principal fator chave para sobreviver a um desastre aéreo. E claro, a sorte.

“Tudo depende do tipo de impacto e do local da aeronave que sofre danos”, explica David Learmount, um especialista em segurança aérea, ao The Guardian. Estatisticamente, os jovens do sexo masculino têm maior probabilidade de sobrevivência do que todos os outros: “As pessoas com maiores condições para sobreviver são homens jovens e saudáveis. Se sobreviveres a um acidente, normalmente um incêndio começa logo de seguida e os primeiros a sair são os que sobrevivem. E esses tendem a ser homens jovens habituados a viajar. Estão em forma, são jovens e saudáveis e sabem onde estão as saídas”.

Maio de 2018, Cuba

112 vítimas mortais, uma sobrevivente

Maylén Díaz Almaguer foi a única sobrevivente do desastre aéreo do passado mês de maio, em Havana, Cuba. O Boeing 737-200 da companhia mexicana Global Air tinha sido alugado pela companhia aérea Cubana de Aviación e estava a fazer a rota local entre a capital cubana e a cidade de Holguín. Despenhou-se com 113 pessoas a bordo, pouco depois de levantar voo. As razões ainda são desconhecidas.

Maylén foi uma de três mulheres cubanas que conseguiram chegar vivas ao hospital: as outras duas acabaram por morrer nos dias seguintes. 112 pessoas morreram.

A rapariga de 19 anos permanece internada no hospital e voltou a ser notícia no passado mês de julho por ter regressado aos cuidados intensivos. Respira através de um ventilador e tem lesões pulmonares que dificultam o funcionamento dos órgãos vitais. Foi operada à perna esquerda e os médicos garantem que vão surgir novas complicações mas mantêm-se otimistas: garantem que a sobrevivência de Maylén “não tem precedentes”.

Maio de 2010, Líbia

103 vítimas mortais, um sobrevivente

O pai morreu, a mãe morreu, o irmão morreu. Ruben sobreviveu. O rapaz holandês, de apenas nove anos, foi o único sobrevivente da queda do Airbus A330-200 da Afriqiyah Airways na Líbia, em 2010.

Proveniente da África do Sul, o avião despenhou-se pouco antes de aterrar no aeroporto de Tripoli. A investigação concluiu que o piloto não teve visibilidade suficiente para aterrar e atribuiu à tripulação a ausência de monitorização e controlo da trajetória. Morreram 103 pessoas: a maioria eram turistas holandeses.

Foi resgatado dos escombros inconsciente e ainda preso pelo cinto da cadeira. Sofreu múltiplas fraturas e foi operado às duas pernas. Recuperou rapidamente e regressou à Holanda, onde agora vive com os tios.

Ruben van Assouw quis regressar à Líbia dois anos depois do acidente mas acabou por cancelar a viagem devido à Primavera Árabe. Em entrevista ao Daily Mail, em 2014, disse que quer “mostrar aos líbios que está bem”.

Junho de 2009, Oceano Índico

152 vítimas mortais, uma sobrevivente

“No meio do luto, há Bahia. É um milagre, é uma batalha absolutamente extraordinária pela sobrevivência.  É uma mensagem enorme que ela envia ao mundo. Quase nada é impossível”. Foi assim que Alain Joyandet, o ministro da Cooperação francês na altura, descreveu a história de Bahia Bakari, a rapariga francesa que sobreviveu a um acidente de avião em junho de 2009.

O Airbus A310 da Yemenia despenhou-se no Oceano Índico, ao largo das Comores. Bahia, na altura com 12 anos, mal sabia nadar e não tinha colete salva-vidas. Agarrou-se a um bocado do avião destruído e flutuou durante nove horas até ser encontrada pelas equipas de resgate. A mãe foi uma das 152 vítimas mortais do acidente.

Quando foi encontrada teve de ser convencida de que tinha acontecido um desastre aéreo: estava em estado de choque e afirmou múltiplas vezes que tinha caído do avião depois de empurrar a janela com a testa com demasiada força.

Um ano depois, escreveu o livro “I’m Bahia, the miracle girl” — sou a Bahia, a rapariga milagre, em português – e terá recusado um convite do realizador Steven Spielberg, que queria adaptar o livro ao cinema.

Agosto de 1987, Estados Unidos

148 vítimas mortais, uma sobrevivente

Não tem qualquer memória do acidente. No dia 16 de agosto de 1987, Cecelia Cichan tinha quatro anos e viajava com a mãe, o pai e o irmão mais velho no voo 255 da Northwest Airlines. O avião despenhou-se pouco depois de descolar do aeroporto de Detroit. Morreram 148 pessoas: Cecelia foi a única sobrevivente.

Foi encontrada agachada debaixo do banco, junto ao corpo da mãe. Hoje é casada, psicóloga e tatuou um avião no braço para não se esquecer daquilo por que passou.

As culpas do acidente foram atribuídas ao piloto. Além dos passageiros — onde se incluía Nick Vanos, jogador de basquetebol nos Phoenix Suns — e da tripulação, o desastre aéreo provocou outras duas vítimas mortais no solo.

Outubro de 1972, Peru

29 vítimas mortais, 16 sobreviventes

É, muito provavelmente, o desastre aéreo mais conhecido da história. Foi contada em livro sete vezes e adaptada ao cinema outras sete (o filme mais conhecido é “Alive”, de 1993).

Em outubro de 1972, o FH-227D da Força Aérea uruguaia despenhou-se com 45 passageiros a bordo na cordilheira dos Andes, no Peru. As equipas de buscas procuraram por sobreviventes durante 10 dias e concluíram que ninguém tinha resistido ao acidente.

Mas estavam enganados. 29 pessoas, incluindo uma equipa inteira de râguebi, sobreviveram ao desastre, ao frio, à fome e aos mais de 3.000 metros de altitude. Ainda assim, apenas 16 passageiros acabariam por ser resgatados com vida: oito morreram numa avalanche e outros não resistiram aos ferimentos. Os sobreviventes, que se alimentaram dos cadáveres dos mortos, foram encontrados mais de dois meses depois do acidente.

Novembro de 1977, Madeira

164 vítimas mortais, 33 sobreviventes

Foi e continua a ser o maior desastre aéreo em território português. Em novembro de 1977, sob uma grande tempestade, o Boeing 727-200 da TAP voava desde Bruxelas até à Madeira. O comandante João Costa tentou aterrar no Funchal por duas vezes e a terceira foi a derradeira: o avião sofreu uma hidroplanagem, saiu de pista e partiu-se em dois. A parte da frente incendiou-se, a de trás ficou em cima de uma ponte.

Morreram 156 passageiros e oito membros da tripulação. Sobreviveram 33 pessoas. Os cadáveres estiveram durante dias no edifício do aeroporto, à espera do reconhecimento dos familiares, e as urnas para a transladação tiveram de ser encomendadas a funerárias do continente porque não havia suficientes na Madeira.

Na investigação ao acidente, a TAP detetou “acumulações de borracha” na pista do aeroporto de Santa Catarina, o que não permitiu o escoamento das chuvas e provocou o aquaplaning do avião.

Janeiro de 2009, Estados Unidos

Todas as 155 pessoas a bordo sobreviveram

Em setembro de 2016, “Sully: Miracle on the Hudson” chegava aos cinemas. O filme, baseado nas memórias do piloto Chesley Sullenberger, tinha Tom Hanks no papel principal e Clint Eastwood na realização. Era um bom filme. Mas a história real é ainda melhor.

Em janeiro de 2009, Chesley Sullenberger era o piloto do Airbus A320-214 da US Airways que viajava desde Nova Iorque até Seattle. Depois de descolar, vários gansos foram de encontro ao avião. O motor perdeu força, incendiou-se, e não era possível aterrar de emergência em nenhum aeroporto.

Sullenberger e o segundo piloto, Jeffrey B. Skiles, conseguiram realizar uma descida com o motor desligado e parar o avião no rio Hudson, que separa Nova Iorque e Nova Jérsia. O piloto saiu do cockpit e ordenou a evacuação do avião: todos saíram da aeronave, incluindo um passageiro em cadeira de rodas, e ficaram nas asas, dentro de água ou nadaram para longe com receio de uma explosão.

Todas as 155 pessoas a bordo foram resgatadas. O acidente ficou conhecido como “o milagre no Hudson”.